O jantar

2125 Palavras
-Uau. – eu estava sem ação quando bati na porta da casa de Margot. Ela estava deslumbrante em seu vestido degrade indo do branco até o preto. Seu cabelo estava preso e seu perfume camuflava o cheiro de seu sangue. E mesmo assim eu estava hipnotizada. O feitiço da sereia, de fato. Margot tinha um poder sobre mim que em quase 100 anos não tinha visto igual. —Perfeita. —Você está linda. – Ela disse pegando a chave da porta e saindo. – Eu disse que iria encontrar com você na sua casa. — Achei melhor passar aqui. Não iria deixar você ir até o centro no metrô vestida assim. Seria desconfortável. E você está maravilhosa. – segurei sua mão e ela se assustou se afastando. – O que foi? -Sua pele está muito quente. Você está doente? -Não, só estou nervosa. —Minha pele costumava ser muito fria, mas quando eu estava perto de Margot, não conseguia abaixar a temperatura do meu corpo...ele parecia borbulhar em sua presença. Eu tinha medo de que ela não gostasse da festa. Deus sabe que Karen gosta de exagerar nas decorações. -Ei, vai dar tudo certo. – ela disse segurando minha mão em cima da ignição. – Além do mais, acho que quem deve ficar nervosa sou eu. Sua sobrinha é um pouco intimidante. -Eu também acho, amor. – disse dando partida no carro. A casa de Karen ficava na Barra da Tijuca e não era o que podemos chamar de uma casa pequena. Estacionei o carro dentro da garagem enorme. Com toda certeza Carol estaria aqui. Ela ainda não sabia sobre Margot...bom, pelo menos não por mim. Com toda certeza Karen já contou tudo que sabia para ela. A boca de Margot se abria cada vez mais à medida que nós nos aproximávamos do jardim da casa. -Nossa, ainda bem que eu coloquei esse vestido. – Eu apertei a mão dela, tentando acalmá-la. -Você está ótima. Fique calma. Entramos no deque do jardim e eu vi as luzes das velas flutuando na piscina. Eu não ia aquela casa há muito tempo, mas senti uma sensação boa em estar ali. Karen olhava em volta e quando pousou os olhos em mim, pediu licença e veio em minha direção. -Vocês vieram. Estão lindas. -Não é como se você tivesse dado uma escolha. – disse sorrindo enquanto Margot agradecia o elogio. – E eu trouxe o vinho. -Meu favorito, você lembrou! Obrigada titia. Bom, fiquem à vontade. Os garçons vão servir vocês. – Karen sorriu para nós e se afastou voltando para seu grupo de amigos. Eu segurei na mão de Margot e a puxei até a sacada do jardim, dali de cima, ao longe, a gente via a orla da praia da Barra e as luzes em volta. Ela suspirou e eu a soltei. —O que foi? Passei os dedos em seu rosto, tentando decifrar sua expressão. Ela estava de maquiagem, mas não muita, eu ainda conseguia ver as sardas em seu nariz. Ela era magnífica. —Eu gosto de ficar assim com você...eu nunca senti isso antes. —Ela disse se virando para o parapeito enquanto suas bochechas ficavam vermelhas de vergonha. Do que ela estava falando? -O que você nunca sentiu antes? – perguntei encostando o queixo em seu ombro enquanto passava meus braços por sua cintura. -Amor. Obrigada por me mostrar como é. – ela disse suspirando e fechando os olhos triste. Virei ela na minha direção e passei minhas mãos por seu rosto. -Por que esta falando assim? O que houve? —Ela de repente parecia tão triste. Seus olhos escondiam uma ponta de medo que ela não me deixava descobrir do que era. Eu podia protegê-la, será que ela não vê? -Nada ainda...-ela deu um sorriso fraco mas eu conseguia perceber que ela ainda estava muito triste. Ia continuar o assunto mas uma coisa me chamou atenção. Na areia da praia deserta eu pude ver asas enormes e logo que as asas levantaram vôo na minha direção o tempo parou. Tudo a minha volta tinha parado, olhei na direção de Margot e ela parara com sua mão no ar segurando a taça de vinho na direção de seus lábios. Eu sorri baixinho, eles sempre vinham acompanhados de um teatrinho, eram tão cheios de si. O anjo parou planando no céu com suas asas que brilhavam refletindo a luz da lua. As deles eram de um tom esplêndido de azul, eu olhei para frente e encarei o general do exército nephilim. -Olá General, o que aconteceu de tão grave que você foi obrigado a descer a Terra e interromper meu jantar? – subi no parapeito da varanda para ficar mais próximo do rosto perturbadoramente angelical do general. -Olá, Sofia. Nós dois sabemos que não precisa me chamar assim, eu sou só Gabriel para você. – Ele desceu até o parapeito e ficou de pé ao meu lado, encarando as pessoas paralisadas. Ele deu uma boa olhava no rosto de Margot e fez uma cara confusa, me deixando alerta. —O que pretende com a visita, senhor? – perguntei chamando atenção dele que desviou o rosto de Margot. Ele abriu seu sorriso falso e segurou minha mão. -Você deve ter ficado sabendo, não? Estamos recrutando. -Vocês estão me recrutando desde que eu nasci. Eu tentei uma vez, mas não vai dar certo. E eu sei que a espada petricor foi roubada, ouvi rumores na boate. -Nem me fale daquele antro de perdição, parece que as notícias correm rápido mesmo. -Tão rápido quanto o icor correndo no seu pescoço e indo até o seu coração, e voltando, numa dança torturante para mim. – Disse encarando a veia de seu pescoço que latejava. Eu não estava com sede, mas queria me livrar dele o mais rápido possível. -Parece que você gosta bastante de se torturar então, senhorita Song. Até eu que não sou...ahn...da sua espécie, por assim dizer, estou sentindo o cheiro do sangue dela.—Ele disse voltando a analisar Margot, me deixando ainda mais nervosa. —Vocês devem... —Estamos juntas. General. – disse apenas e me segurei para não pular em seu pescoço. —Engraçado, parece que eu já a conheço, talvez ela já tenha me visto...eu sou muito bom com rostos. Enfim, preciso ir e você precisa voltar a sua festa, só lembre-se. Eu não costumo aparecer muito, mas eu sempre consigo o que eu quero. Boa festa, Sofia. Aproveite a calmaria. Ela logo vai embora. Ele levantou vôo e de repente todos voltaram a se mexer e me olhavam assustados. Margot pousou o vinho devagar, estendeu a mão e eu desci do parapeito da varanda. Eles voltaram a conversar e eu suspirei aliviada. -O que houve? Porquê você subiu aí? Parece que você viu um fantasma. – Ela disse pegando um lenço e me abanando. Ela colocou a mão na minha testa e tirou assustada. – Você está tão gelada...o que aconteceu? -Nada que mereça sua preocupação no momento, amor.- Eu sorri de leve pra ela, ouvi a música mudar e segurei a mão que estava no meu rosto, a puxando dali, indo em direção a pista de dança. – Finalmente vamos dançar juntas. —Era assim que se cortejava em 1922 pelo que eu fiquei sabendo. – ela disse sorrindo e eu bufei. -As mulheres gostavam de ser cortejadas, não sei o que aconteceu durante os anos, parece que isso ficou ridículo...Eu mesma já fui cortejada muitas vezes. – disse e percebi que ela ficou com uma pontinha de ciúme, ela tentou disfarçar e eu apertei sua cintura, rodando ela entre um passo e outro. Karen conversava com algumas pessoas mas seu olhar estava fixo em nós duas, ela viu que eu a encarava e sorriu, fazendo um sinal de positivo com a mão. Puxei Margot para perto de mim e ela pousou seu rosto em meu pescoço, me arrepiando da cabeça aos pés. -Você foi cortejada muitas vezes então? – ela perguntou e eu estava distraída tomando ciência de que ela estava perto demais. -Não muitas, mas sim, algumas vezes. – juntei minhas mãos em seu cóccix e ela beijou meu pescoço. Eu estava tentando me manter calma e focada na conversa. Porque ela estava fazendo aquilo comigo? O cheiro dela era tão delicioso. Ela estava perto demais. -Por homens? —Ela sussurrou e mordeu minha orelha, o que ela pretendia fazer com aquilo tudo, me deixar caída aos seus pés? Porque eu já estava. E mesmo assim ainda não conseguia pensar claramente. -Na minha época a relação entre mulheres não era nem remotamente um pensamento considerável pra mim, então sim, homens, mas eu nunca me relacionei com ninguém, se é isso que você quer saber. Nunca tive nada sério. – Disse passando a mão direita em sua nuca, puxando ela de leve pra mim, pedindo sua atenção. Ela me encarou e seus olhos castanhos brilharam com as luzes dos pisca-pisca pendurados em cima da tenda, ela estava tão linda. Eu a beijei rápido apenas para comprovar que ela não era uma visão da minha cabeça. -Então você está me dizendo que eu sou sua primeira namorada? – Ela sussurrou e eu sorri de lado. -Sim. Peço desculpas se não estou sendo muito boa em ser sua namorada. – falei baixinho e a rodei uma última vez antes que a música terminasse. Karen terminou a conversa e se aproximou de nós duas. -Vocês vão ficar aqui esta noite, né? Carol teve que voltar em casa e ainda nem chegou, ela quer vê-la. -Não sei se Margot pode dormir fora de casa, Karen...- eu comecei a dizer até que Margot me cortou aceitando e agradecendo. Karen disse que ficaríamos em um dos quartos de visita, no terceiro andar. Aquela casa era muito grande. Conversamos com Arthur, o marido de Karen, sobre o trabalho dele. Ele era restaurador de arte, Margot ficou horas conversando com ele sobre história da arte e eu percebia o brilho em seus olhos falando sobre aquilo. Ela sabia e parecia gostar muito daquele assunto. Carol chegou e eu fui conversar com ela que ficou surpresa por eu estar lá. -Karen não disse que eu vinha? – disse beijando sua bochecha com carinho. -Ela disse né, tia, mas eu não acreditei. A senhora nunca sai daquela batcaverna. -Bom, quero que você conheça uma pessoa. -Ah, tomara que seja Margot, estou doida para conhece-la. – olhei horrorizada para Karen que deu uma cotovelada em Carol. -Karen, você realmente passa o dia inteiro fofocando sobre a minha vida com a Carol? – disse fingindo estar com raiva. -Não titia, me desculpe, é que nós nunca vimos você com ninguém...estávamos colocando o papo em dia. - a mais nova tentou contornar a situação. -Mas ela só me falou coisas boas sobre Margot. – disse a mais velha tentando se desculpar. -Que bom, então, vamos? – peguei em seu braço e a puxei em direção á Margot. Elas três passaram o resto da noite conversando e Margot me deixou de lado completamente. Eu ri das perguntas que Carol fazia e as vezes tinha que segurar a língua delas. Depois que todos os convidados foram embora eu deixei elas conversando enquanto ajudava a empregada a guardar as coisas e arrumar a parte de fora da casa. Depois de um tempo sentei com elas e Margot coçava os olhos com sono, encostada em meu ombro. Karen gesticulou na direção da menina desacordada e eu não entendi. Olhei para Margot e ela fechava os olhos devagar. -Vamos, vou colocar você na cama. – eu disse e ela se remexeu tentando parecer acordada. Karen bufou e balançou a cabeça incrédula. -Não, eu tô bem, quero conversar com elas. -Meu bem, você está dormindo...-Disse tentando esquentar ela com meu corpo que agora estava quente. -Eu estou acordada. – Teimou e piscou forte suspirando. Eu a levantei e coloquei ela em meu colo. Ela suspirou e fechou os olhos, voltando a dormir. Karen sorriu pra mim e olhou para Carol que também sorria, eu dei língua ás duas. -Bom, eu estou muito cansada da festa, vou para a minha cama. Carol, seu quarto você já sabe onde é, titia a mesma coisa, boa noite para vocês. – Ela disse levantando do sofá na varanda e entrando na casa. Carol levantou e beijou minha bochecha, se despedindo de mim também, passou a mão na cabeça de Margot. -Ela é uma menina adorável. Nunca pensei que viveria para ver esse brilho nos seus olhos. Obrigada por isso. Mamãe e a vovó ficariam orgulhosas. Boa noite, titia. – Ela disse se afastando depois que eu beijei sua mão. - Boa noite, minha querida.- Disse emocionada pensando no que ela tinha falado. Margot trouxe uma coisa nova pra minha vida. Amor.
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