Capítulo 08

1106 Palavras
Metralha narrando Eu já sabia que a Karla ia aparecer no posto. Isso aí não era dúvida. Quando ela fica sabendo que eu me machuquei… ela vem. Sempre vem. Nem que tenha que atravessar o morro inteiro no meio do caos. O que eu não esperava… era ela querer assumir o curativo. Mas, pensando bem… se tratando dela? Era óbvio. Quando o assunto sou eu… e tem outra mulher envolvida, nem que seja profissional, ela simplesmente não deixa. Não tem espaço. Não tem conversa. Ou é do jeito dela… ou vira guerra. E naquele momento, eu não tinha tempo pra isso. Nem cabeça. Nem paciência. Deixei ela fazer. Sem discutir. Porque, no fim… o resultado era o mesmo: parar o sangramento e me colocar de pé de novo. E ela fez bem. Como sempre faz quando quer. Só que assim que terminou… já veio com aquela ideia de me levar pra casa, de querer mandar, de querer controlar a situação. E ali… eu já cortei. — Vai pra casa, Karla. — Falei firme. Sem espaço pra questionamento. Mas claro… ela questionou. Sempre questiona. — Você não tá em condição de ficar rodando por aí, João… Nem deixei terminar. — Eu tô sim. — Olhei direto pra ela. Sério. Pesado. — E eu tenho coisa pra resolver. Ela travou por um segundo. Mas insistiu. — Mesmo assim— — Karla. — Cortei de novo. Mais firme. — Não é hora disso. Silêncio. Ela me encarou. Eu encarei de volta. Até ela entender. Ou pelo menos fingir que entendeu. Porque eu conheço. Ela não desiste. Ela só recua pra tentar de novo depois. — Vai pra casa — repeti. — Depois eu colo. E ainda deixei claro: — E vê se não arruma problema com a Jéssica. Ela revirou os olhos. Mas não respondeu. E isso já foi o suficiente. Já estava com a mente já focada no próximo problema. Porque se tem uma coisa que eu não deixo passar… é erro dentro do meu sistema. E os moleques tinham feito merda. Das grandes. Refém? Isso não tava no plano. Nunca esteve. E esse tipo de coisa… atrai atenção demais. Problema demais. Subi o morro devagar. Não porque não tinha pressa. Mas porque precisava ver. Sentir. Entender o cenário. Cada beco que eu passava… tinha marca. Gente limpando o chão. Sangue sendo lavado. Outros carregando corpo. O clima ainda tava pesado. Denso. Cheiro de pólvora misturado com poeira e tensão. — Tá tudo certo, chefe — um dos caras falou quando passei. Assenti de leve. Mas meu olho já dizia tudo. Ainda não tava. Não completamente. Continuei andando. Falando com um, com outro. Ajustando coisa pequena. Observando detalhe. Porque é no detalhe que mora o problema. E quando cheguei na salinha… tudo ficou mais claro. Natanzinho tava na contenção. Arma em punho. Postura firme. Assim que me viu, fez o toque. Respondi na mesma. — Tá tudo na paz? — perguntei. — Tá sim, chefe. Assenti. Mas eu precisava ver com meus próprios olhos. Passei por ele. Abri a porta. Entrei. E fechei atrás de mim. O som da porta batendo ecoou no silêncio. Ela tava lá. Sentada. Amarrada. Cabeça baixa. Parada. Mas no segundo em que ouviu o barulho… levantou o rosto. E nossos olhos se encontraram. Fiquei encarando. Por alguns segundos. Analisando. E ali… eu vi. Medo. Muito. E não era pouco. Mas também… quem não teria? Ela tava no meio de uma guerra que nem era dela. Amarrada. Sem entender nada. Eu puxei a cadeira. Arrastei até ficar na frente dela. Sentei. Sem pressa. Sem falar nada. Só olhando. Tentando entender. Porque tinha alguma coisa ali. Alguma coisa que não encaixava. Aproximei um pouco. E tirei a mordaça da boca dela. Ela puxou o ar na hora. Desesperada. — Por favor… eu não fiz nada… — a voz dela saiu tremida. — Eu nem sei quem são vocês… só me deixa ir embora… Continuei olhando. Sem reagir. Sem interromper. E isso parece que deixou ela mais nervosa ainda. — Eu juro… eu não vou falar nada pra ninguém… nunca mais vocês vão me ver… Silêncio. Eu encostei melhor na cadeira. — Quem é você? — perguntei. Simples. Direto. Ela hesitou. — Isso não importa… Inclinei levemente a cabeça. — Importa pra mim. Ela engoliu seco. — Se você me deixar sair daqui… eu desapareço… você nunca mais vai precisar Soltei uma risada baixa pelo nariz. Sem humor. — Vou perguntar de novo. Inclinei o corpo pra frente. Olhar mais fechado. Mais pesado. — Quem é você? Ela respirou fundo. Visivelmente nervosa. — Meu nome é Ana Luiza. Fiquei em silêncio por um segundo. Processando. — Entendi… Passei a língua pelo canto da boca. — E você faz o que da sua vida, Ana Luiza? Ela piscou algumas vezes. — Eu sou veterinária… — A voz saiu mais baixa. Mais controlada agora. Mas ainda com medo. — Aquela hora… eu tava indo embora… os homens pararam… apontaram arma… mandaram eu entrar no carro… Assenti devagar. — Uhum… Encostei na cadeira. — Tendeu. Fiquei olhando pra ela. Mais uma vez. Analisando. — E você… — Inclinei a cabeça de leve. — Sabe quem eu sou? Ela negou rápido. Rápido demais. Mas o olhar… o olhar entregou. Eu vi. — Não. Silêncio. Eu dei um leve sorriso de lado. — Tem certeza? Ela travou. Respirou fundo. — Tenho… Mas a voz falhou. E aí eu tive certeza. Ela sabia. Só não queria dizer. — Engraçado… — murmurei. Me inclinei um pouco mais pra frente. — Porque eu tenho quase certeza que você tá mentindo. Ela engoliu seco. O corpo tenso. O olhar desviando por um segundo. E voltou pra mim. Mas agora… mais inseguro. Mais exposto. Balancei a cabeça de leve. — Bom… Levantei da cadeira devagar. — Quando tu resolver agir na transparência… Dei um passo pra trás. — E falar com sinceridade… Olhei direto pra ela. — A gente volta a trocar ideia. Virei pra sair. Mas antes que eu chegasse na porta… — Espera! A voz dela saiu desesperada. Parei. Voltei o olhar. Ela tava me encarando. Quase implorando. — Eu… eu sei quem você é… Fiquei em silêncio. Esperando. — Eu já te vi… na... na televisão… Ela respirou fundo. — Eu sei que você é perigoso… A voz tremia. — E eu só quero ir embora… voltar pra minha vida… Fiquei olhando pra ela por alguns segundos. Sem falar nada. Só observando. E aquela sensação voltou. A mesma de antes. Familiar. Estranha. Incomodando. Porque alguma coisa ali… ainda não tava encaixando. E eu não gosto quando as peças não batem. Nem um pouco.
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