O primeiro disparo quebrou o silêncio da noite.
O som seco ecoou pelo galpão como um aviso definitivo de que o tempo das escolhas havia acabado.
— Abaixe-se! — Levien gritou, puxando Lays com força para trás de uma coluna de concreto no instante seguinte.
O segundo tiro atingiu a parede onde ela estava segundos antes. Fragmentos voaram, o cheiro de pólvora tomou o ar. O coração de Lays disparou, mas ela não gritou. Não congelou. Apenas respirou fundo, os dedos cravados no braço dele.
— Eles sabem que estamos aqui — ela disse, a voz baixa, mas firme.
— Sabem demais — Levien respondeu, sacando a arma com movimentos precisos. — Fique atrás de mim. Não discuta.
— Eu não vou te atrasar.
Ele a encarou por um segundo, intenso.
— Eu sei.
Passos apressados ecoaram do lado de fora. Vozes em russo. Ordens curtas. Profissionais.
— Quantos? — ela perguntou.
— Pelo menos quatro — ele respondeu. — Talvez mais.
Levien tocou rapidamente o comunicador no ouvido.
— Trancar perímetro. Ninguém entra. Ninguém sai — ordenou. — Se Viktor estiver entre eles… eu quero vivo.
A palavra Viktor caiu pesada.
— Então foi ele — Lays murmurou.
— Foi — Levien confirmou. — E seu pai vai precisar saber.
Outro disparo. Mais perto.
Levien se moveu, cobrindo o avanço dos homens com precisão fria. Cada gesto era calculado, letal, sem desperdício. Ele não parecia exaltado. Parecia… decidido.
Lays observava, o peito apertado.
Ela não estava vendo apenas um homem poderoso.
Estava vendo alguém lutando para protegê-la.
Um dos atacantes surgiu pelo corredor lateral. Levien reagiu rápido demais para ser visto com clareza. Quando o corpo caiu, o silêncio voltou por um segundo — pesado, irreal.
— Temos que sair daqui — ela disse.
— Ainda não — ele respondeu. — Eles querem você viva. Isso nos dá vantagem.
— Você está falando como se isso fosse apenas estratégia.
Ele se aproximou dela, segurando seu rosto com cuidado, apesar do caos ao redor.
— Não é — disse, sério. — É exatamente por isso que estou com raiva.
— Raiva de quem?
— De mim — respondeu. — Porque tudo isso poderia ter sido evitado se eu tivesse te afastado no primeiro instante.
Ela segurou o pulso dele.
— Você não fez isso porque não quis — disse. — Não minta agora.
Antes que ele pudesse responder, o comunicador voltou a chiar.
— Levien — a voz de Sergei surgiu, dura. — Temos Viktor sob custódia. Ele confessou.
O maxilar de Levien se contraiu.
— Confessou o quê?
— Que vendeu informações sobre minha filha — Sergei disse. — Para três famílias rivais.
Lays fechou os olhos por um instante.
— Ele assinou a própria sentença — Levien disse, frio.
— Não — Sergei respondeu. — Ele assinou a sua.
Houve um silêncio tenso.
— Você cruzou uma linha hoje — Sergei continuou. — Protegendo o que não devia. Escolhendo antes de ser autorizado.
Levien olhou para Lays. Ela o olhou de volta.
— Então essa é a escolha — Sergei disse. — Poder… ou ela.
O som distante de sirenes ecoou.
Levien respondeu sem hesitar.
— Se tocar nela — disse, a voz firme —, não vai sobrar império para você governar.
Do outro lado, Sergei ficou em silêncio.
— Isso não é uma ameaça — Levien continuou. — É um fato.
Lays sentiu o ar faltar.
— Levien… — ela murmurou. — Você está se colocando contra tudo.
Ele se aproximou, a testa tocando levemente a dela, ignorando o caos ao redor.
— Já estava — disse. — Desde o momento em que você disse seu nome.
As mãos dele seguraram as dela com força suficiente para transmitir algo que palavras não alcançavam.
— Se você ficar comigo — continuou —, não haverá volta. Não haverá p******o que não custe sangue. Não haverá promessas vazias.
— Eu sei — ela respondeu, sem hesitar. — E ainda assim… estou aqui.
Levien fechou os olhos por um segundo.
Quando os abriu, a decisão estava feita.
— Então ninguém encosta em você — disse. — Nem meu mundo. Nem o dele.
O último dos atacantes recuou quando percebeu que a emboscada havia falhado.
Mas ambos sabiam:
aquilo não fora um ataque isolado.
Foi uma declaração de guerra.
E, naquela noite, entre tiros, traições e escolhas irreversíveis, Levien Ivanov deixou de ser apenas um homem de poder.
Tornou-se um homem disposto a perder tudo.
Por ela.