A chuva começara fina, quase silenciosa, cobrindo a cidade como um aviso tardio.
Lays saiu pela porta lateral da residência sem ser vista, o capuz escuro escondendo os cabelos e parte do rosto. O coração batia rápido demais — não de medo, mas de consciência. Ela sabia exatamente o que estava fazendo. Sabia que estava quebrando uma ordem direta do pai. Sabia que, se fosse descoberta, nada mais seria simples.
Mesmo assim, foi.
O carro preto a aguardava a uma quadra de distância. Sem placas visíveis. Vidros escuros. O tipo de veículo que não existia nos registros, mas comandava respeito nas ruas.
A porta traseira se abriu.
— Entre — disse a voz grave que ela reconheceria em qualquer lugar.
Levien.
Ela entrou, o ar dentro do carro carregado de tensão silenciosa. Ele estava ali, de terno escuro, expressão fechada, os olhos fixos nela como se quisesse decorá-la — ou se convencer de que ainda dava tempo de mandá-la embora.
— Isso é uma péssima ideia — ele disse assim que o carro começou a se mover.
— Mesmo assim você veio — ela respondeu.
— Para impedir que algo pior aconteça.
— Ou porque não conseguiu ficar longe — ela provocou, mas a voz não tinha ironia. Só verdade.
Ele passou a mão pelo rosto, tenso.
— Você não faz ideia do que colocou em movimento esta noite — disse. — Seu pai não confia facilmente. E quando confia… exige lealdade absoluta.
— E alguém que exige tanto sempre cria inimigos — ela respondeu.
O carro parou em um galpão antigo, afastado, protegido por seguranças discretos. Levien saiu primeiro, observando o entorno antes de ajudá-la a descer. O toque dele em sua mão foi rápido, mas firme — protetor demais para alguém que insistia em manter distância.
Dentro do galpão, o silêncio era pesado.
— Este lugar é seguro — ele disse. — Por enquanto.
— “Por enquanto” não soa muito tranquilizador — ela respondeu.
— Neste mundo, tranquilidade é uma mentira perigosa.
Eles ficaram frente a frente. Perto demais. Sozinhos demais.
— Por que você realmente me chamou aqui, Levien? — ela perguntou.
Ele hesitou.
— Porque alguém falou demais — disse por fim. — E esse alguém trabalha para o seu pai.
O olhar dela se endureceu.
— Quem?
— Um homem chamado Viktor — respondeu. — Ele vende informações. Sempre vendeu. Hoje, resolveu vender as suas.
O estômago de Lays se revirou.
— Meu pai confia nele — disse.
— Confiava — Levien corrigiu. — Viktor contou a um rival que você esteve comigo esta noite. Disse que você não foi apenas curiosa. Disse que foi… escolhida.
O silêncio caiu pesado.
— Isso me coloca em risco — ela murmurou.
— Coloca você em perigo real — ele disse, firme. — E coloca seu pai em uma posição impossível.
Ela respirou fundo.
— Então você vai me afastar agora? — perguntou, olhando direto nos olhos dele. — Vai me mandar de volta como se nada tivesse acontecido?
Levien se aproximou um passo. Apenas um.
— Tudo em mim diz para fazer isso — confessou. — Para te manter longe. Intocável. Fora do alcance.
— E o que está te impedindo?
Ele fechou os olhos por um segundo.
— Você.
A palavra caiu entre eles como um disparo silencioso.
— Se alguém tentar te usar contra mim… — ele continuou —, não vou hesitar. Mas se eu te mantiver perto… você vira um alvo ainda maior.
— E se eu for embora? — ela perguntou. — Você realmente acha que isso me protege?
Ele a encarou, sério.
— Não.
— Então pare de fingir que afastar-se é a solução — ela disse, a voz firme, mas carregada de emoção. — Me diga a verdade.
Ele segurou o rosto dela com cuidado, como se fosse algo precioso demais para apertar.
— A verdade — disse baixo — é que, desde o momento em que você disse seu nome, tudo ficou fora de controle. E eu odeio isso.
— Eu também — ela sussurrou. — Mas não consigo parar.
Os olhos dele desceram para os lábios dela por um segundo rápido demais para ser ignorado. Ele se afastou imediatamente, como se tivesse encostado em fogo.
— Isso precisa acabar — disse, mais para si mesmo.
Antes que pudessem continuar, um dos seguranças entrou apressado.
— Temos um problema — disse. — Um carro suspeito foi visto a duas quadras. Não é nosso.
Levien imediatamente se colocou à frente de Lays.
— Leve-a para o fundo — ordenou. — Agora.
Ela segurou o braço dele.
— Você vem comigo.
Ele a olhou, intenso.
— Sempre — respondeu.
Enquanto se afastavam pelos corredores escuros do galpão, uma coisa ficou clara para ambos:
alguém havia cruzado uma linha.
E, a partir daquele momento, amar — ou mesmo se aproximar — poderia custar muito mais do que eles estavam preparados para pagar.