Levien a encontrou onde o som da música já não alcançava.
O corredor lateral era estreito, iluminado apenas por arandelas antigas que lançavam sombras longas sobre as paredes douradas. Ali, o baile parecia distante — como se o mundo elegante fosse apenas uma fachada para o que realmente importava.
Lays estava próxima à janela, o ar frio da noite tocando seu rosto descoberto. Ela havia retirado a máscara.
Levien parou por um segundo.
Sem a máscara, ela era ainda mais perigosa.
— Você não deveria estar aqui sozinha — ele disse, aproximando-se.
— Nem você — ela respondeu, sem se virar.
Ele parou a poucos passos dela.
— Eu mandei você esperar.
— Eu esperei — disse, finalmente olhando para ele. — Só não prometi obedecer.
Algo nos olhos dela o atingiu com força. Não era desafio puro. Era consciência. Como se ela soubesse exatamente o peso de cada passo que dava.
— Tirei a máscara porque estava cansada de fingir — continuou. — E porque achei que você merecia ver quem eu sou.
— Você não faz ideia do que merece ou não — ele respondeu. — Pessoas como eu não recebem verdades. Só consequências.
Ela deu um pequeno sorriso triste.
— Então talvez seja hora de quebrar esse padrão.
Levien se aproximou mais, o suficiente para que ela sentisse sua presença inteira.
— Diga — ele exigiu. — Quem é você de verdade?
O silêncio se alongou. O tipo de silêncio que antecede uma explosão.
— Meu nome completo é Lays Volkov — ela disse, firme. — Filha de Sergei Volkov.
O mundo de Levien parou.
O maxilar dele se contraiu lentamente.
— Volkov… — repetiu. — Seu pai é meu aliado mais próximo.
Ela assentiu.
— E o homem que me proibiu de chegar perto de você desde que aprendi a entender o que o seu nome significa.
Levien deu um passo para trás, como se o chão tivesse se movido.
— Isso é uma brincadeira perigosa — disse. — Se alguém descobrir…
— Já descobriram — ela o interrompeu.
A voz dela baixou.
— Meu pai sabe que estamos conversando.
Os olhos de Levien se tornaram frios. Calculistas.
— Então isso foi uma armadilha?
— Não — ela respondeu rapidamente. — Foi uma escolha. Minha.
Ele a encarou por longos segundos.
— Você tinha mil maneiras de me evitar — disse. — Escolheu a pior.
— Ou a única honesta.
Levien passou a mão pelo rosto, respirando fundo.
— Você não entende o que isso significa — disse. — Seu pai me confiou coisas que ninguém mais conhece. Se ele achar que estou cruzando essa linha…
— Ele já acha — ela disse. — E não vai aceitar.
Como se tivesse sido invocado pelo próprio nome, passos ecoaram no corredor.
Sergei Volkov surgiu na entrada, o rosto sério, os olhos avaliando a cena como quem confirma um medo antigo.
— Lays — disse, em tom baixo, mas duro. — Afaste-se.
Ela não se moveu.
— Pai…
— Agora.
Levien deu um passo à frente.
— Isso não é necessário — disse, controlado. — Nada aconteceu.
Sergei riu sem humor.
— Ainda — respondeu. — Mas vai. Você não toca no que é meu.
A tensão no ar era quase palpável.
— Ela não é uma posse — Levien disse, a voz mais fria do que qualquer lâmina.
— Neste mundo, tudo é — Sergei retrucou. — Inclusive ela. Inclusive você.
Lays sentiu o coração apertar.
— Eu não sou uma moeda de troca — disse. — Nem para você, pai. Nem para ele.
Sergei a olhou com algo entre raiva e preocupação.
— Você não sabe com quem está brincando.
— Sei sim — ela respondeu. — E é exatamente por isso que não vou fingir que nada aconteceu.
Os olhos de Levien se fixaram nela. Intensos. Cheios de algo que ele não se permitia nomear.
— Esta conversa termina agora — Sergei disse. — Ou termina m*l.
Levien inclinou-se levemente em direção a Lays.
— Olhe para mim — disse baixo.
Ela obedeceu.
— A partir deste momento — continuou —, qualquer passo perto de mim será vigiado. Qualquer olhar, interpretado. Qualquer escolha… cobrada.
— Eu sei — ela respondeu. — Mesmo assim, não me arrependo.
Sergei cerrou os punhos.
— Isso não acabou — ele disse. — Apenas começou.
Enquanto ele se afastava com Lays, Levien permaneceu imóvel no corredor.
Pela primeira vez em anos, algo havia escapado ao seu controle.
E pela primeira vez, ele sabia exatamente o nome do perigo que se aproximava.