Capitulo 06

1135 Palavras
Metralha narrando Cheguei no posto já sentindo o corpo cobrar. Cada passo parecia mais pesado que o outro. O sangue já tinha esfriado na pele, grudando na roupa, puxando quando eu me mexia. O braço latejava num ritmo constante, irritante… como se estivesse lembrando a todo segundo que eu tinha passado do limite, mas parar nunca foi opção. Nunca. Assim que entrei, as enfermeiras me viram. Na hora, já mudaram o semblante. Assustadas. Correram na minha direção. — Meu Deus, patrão… Uma delas já veio empurrando uma cadeira de rodas. Olhei praquilo e balancei a cabeça, negando. — Só preciso de uns pontos e depois eu taco marcha. Elas se entreolharam. Sabiam que não iam discutir. Ninguém ali discute comigo quando eu tô nesse estado. — Patrão, a doutora vai atendê-lo — uma delas falou, mais firme. Assenti de leve e segui andando. Cada passo doía, mas eu mantinha a postura. Não era ali que eu ia demonstrar fraqueza. Entrei na sala da doutora e fechei a porta atrás de mim. O ambiente era limpo demais pra realidade que eu vinha carregando do lado de fora. Silencioso. Controlado. Quase outro mundo. A doutora puxou a cadeira e apontou pra mim. — Patrão, senta. Obedeci. Não por submissão… mas porque sabia que precisava. O local do tiro latejava forte agora, como se tivesse acordado de vez. Minha cabeça doía de um jeito estranho… pressão, peso… como se fosse explodir a qualquer momento. Respirei fundo, tentando manter o foco. — Vou examinar o ferimento, tudo bem? — Ela falou com calma. — Vou precisar que o senhor tire a camiseta. Assenti, mas quando fui puxar… travou. O tecido grudado no sangue. Puxei mais uma vez. Nada. — Esquece! — murmurei. Ela já entendeu. Pegou a tesoura e cortou. O som do tecido rasgando ecoou no silêncio da sala. Olhei de relance. Gostava pra c*****o daquela camisa, mas agora não importava. Depois eu comprava outra. Agora eu precisava parar aquela p***a de sangramento. Ela começou a analisar a ferida, com cuidado. — A bala atravessou… — ela foi dizendo, concentrada. — Isso é bom, não ficou alojada, mas vai precisar de pontos. Fiquei quieto, ouvindo. Já acostumado com esse tipo de situação. Só queria que resolvesse rápido. Ela continuava explicando o procedimento, quando a porta abriu com força. Na hora. Instinto. Minha mão já puxou a arma e apontou. Rápido. Preciso. O coração acelerou, mas quando vi quem era… baixei. Karla. Ela entrou já falando. Sem nem respirar direito. — Que p***a é essa, João?! O que aconteceu contigo?! O olhar dela correu direto pra doutora. Feio. Pesado e eu já saquei na hora. Ciúmes. De novo. Ela veio até mim, me analisando, tocando meu braço com cuidado, mas com aquele jeito dela… misto de preocupação com irritação. — O que foi isso? Quem fez isso contigo? A doutora tentou manter o profissionalismo. — Ele foi atingido, mas a bala atravessou. Vamos precisar apenas suturar o ferimento— — Tirar a roupa faz parte disso? — Karla cortou, seca, olhando pra ela. Pronto. Ali eu já vi. Ela queria arrumar problema. Respirei fundo, passando a mão no rosto. — Karla… — minha voz saiu mais firme. Ela nem olhou pra mim. Continuou encarando a doutora. — Eu tô perguntando. A doutora manteve a calma. — Sim, faz parte do procedimento. Silêncio pesado. Eu ajeitei a postura na cadeira. — Já deu! — falei, firme. — A doutora tá fazendo o trabalho dela. Ela virou pra mim. — Eu só— — Eu sei o que tu tá fazendo — cortei, olhando direto nos olhos dela. — E não é agora. A mandíbula dela travou, mas ela ficou quieta. Por enquanto. Porque quando Karla entra nesse estado… ela vira outra pessoa. Já vi ela quebrar coisa. Já vi ela partir pra cima de gente maior que ela sem pensar duas vezes. Ciúmes nela não é brincadeira. É explosão. A doutora voltou a falar, tentando manter o foco. — Vou pedir pra enfermeira fazer a sutura, já que o ferimento não é profundo, mas antes mesmo dela terminar… Karla já falou. — Não precisa! A doutora olhou pra ela. — Eu mesma faço! Fiquei olhando aquilo por um segundo. A doutora hesitou, mas sabia. Ali não era lugar de discussão. — Tudo bem! — respondeu. Simples assim. A gente saiu da sala e foi pra enfermaria. Caminhei até a cadeira e sentei, sentindo o corpo pesar mais agora. A adrenalina tava abaixando e isso… isso sempre cobra. Karla pegou o material. Organizou tudo em silêncio. Prendeu o cabelo. Colocou a luva e veio na minha direção. Fiquei observando. Ela sempre foi firme. Desde o começo. Foi isso que me chamou atenção. Sempre do meu lado. Sem medo. Sem recuar. Meu fechamento, mas amor… amor é outra parada e eu sei. Se tem alguém que eu amo de verdade nessa vida… é minha irmã. Jéssica. Ela é a única. A única que mexe comigo de um jeito que ninguém mais mexe. Karla é importante, mas não é isso. Nunca foi. — Fica quieto — ela falou, começando o procedimento. Assenti. A agulha entrou. A dor veio, mas nada comparado ao que eu já tava sentindo. Fiquei ali, quieto, deixando ela fazer. Ponto por ponto. Concentrada. Sem errar. Sem tremer. — Pronto! — ela disse, dando o último ponto. Soltei o ar devagar. — Beleza. Já comecei a levantar. — Bora lá que eu vou te levar pra casa e resolver as paradas do morro. Ela me olhou como se eu tivesse ficado maluco. — Você ficou louco, João? Tu vai pra casa comigo. Olha teu braço. Balancei a cabeça. — Vou não. Já comecei a andar. — Tem uma pá de coisa pra resolver e ainda tenho que buscar a grana que tá na mata. Ela travou por um segundo. — Então o assalto deu certo? Olhei pra ela de lado. — Claro, né, fih! O pai é desenrolado. Ela até esboçou um sorriso, mas eu continuei. — Só que os moleques fizeram merda e eu tenho que resolver. Ela cruzou os braços. — Mesmo assim, você não tá em condição. — Tô sim. — Não tá. Parei. Olhei pra ela. Firme. — Karla. Silêncio. — Vai pra casa. Ela me encarou por alguns segundos. Sabia que não ia ganhar, mas não gostou. — Daqui a pouco eu chego lá — continuei. — E vê se não fica brigando com a Jéssica. Revirei o olhar de leve. — Tá me ouvindo? Ela bufou. — Tô. Mas já virou os olhos. Clássico. Saímos do posto juntos. O ar lá fora ainda tava pesado. Cheiro de pólvora. Tensão no ar e minha cabeça… já tava em outro lugar. Porque a guerra ainda não tinha acabado e eu… ainda tinha muita coisa pra resolver.
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