O silêncio depois da violência era sempre o mais c***l.
O galpão agora estava vazio, exceto pelo eco distante de passos e pelo cheiro metálico que ainda pairava no ar. Lays sentava-se em uma caixa de madeira, os braços em volta do próprio corpo, tentando regular a respiração. O perigo havia passado — mas não ido embora. Apenas mudado de forma.
Levien observava o perímetro pela última vez antes de se aproximar dela. O terno estava manchado de poeira, o rosto sério demais para alguém que acabara de vencer uma emboscada. Quando parou diante dela, não parecia um homem triunfante.
Parecia alguém que acabara de perder algo invisível.
— Você está machucada? — perguntou, a voz baixa.
— Não — ela respondeu. — Só… sentindo demais.
Ele assentiu lentamente, como se entendesse melhor do que gostaria.
— Isso é culpa minha.
— Não — Lays disse, levantando-se. — É consequência. E eu escolhi ficar.
Levien passou a mão pelo cabelo, frustrado.
— A partir de hoje — disse —, tudo muda. Meus aliados vão questionar minha liderança. Meus inimigos vão se multiplicar. E Sergei…
Ele parou.
— Meu pai vai te destruir — ela completou.
Como se tivesse sido chamado pelo próprio nome, o telefone de Levien vibrou.
Ele atendeu.
— Você fez sua escolha — a voz de Sergei surgiu, fria, controlada demais para não ser perigosa. — E escolheu m*l.
— Não ameace o que você não pode proteger — Levien respondeu.
— Ela não é sua — Sergei retrucou. — E agora, também não é mais minha filha. Enquanto estiver ao seu lado… será tratada como sua fraqueza.
Lays sentiu o chão sumir sob os pés.
— Se tocar nela — Levien disse, cada palavra calculada —, a guerra deixa de ser silenciosa.
Sergei riu.
— Já começou, Levien. E você acabou de perder o privilégio de não ser meu inimigo.
A ligação caiu.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
— Ele falou sério — Lays murmurou.
— Ele sempre fala — Levien respondeu. — E cumpre.
Ele se aproximou dela, devagar, como se tivesse medo de assustá-la. Quando parou à sua frente, tocou-lhe o rosto com cuidado quase reverente.
— Eu nunca quis isso para você — disse. — Nunca quis te puxar para dentro desse mundo.
— Mas eu já estava dentro — ela respondeu. — Só fingia que não via.
Os olhos dele se suavizaram por um instante.
— Se você for embora agora — ele continuou —, posso te tirar do país. Te dar uma nova identidade. Você estará segura.
O coração dela apertou.
— E você?
— Eu fico — respondeu. — Porque alguém precisa segurar esse império de pé… mesmo em chamas.
Ela respirou fundo, sentindo o peso da escolha cair sobre seus ombros.
— E se eu ficar com você? — perguntou.
Levien fechou os olhos por um segundo.
— Então você perde seu pai — disse. — Perde o nome. Perde a p******o. Perde qualquer versão de vida simples que ainda restava.
— E o que eu ganho?
Ele a puxou para perto, a testa tocando a dela. O mundo pareceu desaparecer naquele gesto simples.
— A verdade — respondeu. — Mesmo que doa. Mesmo que custe tudo.
As mãos dela subiram até o peito dele, sentindo o coração bater forte, real.
— Eu tenho medo — ela confessou.
— Eu também — ele disse. — Mas não de perder poder. De perder você.
O silêncio entre eles foi quebrado apenas pelo som distante da chuva voltando a cair.
— Você não pode escolher por mim — Lays disse, por fim. — Nem meu pai. Nem você.
Ela se afastou um passo, os olhos firmes apesar do brilho contido.
— Minha escolha é ficar — disse. — Mas não como sua fraqueza. Como alguém que decide caminhar ao seu lado… sabendo o preço.
Levien a encarou como se estivesse vendo-a pela primeira vez.
— Então isso nos torna iguais — disse.
Ele segurou as mãos dela com força suficiente para prometer p******o.
— E torna a guerra inevitável.
Lays assentiu.
Lá fora, em algum lugar da cidade, Sergei Volkov já reunia seus homens.
E naquela noite, enquanto duas vontades se uniam em meio aos escombros do que eram antes, o amor deixava de ser apenas um risco.
Passava a ser um ato de resistência.