O salão estava em silêncio quando Lays entrou.
Não era o mesmo salão do baile. Não havia música, máscaras ou lustres dourados. Apenas mármore frio, janelas fechadas e homens armados posicionados como estátuas. O poder ali não precisava de espetáculo.
Sergei Volkov estava de pé diante da mesa central, as mãos apoiadas na madeira escura. Não sorriu ao vê-la. Também não demonstrou surpresa.
— Você voltou — disse, com a voz baixa e controlada. — Como eu sabia que voltaria.
Lays caminhou até ele sem baixar os olhos.
— Eu não voltei como filha — respondeu. — Voltei para encerrar isso.
Algo no olhar de Sergei se alterou. Rápido. Perigoso.
— Você fala como se tivesse poder — disse ele. — Mas ainda respira porque eu permito.
— Não — Lays rebateu. — Eu respiro porque você ainda acredita que pode me usar.
O silêncio se espalhou pelo salão como uma lâmina.
— Levien Ivanov te corrompeu — Sergei disse. — Fez você esquecer quem é.
— Ele me mostrou quem eu sou sem você — ela respondeu, sentindo o coração bater forte, mas mantendo a voz firme. — E isso é algo que você nunca suportou.
Sergei se aproximou um passo.
— Tudo o que você tem existe por minha causa — disse. — O nome. A p******o. A vida.
— E tudo o que eu perdi também — ela respondeu. — Minha escolha. Minha voz. Minha liberdade.
Ele a encarou por longos segundos.
— Você é minha maior falha — disse por fim. — E minha maior fraqueza.
— Não — Lays respondeu. — Sou o limite que você nunca respeitou.
Do outro lado da cidade, Levien Ivanov observava o mapa projetado sobre a mesa de vidro. Cada ponto vermelho representava um posto, um aliado de Sergei, um pilar do império que ele ajudara a construir.
— Comecem — ordenou, a voz fria. — Sem recuo.
Os primeiros ataques aconteceram quase simultaneamente. Armazéns tomados. Rotas fechadas. Contas congeladas. Homens mudando de lado por sobrevivência.
A guerra silenciosa finalmente havia se tornado aberta.
De volta ao salão, Sergei percebeu o que estava acontecendo antes que qualquer um ousasse dizer.
— Ele começou — murmurou.
— Sim — Lays confirmou. — E não vai parar.
Sergei riu, mas havia algo quebrado naquele som.
— Ele acha que pode me derrubar por você — disse. — Acha que amor sustenta um império.
— Não — ela respondeu. — Mas dá coragem para queimá-lo.
Ele ergueu a mão.
— Leve-a — ordenou a um dos homens.
Lays não recuou.
— Se fizer isso — disse —, você perde tudo. Porque Levien não vai negociar. E eu não vou implorar.
Sergei a encarou como se estivesse vendo uma estranha.
— Então esta é sua escolha final?
— É — ela respondeu. — E você nunca vai perdoar.
Sergei abaixou lentamente a mão.
— Não — disse. — Nunca vou.
O telefone dele tocou.
Ele atendeu.
O rosto endureceu.
— Ivanov tomou o porto leste — disse a voz do outro lado. — E o banco central cortou nosso acesso.
Sergei fechou os olhos por um instante.
Quando os abriu, havia guerra pura ali.
— Diga a ele — falou, ao telefone — que isto não termina hoje.
Lays respirou fundo.
— Termina sim — disse. — Porque depois de hoje, nada do que éramos vai existir.
Sergei se virou para ela pela última vez.
— Se você cruzar essa porta agora — disse —, deixa de ser minha filha.
— Eu sei — Lays respondeu. — E você deixa de ser meu pai.
Ela se virou e caminhou para fora sem olhar para trás.
Naquela mesma noite, Levien Ivanov deu a ordem que selaria o destino de ambos os impérios.
— Não parem — disse. — Até que reste apenas silêncio.
E enquanto a cidade ardia em alianças quebradas, traições expostas e estruturas ruindo, uma verdade se impunha:
o amor deles havia atravessado o ponto de retorno.
Agora, só restava saber
quem sobreviveria ao que vinha depois.