Resistindo

1810 Palavras
A parte mais difícil de tudo aquilo era descartar as pessoas. Eu odiava essa parte. Na maioria das vezes eu tinha que fazer aquela também, e mesmo com a minha força, era incômoda toda aquela cena de cavar uma cova. Durante o processo eu não conseguia tirar a menina da cabeça. Eu não falara com ela desde aquela noite, mas Yuri me disse que ela não voltou ao clube. Queria passar para ver se ela estava bem, mas ao mesmo tempo não achava uma boa ideia. Passei horas em conflito interno e por fim, decidi ir até lá. Quando parei o carro em frente à sua casa, algumas crianças vieram olhar ele de perto. Não era um carro comum para a cidade. Eu saí e bati na porta da frente. Uma mulher alta de cabelos vermelho atendeu a porta. -Oi, quem é você? – Ela perguntou desconfiada. -Meu nome é Sofia. Queria saber se a Margot está em casa. -Ela tá aqui sim. Eu sou a mãe. Angelina. – ela disse tirando o pirulito da boca e estendeu a mão para apertar a minha. A sobrancelha dela se franziu e ela entrou. Quando viu que eu não a segui, olhou para trás. -Vai ficar parada aí? – Perguntou desafiadoramente. -Sim, tem como você chamar ela por favor? – Me apoiei no batente da porta. -Tudo bem. Ela subiu as escadas e eu nem tentei entrar, eu tinha que ser convidada e achava melhor não ter acesso a essa casa mais do que o necessário. Quando eu desisti daquela idéia estúpida e me virei para ir embora, ouvi Margot reclamando baixo sem saber que eu conseguia ouvir, depois de um tempo ela desceu as escadas correndo. -Quem quer falar comigo agora, que d***a. Eu estou...Ah, oi! – Ela parou assustada no meio da escada. Ela ficou confusa durante um tempo e depois sorriu. Devia estar se lembrando das coisas que tinha dito. -Desculpa vir sem avisar, você está ocupada, ao que parece. – Me virei e coloquei as mãos para trás. Eu estava alimentada, mas seu cheiro estava muito forte naquela casa. Precisava me concentrar. Antes que eu fizesse alguma besteira. Normalmente eu conseguia me controlar sem problemas, não estava entendendo o que acontecia. -Não, tudo bem. O que você veio fazer aqui? -Vim ver como você está. Yuri me disse que você não voltou ao clube. -Eu estou bem, eu estava esperando a semana de provas passar. – Ela disse encostando na porta e cruzando os braços. -Você está na escola? – perguntei perdida naquele cheiro forte. O cheiro do sangue dela poderia ser um perfume. Ele me puxava em sua direção. Ela estava falando, eu não conseguia focar em sua voz, aquele cheiro embaralhava minha cabeça. -faculdade. História da Arte. — Eu ouvi de longe sua voz e consegui me focar em seu rosto. -Nossa. Então...Você está bem, não é? Eu vou embora. – Disse me virando para ir embora. Eu não podia ficar ali, ela estava muito perto, eu estava quase longe o suficiente quando ela encostou no meu braço e eu congelei. -Não, fica um pouquinho. Eu não preciso estudar nesse momento. -Eu não quero atrapalhar você. – Me virei e ela tinha soltado o cabelo. A onda do cheiro dela me deu vontade de ajoelhar no chão e cavar com as minhas unhas um buraco pra sair dali imediatamente. O que ela fazia comigo? Era ridículo, um sangue não podia ser tão cheiroso, não era possível. -Não vai atrapalhar. Pode entrar, não vou pedir de novo. – “Pode entrar”. Aquelas duas palavras eram perigosas se ditas a um vampiro. Não acredito que ela tinha dito aquilo. Naquele momento a mãe dela desceu as escadas e foi em direção a cozinha. Não acredito que ela usou aquelas palavras comigo. Ela sabia o que eu era. Não consegui mais me segurar, dei um passo e de repente estava dentro daquela casa. Não foi a alternativa mais inteligente, mas eu não podia recusar o pedido da loira, ainda mais depois do que aconteceu no clube. Seria falta de educação. Entrei e ela me puxou pela escada e até o seu quarto. Ele era grande e tinha um banheiro, o que não era comum no Brasil, pelo menos não no quarto de um adolescente. Estava cheio de quadros famosos e outros que pareciam feitos por ela mesma. Eu reconheci Guernica, algumas pinturas rupestres, estava tudo misturado e complementado por aquele cheiro delicioso mais uma vez, grudado em tudo, em todos os lugares. Eu fui i****a de pensar que não seria assim. Era ali que ela passava a maior parte do tempo. E aquele cheiro já era totalmente insuportável pra mim, para não dizer extremamente delicioso. Eu prendi a respiração, antes que fizesse alguma loucura. Me apoiei na parede e ela correu para tirar os livros e apostilas de cima da cama. -Não precisa fazer isso.  – disse olhando para ela de longe. Ela estava descalça e usava um vestido longo e solto. Parecia flutuar pelo quarto como uma fada iniciante aprendendo a voar. -Tudo bem. Ela empurrou tudo para o fundo da cama e sentou. Eu fiquei encostada na parede olhando cada uma de suas pinturas em volta do quarto. -Acho que eu esqueci de falar "não repara não". -É, esqueceu sim. – disse focalizando seus olhos humanos. Seus olhos castanhos estavam mais claros pela luz que entrava pela janela. -Senta aqui, tenho umas perguntas pra você. Quando sentei na beirada da cama eu constatei que não deveria ter ido até aquela casa. Não deveria ter subido aquela escada, muito menos ter entrado naquele quarto. Olhando para trás, em um caso hipotético de tudo aquilo acontecer de novo, assumo com um pouco de vergonha que não faria coisa alguma diferente. -Então, o que você tem pra mim? – Perguntei mexendo na capa de um dos livros na cama. Por um instante me surpreendi por aceitar tão bem responder perguntas, eu nunca ficava confortável falando sobre mim mesma. Mas ela já tinha escutado bastante coisa sobre mim e ficou bem, não faria m*l eu me abrir mais uma vez. - Respondo suas perguntas com uma condição. - Disse tentando igualar aquela situação toda. -Qual? - Ela parecia animada. -Posso te chamar por um apelido? Margot é muito sério e aparentemente você não gostou de loirinha. - Verdade, eu odiei - ela confessou rindo. -Gogo, o que acha? - Perguntei olhando em seus olhos - Não minta. -Eu gostei. -Então tudo bem. O que quer saber? -Bom, eu já sei que você é uma híbrida. Mas percebi que eu não sei muito sobre o assunto. -Muitas pessoas não fazem a menor ideia do que está acontecendo. As que acham que sabem, escrevem coisas piores ainda. Não existe muita informação sobre os híbridos por aí. -Então eu posso perguntar pra você? – Ela se aproximou pulando na cama. -Não acho que seja uma boa idéia. – Disse me afastando. -Eu não vou contar pra ninguém. Por favor? Você me prometeu. – Ela pulou mais uma vez. -Argh...o que você quer saber? – suspirei encostando na cama e encarando a loira. -O que você sabe sobre seus pais? -Pouca coisa. Meu pai era um anjo e minha mãe uma vampira...uma boazinha, pelo menos o quanto se pode ser sendo uma vampira. Enfim, eles se apaixonaram e eu nasci. Fim. -E como você ficou sabendo disso? – Ela perguntou tirando os livros da cama e guardando na prateleira. -Yuri, o dono da boate que te contratou. Ele era amigo da minha mãe. -Ah. Sinto muito, sabe, pelos seus pais. -Tudo bem, eu não conheci eles, acho que assim fica mais fácil. Ela ficou me encarando durante um tempo então decidi mudar o rumo da conversa. -Então, o que você está estudando? -Arte na Mesopotâmia. -Ah, sim... Okay. – Não sabia mais o que falar, precisava sair dali. Aquele cheiro iria me m***r. Ela levantou da cama e foi até a porta, a trancando. Eu me levantei e parei ao seu lado. -Então, eu preciso ir. – disse me encostando na parede. Ela tomou um susto com a minha super velocidade, mas tudo bem, ela esqueceria tudo aquilo quando eu fosse embora. -Não precisa não. – ela colocou a chave no bolso do vestido, o que ela faria? Eu cogitei a idéia de sair pela janela. Não era uma queda alta. -É melhor eu ir sim. Você precisa estudar...né? Parece bem difícil. –Ela se aproximou de mim e me prendeu na parede. Na verdade, ela nunca teria forças de fazer aquilo, mas eu estava muito distraída e com medo da minha força. -Não é tão complicado.- Ela disse beijando a minha boca devagar. Eu correspondi o beijo durante uns segundos de choque mas logo depois a afastei segurando em seus braços. -O que você está fazendo? – perguntei surpresa olhando em seus olhos. -Beijando você. Eu acho. Se você não sabe é porque eu fiz errado. -Não. Não faz isso. Não vai dar certo. – eu a soltei e ela colocou as mãos apoiadas na parede nos dois lados da minha cabeça. -Tudo bem. Não tem que dar certo. – Ela sorriu me encarando. Eu senti que ela ia me beijar outra vez e não tinha forças para afastar ela de mim de novo. Ela encostou a boca na minha e eu viajei naquela sensação de frenesi como antes. Era a mesma sensação de quando eu provei seu sangue. Eu não conseguia colocar meus pensamentos em ordem. Tudo a minha volta sumia num turbilhão e no meio disso tudo, seu cheiro. Eu só queria ela mais perto, sentia o sangue dela pulsar no pescoço e a peguei em meus braços, deitando ela na cama. Ela mordeu meu pescoço e riu com sua piada interna, me fazendo tremer de excitação e ao mesmo tempo, arrepiando meu corpo, me lembrando da noite no clube. A noite em que eu quase a matei. Soltei ela rapidamente e sentei na cama passando a mão em meus cabelos, nervosa. -O que foi dessa vez? – Ela sentou prendendo o cabelo. -É perigoso demais eu ficar assim perto de você. – Disse ofegante. Eu precisava sair dali. Que ideia ridícula foi aquela? -Você não vai me machucar, vai? – Ela se aproximou mais uma vez. -Eu não pretendo, mas já fiz isso no clube. E você sabe como foi. Eu preciso ir, agora. Adeus. Não esperei ela levantar para destrancar a porta, eu simplesmente saí pela janela. Quando eu me afastei o bastante para não sentir mais o cheiro de seu sangue, minha garganta começou a queimar de sede. Eu dei um pulinho na favela, não sabia qual era e achei um cara pra morder. Eu estava alimentada mas não satisfeita. Não depois daquilo. Eu precisava dela, e isso era a pior coisa que eu podia estar sentindo.
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