RAVEN FORA CONDUZIDA PARA A ALA NORTE DA ACADEMIA, que segundo o que lhe fora dito, era onde ficavam os Magos Primários do Fogo. Ela foi levada até um quarto e lhe foi dado providências. Após fechar a porta do deslumbroso quarto, ela viu que no seu criado mudo havia uma bandeja com um prato específico de almoço e um suco, em sua escrivaninha havia vários livros antigos e estranhos e em sua cama havia alguns uniformes caracterizados na cor vermelha.
Em cima dos uniformes havia um bilhete.
“Organizei pra que você tivesse seu próprio quarto, sei que prefere ficar sozinha. Aproveite.
K.”
– Redsteel, seu pilantrinha... – ela deixou o bilhete de lado e foi experimentar os uniformes. Ela tirou sua roupa e vestiu a camiseta branca de botão e manga longa, a minissaia xadrez vermelha e o blazer vermelho por cima de tudo.
Ela finalizou com uma gravata vermelha, deixando o nó um pouco solto e se olhou no espelho. Por um milagre, ela não odiou.
Raven sorriu ao ver que o uniforme servia perfeitamente.
– Não acredito que eu gostei. – ela ergueu as sobrancelhas, incrédula o se olhar no espelho.
Raven comeu o almoço que havia sido deixado para ela e pegou o livro de regras da academia para ler, deitada na cama.
Ela nem percebeu o quanto estava cansada até pegar no sono. Novamente, ela viu a mulher correndo na floresta. Sendo perseguida por homens de preto. Agora ela sabia que aqueles homens provavelmente eram Feiticeiros das Trevas perseguindo a mãe de Raven, que a carregava no colo.
Embora ela não visse com clareza o rosto da mulher e nem mesmo se ela carregava um bebê, ela tinha esse entendimento.
Mais uma vez, começou a ouvir palavras estranhas que ela não conhecia o significado e então, acordou novamente assustada.
Pegou seu caderninho e rapidamente anotou as palavras que ouviu, percebendo que não as conhecia. Raven guardou seu caderno e olhou pela janela, vendo que já era noite.
Alguém bateu à porta.
– Olá, seja bem-vinda ao dormitório dos Magos Primários do Fogo! – Raven abriu a porta revelando uma garota baixinha de olhos verdes e cabelos loiros, lisos e curtos. Ela sorria de orelha à orelha e vestia as mesmas cores que Raven – Vejo que você já se acomodou.
– Já, sim. Mas... quem é você? – Raven indagou e a garota pareceu que voltou a si.
Morgana Manzard

– Ah, claro! Meu nome é Morgana. Morgana Manzard e eu durmo no quarto à sua esquerda. – ela se apresentou e Raven sorriu, desconfortável.
– Tá bem. – ela tentou fazer a garota se tocar, mas isso não aconteceu.
– Enfim, eu vim apenas te avisar que é hora do jantar e todos estão indo e...
– Olha ela aí! A figurona do pedaço! – Raven ouviu o sotaque britânico e a voz grossa de Ben e olhou em direção à voz, sendo visitada por Ben, Killian e Kai que vinha mais atrás. Perto de Kai, estava Diamond que não parecia nada feliz em estar ali. Eles todos haviam tirado suas roupas de couro e vestido seus uniformes, no entanto, o de Ben era branco e o de Diamond era prateado.
– Oi, Kasket. – ela falou, sem muito entusiasmo e percebeu que Morgana murchou, dando espaço para os garotos.
– A gente veio te convidar pra sentar com a gente no refeitório. – Killian, o irmão mais novo de Kai, a convidou com entusiasmo e então olhou para o lado – Gente, é a Morgana!
– Oi, Manzard! Tudo em cima? – Ben parou ao lado da garota e ergueu a mão para ela, que observou nervosa sua mão no ar, mas então bateu em sua palma, sorrindo ao receber um abraço do Mago Primário da Luz.
– Vocês se lembram de mim? – ela perguntou, incrédula.
– É claro! Você que nos mostrou a academia quando a gente veio pra cá. – Kai respondeu, chegando mais perto e lançando um breve olhar para Raven – E então, ruiva? Vai sentar com a gente ou não?
Raven já tinha sua resposta, mas olhou de canto para Morgana e viu que ela estava triste, mas conformada.
– Ah, onde estão meus modos? Manzard, você senta com alguém? – antes que Raven pudesse dizer algo, Killian lembrou da garota que sorriu tímida ao negar.
– Eu também não costumo sentar com ninguém. Acho que... Tá na hora de começar a tentar coisas novas. – Raven sorriu, convidando Morgana a fazer o mesmo e a garota assentiu – Ótimo!
– Eu não vou sentar com ela. – Diamond apontou para Morgana e em seguida para Raven que andou na direção da morena – Nem com ela.
– Não tem porque agir assim só porque eu te venci no seu jogo. – Raven provocou Diamond e Kai olhou para seus amigos, temendo o que poderia acontecer. Diamond e Raven eram duas forças da natureza completamente opostas.
Diamond inclinou a cabeça para trás e deu uma gargalhada maléfica, arrancando arrepios de Morgana.
– Primeiro que não era um jogo, e segundo que você não me venceu coisa nenhuma. – Diamond encarou Raven com sangue nos olhos – Eu peguei leve com você porque me mandaram não te machucar.
– Então você sempre faz o que te mandam? Mas que triste! – Raven inclinou a cabeça para o lado e debochar de Diamond que não disse nada e deu meia volta, e saiu pisando forte – Já vi que vamos ser grandes amigas.
– A Diamond é... – Kai começou.
– Assustadora. – Morgana terminou e o mais velho Redsteel olhou e deu de ombros.
– Eu ia dizer intensa, mas isso serve.
– Eu não tenho medo dela. – Raven rebateu e Morgana riu.
– É porque você também é assustadora! – a garota respondeu e Raven sorriu com seu novo título.
– Sério? – ela perguntou e todos concordaram e Kai ainda mencionou a palavra “mortal” – Adorei. Vamos comer.
Aquele g***o curioso de indivíduos se dirigiu ao refeitório, passando por um painel onde havia uma certa multidão e eles pararam na frente para ler e Raven percebeu que era uma lista, com números ao lado.
1º – Kai Redsteel – Fogo – 5001
2º – Diamond Moonglider – Ar – 4086
3º – Benjamin Kasket – Luz – 3228
4º – Killian Redsteel – Fogo – 2379
5º – Abigail Strantor – Ar –1792
6º – Emma Tibel – Água – 1570
7º – Adam Lowlus – Luz – 1564
8º – Nicholas Melkith – Água – 1249
9º – Jane Cyron – Terra – 1003
10º – Lawrence Ronin – Terra – 1000
Raven percebeu que conhecia os primeiros quatro nomes, mas o resto não passava de desconhecidos para ela.
– Que p***a é essa? – Raven, com sua bela educação, perguntou cordialmente.
– Esse é o Ranking Top 10. – Kai explicou e apontou para os números – Aquele é o nível de poder de cada um desses 10.
– Mas e o resto dos estudantes? – ela indagou e foi Morgana quem respondeu.
– Somente Magos Primários entram nos Rankings. – ela explicou – Temos o Ranking Geral, que contabiliza todos os Primários, os Ranking dos Elementos, onde cada elemento tem seu próprio Top 10, e, por fim, o Ranking Top 10. Apenas os dois melhores Magos Primários de cada elemento entram nele.
– Então isso quer dizer que Kai é o estudante mais forte da academia? – Raven perguntou e Kai sorriu, fingindo modéstia – E o Ranking do Fogo?
Morgana lhe entregou um panfleto, e viu que ali estava o Ranking do Fogo, nomeando os mais poderosos do elemento dela.
1º – Morgana Manzard – 2034
2º – Dylan Lockzard –1968
3º – Margaret Lolan –1889
4º – James Ronax – 1743
5º – Charlotte Nusheart – 1736
6º – Oliver Nustle – 1699
7º – Amelia Nusheart – 1685
8º – Victoria Zedan – 1651
9º – Thomas Shaoman – 1612
10º – Scarlet Rawalt – 1500
– Você tá em primeiro com 2034? – Raven parabenizou Morgana que ficou sem graça.
– Olha só, é melhor eu me cuidar, hein? Mais um pouco e você toma o meu lugar, Manzard. – Killian brincou com ela que soltou uma risada.
Raven leu os outros números e viu que o mais baixo era de 1500.
– Meu nome deve estar no Ranking Geral, certo? – Raven comentou e Kai foi o único que disse alguma coisa.
– Quanto mais você aprende e pratica, maior vai ser sua pontuação. Você vai ver. Logo, aposto que você vai passar até o Killian. – ele a encorajou.
– Nossa, quem precisa de inimigo quando se tem o Kai como irmão. – Killian fez drama e eles riram, indo pegar o jantar – Mas ele tá certo, Richards. A gente viu de perto que você tem um enorme potencial. Acreditamos em você.
Ela sorriu em agradecimento e eles seguiram a noite jantando como adolescentes normais. Riram, conversaram, fofocaram e até teve um pouco de flerte entre alguns membros do g***o.
Depois do jantar, todos foram para os seus quartos, para descansar para o último dia de aula da semana para uns, e primeiro dia para outros. Raven não ia começar numa turma de Magos Primários numa sexta–feira, mas isso não significaria que ela não iria estudar.
No dia seguinte, ela iria começar seu treinamento com seu Bruxo particular.
Ao acordar na manhã seguinte, Raven revirou os olhos ao perceber que novamente teve o mesmo sonho. Anotou as novas palavras que ouviu e levantou para ir tomar seu banho. Ela se vestiu e pegou suas coisas, indo para o refeitório, para pegar um café e ir para seu treinamento.
Raven parou na frente do Top 10 e observou os nomes enquanto tomava seu café.
– Memorizando os nomes? – Kai parou ao lado dela, com as mãos nos bolsos.
– Tô fazendo o que você deveria fazer. – ela respondeu tomando um gole de seu café.
– Que seria? – ele indagou curioso.
– Você deveria aproveitar enquanto seu nome tá ali, porque logo mais tudo que você vai ler ao lado do 1º lugar é: Raven Richards – ela terminou seu café e largou na mão de Kai que começou a rir – Tenha um bom dia, Redsteel.
Raven andou pelos corredores, sendo alvo de olhares de muitos alunos e de alguns professores. Ela não gostava da atenção. Estava acostumada a ser invisível, ninguém na escola a via, apesar de saber quem ela era.
Ela chegou no local das aulas, o pátio central e parou no meio, enquanto as pessoas passavam, até pararem de passar. Raven olhou em volta, procurando pelo Bruxo.
– O que tá fazendo aqui? – um homem poucos anos mais velho que ela parou ao lado de um dos pilares do pátio e colocou duas cadeiras ao lado. Ele era alto, tinha cabelos castanhos escuros e cacheados, mas raspado nos lados, olhos verdes, barba rala e pele n***a.
– Eu vim pra aula particular com... Altan Dern. – ela leu no papel que havia sido entregue à ela e viu que ele parou e a encarou, curioso.
Altan Dern

– Você é Raven Maxim? – ela não gostou do tom da pergunta.
– Devo ficar ofendida pelo jeito que disse isso? – ela cruzou os braços e ele desviou o olhar, negando.
– De maneira alguma, eu só... Achei que você fosse mais nova. – ele virou de costas e retirou seu casaco, ficando apenas de regata.
– Você deve ser a única pessoa que eu conheci até agora que não sabe a minha idade. – ela sorriu, feliz pra ver que alguém não sabia quem ela era exatamente.
– Isso é perturbador. – ele deu uma risada e colocou as cadeiras de frente uma para a outra – Pode tirar os sapatos e o blazer. Fica o mais à v*****e que conseguir.
Raven riu, largando a bolsa e tirando o blazer.
– Eu teria que tirar toda essa roupa, então. – ela brincou e ele tossiu, levemente nervoso.
– É, melhor não fazer isso. – ele limpou a garganta, desconfortável.
– Vamos começar a aula ou não, sr. Dern? – ela indagou percebendo que ele estava nervoso com algo.
– Sim, claro. É, você pode me chamar de Altan. Ninguém me chama de sr. Dern. – ele falou, sentando na cadeira, assim como ela – Nessa primeira aula eu vou te ensinar a meditar.
– Meditar?! Sério? – Raven protestou e ele apenas a encarou.
– A meditação é um ato fundamental para a concentração de um Feiticeiro. É assim que nos conectamos com nossa magia. – ele explicou, cruzando as pernas em forma de meditação – Pode me dizer qual é o objetivo da meditação?
– Levantar o espírito? – ela respondeu, dando de ombros. Altan sorriu e apontou para ela.
– Exatamente! O objetivo é total e profundo relaxamento. – ele fechou os olhos e respirou fundo – Você deve esvaziar sua mente, controlar a respiração e, por fim, deve recitar as palavras: internum pacem.
Raven observou enquanto ele repetia as palavras e cada vez ficava mais distante até que começou a flutuar.
– c*****o! – ela exclamou, observando em choque enquanto ele levitava um pouco mais, até parar no ar.
Altan abriu os olhos e num salto parou de pé na frente dela, que sorria maravilhada.
– Como você fez isso? – Raven indagou, cruzando as pernas da mesma forma que ele.
– Quanto mais você se conectar, mais alto irá levitar. Tente uma vez. Respire fundo, feche os olhos e esvazie a sua mente. – ele falou e ela obedeceu.
– m***a, não consigo esvaziar minha mente... É tudo muito barulhento. – ela franziu o cenho, frustrada.
– Tudo bem, é difícil no começo. – ele tentou tranquilizá-la mas ela queria conseguir.
– Silentium. – ela falou em voz alta e sua cabeça tranquilizou, os sons externos sumiram – Agora, sim.
Altan observou enquanto Raven recitava as palavras repetidamente. Ele quase não acreditou quando viu que as pontas dos cabelos dela começaram a flutuar no ar e logo, ela saiu alguns centímetros da cadeira.
– O quê?! – ele exclamou enquanto ela repetia as palavras e começava a subir cada vez mais.
Raven se sentia tão leve, tão quente, tão feliz. Ela lembrou da última vez que se sentiu realmente feliz. Foi na manhã anterior, logo que acordou e teve um bolo de aniversário com a sua família. Ela conseguia vê-los com clareza, escutá-los...
Até que retomou a consciência e caiu no chão, na frente de Altan.
– Que p***a foi essa? O que foi que eu vi? – ela gritou com Altan, assustada.
– Se acalma, eu não achei que você fosse conseguir na primeira tentativa. – ele a ajudou a levantar – O que você viu foi a sua mais recente memória feliz.
– Então essa meditação toda é pra que eu veja momentos felizes?
– Os momentos mais felizes da sua vida. – ele explicou – Eu não achei que você tivesse algum conhecimento sobre feitiços ou magia.
– E não tenho. – ela falou, mas então revirou os olhos – Mas acontece que eu às vezes... Escuto algo.
– Algo?
– É, palavras soltas, estranhas, sem sentido. – ela falou respirando fundo, ainda emocionada – Começou ontem de manhã. Eu acordei de um sonho muito intenso. Nesse sonho tinha uma mulher, ela corria e falava algumas coisas. Eu acordei e anotei no meu caderninho. Mais tarde, descobri que eram feitiços. Eu nem estava tentando fazer nada, apenas os livros em voz alta.
– Você tem esse caderno? – ele pediu e ela foi até sua bolsa, lhe entregando o caderno o qual ele leu cada palavra – Alguns feitiços aqui são muito avançados, como o reparo. E outros são muito básicos, como o feitiço do silêncio que você fez agora há pouco.
– Eu sonhei de novo com ela. Acordei e escrevi mais palavras. – ela contou e Altan franziu o cenho em uma página.
– Essa frase aqui... Você ouviu ela inteira? – ele perguntou, preocupado. Ela assentiu – Raven, acho que sei porquê você nunca praticou magia antes, mesmo que sem querer. Essa frase é um feitiço de bloqueio. Alguém bloqueou seus poderes até que completasse 18 anos. Quem quer que seja, deve ser muito poderoso.
Raven olhou para ele, esperançosa. Ela sentiu o arrepio quando ele disse isso.
– Foi ela, Altan. – ela falou – A mulher dos meus sonhos.
– Você sabe quem ela é? – ele entregou o caderno para ela.
– Eu acho que ela é a minha mãe. – foi então que Raven teve uma ideia – Espera, você disse que com essa meditação eu posso acessar memórias felizes, certo?
Ele assentiu e ela sorriu, com mais esperança ainda.
– E se eu conseguir acessar não só essas memorias, mas todas elas? – Raven explicou seu plano – Entre o dia em que eu nasci e o dia que meus pais me encontraram há quatro dias de diferença. Muita coisa deve ter acontecido. Eu era um bebê, mas eu me lembro. Só preciso acessar essa memória.
– Raven, tecnicamente é possível, mas você teria que se conectar muito profundamente, levitar muito alto, isso pode ser perigoso. – ele tentou convencê-la a não fazer.
– Ela me entregou pra me proteger. E se ela tiver sido pega pela Grande Sombra e ele a mantém presa e torturada? – Raven perguntou, apavorada com a ideia – Ela me salvou. Eu preciso saber se tenho que salvá-la também. E pra isso, eu tenho que descobrir quem ela é.
Ela olhou para Altan com firmeza, e ele pensou que não se lembrava da última vez que escutou alguém falar com tanta convicção a ponto de inspirá-lo. Ele sentou-se de volta em sua cadeira e posicionou as pernas, a chamando.
– Então, vamos ao trabalho.