Sofia comia e eu a olhava fascinada. Eu nunca tinha visto uma pessoa comer de uma forma tão...bonita. O que ela estava fazendo comigo, com a minha cabeça? Eu estava enlouquecendo, era a única explicação.
Eu não conseguia parar de olhar pra ela. Aqueles olhos castanhos derretidos, dançando devagar me provocando e me puxando pra perto. Ela era totalmente sensual, mesmo quando não queria ser. Eu estava divagando mais uma vez. Sabia que ela queria explicações, mas eu ainda não estava preparada para acabar com aquela cena linda.
-O que foi? -ela perguntou com o hamburguer parado no ar.
-Nada, eu gosto de ver você comendo. Isso aí tá bom?
-Ah, isso está muito bom. Você quer um pouco? — Ela estendeu o hambúrguer na minha direção. Eu tinha comido aquilo uma vez, era horroroso. Um pedaço de papelão seria mais gostoso.
-Não, pode comer. —Eu me reclinei na cadeia e já estava mergulhando mais uma vez naqueles olhos quando ela me tirou do meu transe.
-Então, eu tenho algumas perguntas.
-Acharia estranho se não tivesse. Não sei se eu posso te falar algumas coisas, mas você pode perguntar. —Eu iria falar tudo a ela se ela perguntasse. Ela tinha um domínio sobre mim que eu não conseguia explicar.
-Então tudo bem. Karen é sua sobrinha mais velha. E a mãe dela era sua irmã?
-Minha mãe adotiva me achou e me criou, depois de um tempo, mamãe ficou grávida da mãe delas. É complicado, minha mãe e meu pai de verdade foram assassinados durante a guerra dos místicos e dos angelicais, quando eu tinha dois anos.
—Místicos. - eu disse quando percebi a cara de dúvida estampada em seu rosto
-São as criaturas sobrenaturais que se escondem da população humana. Elas travam uma luta com o povo de cima, os angelicais. Os anjos os chamam de demônios, os demônios os chamam de Nefilins. Minha mãe era vampira e meu pai era um anjo. Eles se apaixonaram. Clichê, e lutaram em lados opostos da guerra. Clichê. Então minha mãe foi morta pelo general dos anjos e meu pai tentou vingar a morte dela. O general o matou e eu nunca mais os vi. Ygor me escondeu naquele dia, porque o general também queria me m***r. Yuri me colocou em uma agência de adoção nos Estados Unidos. Minha mãe adotiva me achou um ano depois. Ela me trouxe pro Brasil, eu cresci e então Yuri me encontrou. Ele me explicou tudo que acontecia comigo e aqui estamos.
—Nossa. É muita coisa, mas por enquanto, acho que eu já estou bem na parte de história. Eu já acabei, queria te levar em um lugar, se você quiser ir. —Ela levantou os olhos e por um momento eu fiquei sem ar.
-Você sabe dirigir?
-Claro que eu sei dirigir. -ela disse piscando pra mim.
-Saiba que você não me convenceu nem um pouco. – disse enquanto levantava da mesa e jogava as coisas no lixo. Margot riu pegando a chave do carro no meu bolso. Era esquisito, mas eu estava feliz por ela não ter se assustado tanto, e quando lembrei que ela só não o fez porque eu a tinha compelido a fazer aquilo, me senti h******l. Tirei o pensamento da cabeça. Ela estava parada na frente do carro me esperando e eu me aproximei devagar.
-Não vai abrir a porta pra mim? – perguntei passando meus dedos em sua franja.
-Ah, sim. Esqueci. – ela ficou vermelha e deu a volta no carro enquanto eu a seguia. – Não estou acostumada a ser educada.
-Falando em educação...-disse me sentando e esperando ela a entrar no carro.- Se você não quiser ir ao jantar sexta, é só me avisar.
-Porque eu não iria querer ir? Você não quer que eu vá?
-Nem eu quero ir. Por mim eu simplesmente te levava a Paris no fim de semana.
-Ah, claro. Paris. Acho que prefiro o jantar da sua sobrinha. – Ela disse tentando esconder seu rosto triste.
-Ei, qual o problema? – perguntei segurando sua mão.
-Eu tenho medo de voar.
-Você já voou. Comigo.
-Não, mas aquilo foi diferente. Você estava me segurando. Eu tenho medo de aviões, helicópteros e etc. Já falei isso, eu acho. – ela riu e deu partida no carro. -Então quer dizer que eu sou sua namorada?
-Achei que você deixaria isso pra lá. Bom, eu achei que seria o melhor termo para te apresentar a Karen. Sei que ainda não temos nada oficial.
-Ainda - Ela interrompeu me dando um sorriso torto.
- Mas você com toda certeza deve ter percebido que eu sinto algo por você. Ou você não saberia de tantas coisas, e nós não teríamos ficado juntas. Argh, você entendeu o que eu quis dizer. - A cada palavra eu me sentia mais sem graça, e ela ria descaradamente de mim.
- Eu gostei. - Ela disse baixinho assim que parou de rir.
- De que?
- De ser apresentada como sua namorada. - Ela disse e eu suspirei aliviada. Nós estávamos no centro, e ela fez o caminho da zona sul, ela dirigia com confiança, mas percebi que ela tinha ficado incomodada com o assunto sobre voar. Eu pensei em uma coisa mas achei melhor não falar nada. Não seria certo fazer aquilo com ela. Se eu a forçasse eu nunca me perdoaria. Então eu simplesmente aumentei o som do carro ela cantava as músicas alto também. Eu ria e não conseguia tirar meus olhos dela. De seus cabelos loiros, seus cílios curvados e as sardas em seu nariz. Não sabia o que pensar mas sabia que eu não deixaria nada acontecer à ela.