Karla Narrando
Tem erro que não tem volta. Não tem desculpa. Não tem segunda chance. Só tem consequência. E eu aprendi isso da pior forma possível.
Antes de tudo… antes do João, antes dessa vida… eu era outra pessoa. Ou pelo menos eu achava que era.
Eu era enfermeira. Trabalhava no posto aqui do morro mesmo. Não era nada de luxo, não tinha estrutura, não tinha equipamento de ponta… mas eu gostava. Gostava de cuidar. Gostava de sentir que, de alguma forma, eu fazia diferença na vida de alguém.
Talvez porque, no fundo, eu sempre quis que alguém tivesse feito isso por mim.
Cresci com meu irmão. Ele sempre foi do movimento. Desde cedo. Eu tentei ir por outro caminho. Estudar, trabalhar, fazer "o certo". Mas a verdade é que o certo nem sempre protege a gente. E nem sempre salva.
Meu irmão sempre me dizia:
— Uma hora tu vai ver que esse mundo não é do jeito que tu pensa.
E eu sempre batia de frente.
— E tu acha que isso aqui é melhor?
Ele nunca respondia. Só olhava. Como se já soubesse que um dia eu ia entender.
E eu entendi. Só não foi do jeito que eu queria.
O dia do erro… eu nunca vou esquecer. Nunca.
Era um plantão comum. Correria, gente entrando e saindo, criança chorando, gente reclamando… tudo normal. Até deixar de ser.
A paciente já tinha dado entrada com dor forte. Nada fora do comum. A médica passou o medicamento, explicou o procedimento… e eu fui fazer. Automático. Rotina. Confiança demais.
Erro.
Eu apliquei o medicamento errado. Na hora… nada aconteceu. Mas minutos depois… o quadro mudou. Rápido demais. Ela começou a passar m*l. Convulsionar. Desespero.
A equipe inteira tentando reverter. Mas eu já sabia. No fundo… eu já sabia. Tinha sido eu.
E quando confirmaram… foi como se o mundo tivesse parado. Ela morreu. Por minha causa.
Não teve processo. Não teve polícia. Aqui não funciona assim. Mas teve julgamento. E o pior deles… foi o meu.
Eu não consegui continuar. Não dava. Cada vez que eu entrava naquele posto… eu via ela. Via o olhar. Via o momento.
Então eu larguei. Simples assim. Abandonou tudo. A profissão. O jaleco. A versão de mim que eu achava que ainda tinha salvação.
Depois disso… eu me perdi um pouco. Sem rumo. Sem propósito. Só vivendo um dia de cada vez.
Até ele aparecer de verdade na minha vida. Porque ver… eu já via.
João. Ou melhor… Metralha. Todo mundo conhecia. Todo mundo respeitava. E todo mundo tinha um pouco de medo também.
Eu sempre observei de longe. O jeito dele. A postura. O controle. Ele não era como os outros. Nunca foi. Mas a gente nunca tinha trocado uma palavra.
Até aquele dia.
Teve invasão. Daquelas grandes. O morro inteiro virou caos. Tiro pra todo lado. Gente correndo. Desespero.
E ele… ele tava no meio. Como sempre. Mas dessa vez… ele caiu.
Eu vi de longe. O corpo dele sendo puxado pra trás, sangrando. Naquele momento… eu não pensei. Não pensei em medo. Não pensei no que podia acontecer comigo. Só fui.
Corri até ele. O sangue já tava escorrendo forte. A galera em volta sem saber o que fazer. Desesperados.
— Sai! — eu gritei, já me ajoelhando do lado dele.
Apliquei pressão. Analisei rápido. Respiração. Pulso. Consciência. Tudo no automático. Como se eu nunca tivesse parado. Como se aquela parte de mim ainda estivesse ali, intacta.
— Fica comigo — falei pra ele, firme.
Ele me olhou. E naquele olhar… tinha tudo. Dor. Raiva. E vida. Muita vida.
Eu segurei ele ali. Controlei o sangramento. Dei as ordens.
— Leva pro posto! Agora!
E fui junto. Não saí de perto. Nem um segundo. Fiquei até estabilizar. Até ter certeza de que ele não ia morrer.
E foi ali… que tudo começou.
Depois disso, ele passou a me ver. De verdade. Não só como mais uma no morro. E eu também… comecei a enxergar ele diferente. Mais perto. Mais real.
A gente se aproximou. Sem forçar. Sem pressa. Só aconteceu. E quando eu percebi… eu já tava dentro. Com ele. Na vida dele. Na casa dele.
E eu não me arrependo. Nem por um segundo.
Porque apesar de tudo… eu amo ele. Do meu jeito. Do jeito que eu sei. Intenso. Protegendo. Defendendo. Mesmo quando eu erro. Mesmo quando eu passo do limite.
Porque eu sei que passo. Eu sei que às vezes exagero. Que o ciúme fala alto. Que eu surto. Mas não é à toa. É medo. Medo de perder. Medo de alguém tomar o que é meu.
E sim… eu penso assim. Porque eu lutei por isso. Eu fiquei. Eu não virei as costas. Eu escolhi ele.
E eu não vou deixar ninguém separar a gente. Ninguém.
Nem mesmo ela. Jéssica. A irmã perfeita. A intocável. A que todo mundo tem que aceitar.
Eu tentei. De verdade. No começo, eu tentei. Mas ela nunca me aceitou. Nunca. Sempre com aquele olhar de julgamento. Como se soubesse de tudo. Como se fosse melhor.
E isso me irrita. Muito. Porque ela não sabe o que eu carrego. Não sabe o que eu já fiz. O que eu já perdi. O que eu já aguentei.
Mas age como se soubesse. E o pior… o João nunca vê. Ou finge que não vê. Sempre passa pano pra ela. Sempre.
E isso me consome. Porque eu sei que, pra ele… ela vem primeiro. Sempre vai vir. E eu entendo. Ela é irmã.
Mas eu também sou importante. Ou pelo menos… deveria ser.
E eu não vou aceitar ficar em segundo plano dentro da minha própria casa. Não vou. Se eu tiver que bater de frente… eu bato. Se eu tiver que gritar… eu grito. Se eu tiver que mostrar que eu tô aqui… eu mostro.
Porque eu não sou do tipo que abaixa a cabeça. Nunca fui. E não vai ser agora que eu vou começar.
Eu amo ele. Mas amor também é luta. E eu tô pronta pra isso. Contra quem for. Até contra ela.
Porque no final… só fica quem aguenta. E eu aguento.