Capítulo 5 — O Preço de Se Aproximar

822 Palavras
A chuva começara fina, quase silenciosa, cobrindo a cidade como um aviso tardio. Lays saiu pela porta lateral da residência sem ser vista, o capuz escuro escondendo os cabelos e parte do rosto. O coração batia rápido demais — não de medo, mas de consciência. Ela sabia exatamente o que estava fazendo. Sabia que estava quebrando uma ordem direta do pai. Sabia que, se fosse descoberta, nada mais seria simples. Mesmo assim, foi. O carro preto a aguardava a uma quadra de distância. Sem placas visíveis. Vidros escuros. O tipo de veículo que não existia nos registros, mas comandava respeito nas ruas. A porta traseira se abriu. — Entre — disse a voz grave que ela reconheceria em qualquer lugar. Levien. Ela entrou, o ar dentro do carro carregado de tensão silenciosa. Ele estava ali, de terno escuro, expressão fechada, os olhos fixos nela como se quisesse decorá-la — ou se convencer de que ainda dava tempo de mandá-la embora. — Isso é uma péssima ideia — ele disse assim que o carro começou a se mover. — Mesmo assim você veio — ela respondeu. — Para impedir que algo pior aconteça. — Ou porque não conseguiu ficar longe — ela provocou, mas a voz não tinha ironia. Só verdade. Ele passou a mão pelo rosto, tenso. — Você não faz ideia do que colocou em movimento esta noite — disse. — Seu pai não confia facilmente. E quando confia… exige lealdade absoluta. — E alguém que exige tanto sempre cria inimigos — ela respondeu. O carro parou em um galpão antigo, afastado, protegido por seguranças discretos. Levien saiu primeiro, observando o entorno antes de ajudá-la a descer. O toque dele em sua mão foi rápido, mas firme — protetor demais para alguém que insistia em manter distância. Dentro do galpão, o silêncio era pesado. — Este lugar é seguro — ele disse. — Por enquanto. — “Por enquanto” não soa muito tranquilizador — ela respondeu. — Neste mundo, tranquilidade é uma mentira perigosa. Eles ficaram frente a frente. Perto demais. Sozinhos demais. — Por que você realmente me chamou aqui, Levien? — ela perguntou. Ele hesitou. — Porque alguém falou demais — disse por fim. — E esse alguém trabalha para o seu pai. O olhar dela se endureceu. — Quem? — Um homem chamado Viktor — respondeu. — Ele vende informações. Sempre vendeu. Hoje, resolveu vender as suas. O estômago de Lays se revirou. — Meu pai confia nele — disse. — Confiava — Levien corrigiu. — Viktor contou a um rival que você esteve comigo esta noite. Disse que você não foi apenas curiosa. Disse que foi… escolhida. O silêncio caiu pesado. — Isso me coloca em risco — ela murmurou. — Coloca você em perigo real — ele disse, firme. — E coloca seu pai em uma posição impossível. Ela respirou fundo. — Então você vai me afastar agora? — perguntou, olhando direto nos olhos dele. — Vai me mandar de volta como se nada tivesse acontecido? Levien se aproximou um passo. Apenas um. — Tudo em mim diz para fazer isso — confessou. — Para te manter longe. Intocável. Fora do alcance. — E o que está te impedindo? Ele fechou os olhos por um segundo. — Você. A palavra caiu entre eles como um disparo silencioso. — Se alguém tentar te usar contra mim… — ele continuou —, não vou hesitar. Mas se eu te mantiver perto… você vira um alvo ainda maior. — E se eu for embora? — ela perguntou. — Você realmente acha que isso me protege? Ele a encarou, sério. — Não. — Então pare de fingir que afastar-se é a solução — ela disse, a voz firme, mas carregada de emoção. — Me diga a verdade. Ele segurou o rosto dela com cuidado, como se fosse algo precioso demais para apertar. — A verdade — disse baixo — é que, desde o momento em que você disse seu nome, tudo ficou fora de controle. E eu odeio isso. — Eu também — ela sussurrou. — Mas não consigo parar. Os olhos dele desceram para os lábios dela por um segundo rápido demais para ser ignorado. Ele se afastou imediatamente, como se tivesse encostado em fogo. — Isso precisa acabar — disse, mais para si mesmo. Antes que pudessem continuar, um dos seguranças entrou apressado. — Temos um problema — disse. — Um carro suspeito foi visto a duas quadras. Não é nosso. Levien imediatamente se colocou à frente de Lays. — Leve-a para o fundo — ordenou. — Agora. Ela segurou o braço dele. — Você vem comigo. Ele a olhou, intenso. — Sempre — respondeu. Enquanto se afastavam pelos corredores escuros do galpão, uma coisa ficou clara para ambos: alguém havia cruzado uma linha. E, a partir daquele momento, amar — ou mesmo se aproximar — poderia custar muito mais do que eles estavam preparados para pagar.
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