Dias de Hoje

2102 Palavras
Beatrice Há exatamente três dias ele saiu, sem nem ao menos dizer alguma palavra que pudesse recompor alguma das partes do meu coração quebrado, como fui estúpida por um momento imaginar olhar para o abismo e não ser tragada. É estranho como sua ausência se torna um alento bem-vindo, algum tipo distorcido de calmaria em meio a mais uma tempestade, para alguém feito na mentira viver em uma é como um dia normal. Então, estar presa no porão como um animal, em um cômodo pequeno provido apenas de um armário, uma mesa e alguns panos jogados para que dormisse sobre eles, se poderia agradecer a clemência dada é apenas o fato de ter um banheiro e não precisar sentir o cheiro da própria urina. Sobrevivendo a mais um déjà vu do que a vida tem sido nos últimos anos, um ciclo sem fim de dor e desgraças, em qual momento me permiti pensar que poderia viver algo além disso? Nunca imaginei que tudo seria tão r**m quanto já foi um dia, no momento em que fui apresentada a Stefano sabia estar entregando a minha vida na mão de um homem r**m, afinal, que homem da máfia seria bom… E por mais ingênua que fosse ou tentasse ser, ainda tinha uma pequena esperança guardada, por algum motivo e******o, de ter um bom casamento, uma vida de rainha ao lado do próximo Don, essa esperança foi extinta logo no início do nosso casamento há sete anos. Vi como os sonhos são assassinados e a esperança é perdida, a cada dia esse homem em cada decisão sua teve o poder de destruir a minha fé. O mais incrível é notar como na frente dos outros, ninguém poderia sequer imaginar sua capacidade demoníaca ou a escuridão que se esconde por trás dos rostos mais belos, mas sim, acreditar na beleza foi o primeiro erro. Neste lugar escuro, úmido e sem janelas, escondido dentro da nossa própria casa, construído apenas pela sua idealização perversa em querer realizar todos os seus desejos ao ter uma prisioneira acorrentada perante o matrimônio na máfia, alguém para descontar a sua fúria, fazer implorar e quebrar a alma das mais diversas formas. Estou presa nos próprios desejos, tomando todas as mentiras como lições de uma aprendizagem longa, fazendo a mente fervilhar com ideias loucas em um corpo maltratado que implora um pouco de descanso e algum cuidado. Mesmo sendo um sonho inalcançável. A maldade se esconde de uma maneira sórdida ao se infiltrar por baixo de belas faces decoradas em pérolas falsas, criando a decoração perfeita aquelas que precisam de uma única luz para manter a esperança vivida. Tenho, sim, um marido brilhante, fiel do qual posso sempre sorrir das suas gentilezas na frente dos outros, é claro, bufei, pois sei que Don Sartori nunca puniria o único herdeiro por adestrar a esposa, longe o bastante do conselho. As dores que sinto espalhadas pelo corpo, em qualquer movimento que faço, só evidencia o quanto ele consegue fazer os negócios escusos usando-me como moeda de troca, disposto a realizar suas humilhações diárias. Essa é a minha vida desde os dezesseis anos, ser a p**a de luxo de Stefano Sartori adornada de diamantes durante o dia e espancada durante a noite, carregar o título de esposa seria muito inapropriado considerando a vida que tenho. Somos isso, úteros férteis, bocetas de ouro nascidas para casar-se com os herdeiros, vendidas para formar alianças. Mulheres julgadas por outras mulheres num ciclo infinito de ódio apenas por ser mulher. Vendo como esse padrão continua a se repetir, sinto que hoje a morte parece mais atraente do que continuar assim… Lembro do momento em que a primeira surra veio depois de uma festa da família, Stefano, disse que percebeu os meus olhares para um dos capos. hmfff. Não é como se pudesse olhar para qualquer lugar acima da minha cabeça sem ser acusada de traição. São longos anos nos quais aguento ser molestada, estuprada e espancada por um homem de beleza extrema, olhos brilhantes que guardam um demônio, realizando declarações sobre um amor inexistente, um homem que conseguiu comprar o nosso casamento, como alguém indo em um supermercado fazer as compras do dia, exigindo ter a sua aquisição antes mesmo da maioridade. Sua fixação misturada com uma obsessão por mim completamente doentia, na verdade, ele é alguém doente, sem alma, que diariamente alimenta o ódio, transformando-me em alguém tão doente quanto ele. Nem mesmo aos dezesseis anos, durante a lua de mel, consegui iludir-me mais, pois descobri que havia casado com o próprio d***o. E são essas lembranças que consomem o que resta da alma. Grito enfiando a cabeça entre os joelhos tentando fugir das lembranças, pois, as primeiras vezes são as que realmente machucam, as que destruíram um coração inocente e roubaram minha alma. O nó formado arrancando o ar dos meus pulmões com cada dor dilacerante vivem como uma ferida aberta no peito, algo do qual não consigo curar. Não foi difícil notar que com o tempo as suas crueldades pioravam, puxando cada vez mais do meu corpo, este foi se acostumando, aprendendo a lidar com a dor, obedecendo aos seus comandos iguais uma c****a adestrada como ele gosta de chamar. O mais difícil é reconhecer que em algum momento nos vi como um belo par, mesmo sendo demais até para um sonho, fui estúpida em amá-lo. Tudo foi uma mentira, em nenhum momento nada o que faço é suficiente para aplacar a fúria e o ciúme inexplicável, diante dos seus próprios comandos, fazendo as chamas da sua loucura queimar entre nós. Seu sorriso, os carinhos e cada declaração de amor, tudo é uma mentira. Entre nós dois só há espaço para a miséria em meio ao caos furioso de estarmos presos um ao outro até o final dos nossos dias. Não existe divórcio na máfia e o meu descanso só irá chegar no dia em que estiver morta, seja pelas mãos do Stefano ou pelo vazio que corrompe meus pensamentos cada vez mais. Por isso tentei fechar os olhos para fugir, querendo continuar no presente, mesmo que seja doloroso. Mas em sua ausência só posso sofrer com as lembranças. É como se existisse uma sombra que paira ao redor, gritando ao meu ouvido os piores pensamentos, os piores momentos em uma projeção lenta e torturante da realidade, quando quero apenas um momento para imaginar como seria estar no paraíso. Como seria ser uma mulher livre? Suspiro, sentindo os lábios partidos, seja pela desidratação ou pelos machucados, uma boa mulher não desejaria se ver livre do marido como desejo, uma boa esposa da máfia não estaria reclamando da violência que sofre na própria casa. Apoio a cabeça contra a parede, caindo numa escuridão infeliz. Acordo assustada, dessa vez Stefano se superou, sete anos depois e ele ainda consegue achar uma maneira de fuder com o meu psicológico, mesmo aprendendo cada um dos seus truques para me desestabilizar. As marcas espalhadas pelo corpo mostram como fui incapaz de manter o teatro, escutei o som da porta se abrindo, esperando que ele aparecesse, soltei um grito mudo ao ver meu irmão mais velho. Seus olhos escuros parecem ter sido tomados pelo ódio ao mesmo tempo que vê meu estado e se apieda. Os cabelos bagunçados e a barba sempre bem-feita, completando o rosto familiar, percebi a culpa no seu olhar. — Beatrice! — Sussurrou — Aquele filho da p**a vai morrer! Por que não disse nada? — O que poderia dizer irmão? Stefano é meu marido, filho do Don Sartori. Não é como se ele fosse ser punido por usar a sua p**a. — Cazzo! Você é a esposa dele, p***a! — Exasperou, abaixando a voz logo em seguida e olhando para a porta. Mesmo que as regras da família fossem claras sobre respeito, fidelidade e não machucar as esposas, Stefano não era qualquer um, por baixo da pele dele havia um verdadeiro demônio. O que uma simples mulher poderia alegar para que todo um conselho feito por homens não veja o meu estado como uma simples educação? Não duvido que outras mulheres na organização passem por coisas iguais ou piores, o resultado de um comando que só valoriza a própria casa, o Don parece não perceber que alimenta os próprios lobos, deturpando todos os nossos valores da Sicília. Sem ter como argumentar, abaixei o lábio inferior para que conferisse a minha marca como propriedade de Stefano Sartori, seus olhos se arregalaram. — Vou matá-lo — Giácomo parecia pronto para correr, segurei seu braço com toda a força que me resta após dias sem comer. — Como você me achou? — Temi que meu marido voltasse e o encontrasse ali. — Aparentemente, não sei o que fez nem perguntarei, mas parece ter conseguido a lealdade de um dos soldados do seu marido. — Frank? — Perguntei. — Sim, ele foi até meu apartamento dizer que você estava sumida há cinco dias, só que, na verdade, Stefano estava te mantendo presa. — Eu descobri estar grávida, ele me espancou e me usou até que perdesse mais um bebê. — Solucei e os braços do meu irmão apoiaram meu corpo fraco — Você não pode matá-lo, seria uma guerra Giácomo, faz três dias que ele saiu, deve voltar a qualquer momento… A fúria emergindo em ondas com o relato, a verdade é humilhante e a culpa é toda minha por não ser uma boa esposa. — f**a-se, farei esse filho de uma p**a pagar, não conseguirei me perdoar por não ter te libertado disso antes. Todo esse tempo mantive a farsa do casamento perfeito, de esposa perfeita, uma boneca, tentei perdoar meu irmão mais velho, afinal, ele só cumpriu com seu papel na organização. Desde a morte do nosso pai, ele se tornou tudo para mim, cuidando de todos nós e fazendo de tudo para nos manter unidos. Soltei os braços do meu irmão, andando pelo quarto pensando num modo em que possamos sair todos vivos, as ideias fervilhando na mente, nervosa e cheia de sussurros horrendos com um desejo enorme de vingança. — Hunter! — Exclamei — Fale com Hunter, ele conhece vários fornecedores de drogas, pegue alguma que possa derrubar Stefano e uma que se pareça com um boa noite cinderela. As ligações do meu marido com certos contatos seriam apenas um brinde, as ideias ganhando vida e os pensamentos macabros tomando conta do corpo, de poder ter uma vingança dele e dos culpados pelos pesadelos horrendos. Cada um deles que destruiu uma parte da garota sonhadora, cada um que provocou um aborto tirando a oportunidade de a vida existir. O modo grotesco como perturbou e matou cada parte boa dentro da minha alma, suas formas de tentar convencer sobre o quanto seu amor é forte e logo depois suas mãos se fecharem ao redor do meu pescoço. A culpa deve ser toda minha, por desejar um dia sem uma surra ou sonhar com um toque de amor, fiquei presa aos sonhos ingênuos esperando que Stefano se torne outra pessoa, abdicando de toda autoestima para viver em função dele, esperando por ele ansiando para que depois da dor viesse o toque quente e carinhoso. Olhei para meu irmão sabendo que tudo estava prestes a mudar. Livraria o mundo de Stefano e de brinde o colocaria no poder da família. — O que quer fazer Beatrice? — A voz baixa e grave expressando a curiosidade — Primeiro a morte dele me pertence — Meu irmão mais velho balançou a cabeça desacreditado — Você acabou de dizer que não se perdoaria, essa é a sua oportunidade irmão. — Sem nenhum escrúpulo aproveitei da sua dor pela minha ruína. Por mais que tenha tentado nunca conseguir perdoar verdadeiramente Giácomo por ter me entregado tão jovem a esse demônio, se ele me tirasse a oportunidade de matar Stefano, essa dor nunca iria passar. Nossos olhares entraram em um embate silencioso, seus olhos viajaram pelas mordidas em meus braços e todas as marcas visíveis pelo pequeno pijama sujo. Aproveitei sua inspeção minuciosa para soltar a bomba. — Vamos matá-lo e forjar a minha morte para a família, deixaremos os rastros para acreditarem que foram os sicilianos, Don Sartori vai caçar os culpados cego de ódio — Vi seu silêncio como um incentivo para continuar — Os Sartori vão sumir do mapa Giácomo, e você, o mais velho da família Costello, tomará a cadeira. Meu único motivo para lutar por uma vida vai ser colocar as minhas mãos em cada um deles e tê-los implorando por uma morte rápida, quando tudo que vão conseguir é o pequeno monstro ensinado, adestrado e educado pelo próprio d***o.
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