Ao chegar ao quarto, apenas Lian e o médico entraram. Do lado de fora, no silêncio pesado do corredor, os outros permaneceram imóveis. Os seus rostos, tensos e cheios de apreensão, estavam fixos na porta entreaberta, como se pudessem escutar o que o destino havia reservado para aquele momento.
Dentro do quarto, uma luz suave iluminava a cena. Diana estava na cama, pálida como o lençol branco, mas para Lian, ela era a imagem mais viva que já vira. Quando os olhos dela, ainda um pouco perdidos, encontraram os dele, um sorriso fraco, mas radiante, iluminou o seu rosto, como um sol tímido surgindo depois de uma tempestade.
Lian deu um passo à frente, o coração se enchendo de um alívio tão grande que quase o derrubou. Ele inclinou-se, beijando suavemente a testa fria dela, um gesto de adoração e gratidão. Ela murmurou, com a voz rouca e trêmula, mas carregada de uma força que vinha da alma:
— Meu amor… é tão bom te ver.
Ele sorriu, fraco, um sorriso trêmulo de alívio que lutava contra o cansaço. Diana, com a mão ainda frágil, estendeu-se e tocou o rosto dele, um gesto que ele sentiu como uma âncora.
Lian hesitou, o olhar fixo no de Diana. Ele queria tanto realizar o seu pedido, mas o medo de machucá-la era maior que o desejo. Ele, então, buscou o olhar do médico, uma súplica silenciosa por orientação.
O médico, que até então observava em silêncio, compreendeu o dilema. Ele aproximou-se da cama e, com uma voz calma, interveio:
— A senhora é muito forte, Diana — ele disse, com uma ponta de admiração. — Acordou tão rápido... é raro, mas acontece. No entanto, a senhora ainda está muito fraca. É melhor continuar deitada por um tempo, para que se recupere completamente.
Diana respirou fundo e assentiu, o corpo aceitando a ordem do médico, mas a mente dela não conseguia ficar parada. Com os olhos agora menos confusos, ela começou a escanear o quarto, procurando por ele, por alguma prova da sua presença. Buscava o som que lhe faltava, a melodia do choro do bebê que imaginou ouvir.
Uma ponta de curiosidade, misturada com uma urgência frágil, surgiu na sua voz rouca. O seu olhar, primeiro, pousou no rosto sério do médico, buscando uma resposta nos seus olhos. Depois, com um sobressalto, ela virou-se para Lian, o seu olhar finalmente pousando sobre o dele, carregado de uma pergunta silenciosa e terrível.
— Gael… onde está o nosso pequeno? Por que não ouço o choro dele? Ele está dormindo?
O olhar de Lian encontrou o do médico, e o seu coração se partiu mais uma vez. Ele virou-se lentamente para ela, os olhos marejados, sentindo o peso da verdade como uma muralha de pedra na sua garganta. Abriu a boca para falar, para confessar o seu ato, mas o som da sua dor foi o único que conseguiu escapar. Ele tentou de novo, mas as lágrimas escorreram e os soluços silenciosos tomaram o lugar das palavras.
O médico, vendo a agonia de Lian, deu um passo à frente. Com uma voz calma e cheia de empatia, ele se dirigiu a Diana:
— Senhora Diana… seu marido não consegue falar. A dor que ele sente é grande demais, e ele a carrega desde o momento em que tomou a decisão mais difícil da vida dele. Para salvar a sua vida, tivemos que… fazer a escolha de sacrificar a do bebê.
Com o rosto pálido e banhado em lágrimas de dor, Diana olhou do médico para Lian, o corpo trêmulo e a boca entreaberta de espanto. A sua mente, já frágil, lutava para processar as palavras que acabara de ouvir, e o horror, finalmente, tornou-se uma certeza c.r.u.e.l. A respiração dela se tornou um som ofegante, uma luta para processar a informação que o médico lhe havia dado.
Os olhos de Diana endureceram-se, fixos em Lian, e a voz dela, cheia de choque e descrença, finalmente saiu:
— Não… não pode ser… O que você fez com o nosso filho? Diga que não é verdade!
O pranto dela se intensificou, um lamento incontrolável. Lian, com o coração em pedaços, estendeu a mão, tentando tocá-la, mas ela recuou no mesmo instante, o corpo se encolhendo, como se o toque dele fosse a própria peste.
— Não! Não me toque… seu monstro! — ela gritou, a voz sufocada pelo desespero, enquanto o seu corpo se encolhia, recusando qualquer proximidade.
Lian encolheu-se com as palavras dela, mas se inclinou, estendendo a mão para o vazio entre eles.
— Diana… meu amor… — ele sussurrou, a voz embargada e cheia de dor.
Ela o interrompeu com um grito ainda mais agudo, o corpo num sobressalto. Os olhos dela, que antes estavam cheios de lágrimas, agora ardiam com uma fúria gélida que o fez recuar.
— Sai daqui! — ela gritou, a voz trêmula, mas cortante como vidro. — Eu nunca mais quero te ver… seu assassino!
Nesse instante, a porta do quarto se abriu com urgência. Leonardo e Dominic entraram no quarto, seguidos por enfermeiras que tentavam, em vão, acalmar Diana.
— Diana, por favor, me ouça! — implorou Leonardo, sua voz tremendo. Ele segurou o braço dela com firmeza, tentando ancorá-la na realidade. — Ele não é o culpado, filha! A escolha era impossível, meu amor.
Mas ela o ignorou, continuando a gritar, a voz se quebrando em histeria:
— Lian, saia! Saia! Seu assassino, eu nunca vou te perdoar! — repetia, desesperada.
Dominic percebeu que ela estava fora de si, num delírio de dor, e que Lian não conseguiria se afastar sozinho. Tomou uma decisão difícil, mas necessária. Com cuidado, mas firmeza, segurou Lian pelo braço e o conduziu para fora da enfermaria. Lian saiu, os ombros curvados, o corpo pesado de dor. O som dos gritos de Diana atrás da porta acompanhava cada passo. O corredor tornou-se testemunha de corações partidos, de amor esmagado, de decisões impossíveis e de um luto que ninguém podia consolar.
Enquanto Lian era guiado, as lágrimas escorriam incessantemente, e um silêncio carregado de dor pairava ao redor. O som do choro de Diana ecoava pelo hospital, uma melodia de horror que se misturava ao silêncio pesado do corredor. Amparado contra a parede, Lian sentia o seu corpo pesado, como se as pernas já não pudessem mais sustentá-lo.
Ele sabia que nunca esqueceria o grito dela, a voz que amava chamando-o de assassino, e a dor de não poder abraçar o filho que se foi. A culpa e a perda se misturavam em cada respiração falha, em cada lágrima que caía silenciosa pelo rosto dele, enquanto o luto esmagador de um futuro que jamais existiria o consumia.
O médico se aproximou dele, a voz baixa e cautelosa:
— Tivemos que sedá-la com um calmante, Senhor Lian. É melhor você ir para casa. O pai dela, Leonardo, ficará aqui por enquanto.
Lian apenas balançou a cabeça, o olhar fixo num ponto vazio. Clara aproximou-se e pegou na mão do filho.
— Venha, meu amor. Vamos para casa.
Ele olhou mais uma vez para a porta do quarto, a última visão que o assombraria para sempre, e começou a arrastar-se pelo corredor, amparado pelos pais. Dominic, Vicenzo e Rafael seguiram atrás, observando em silêncio o sofrimento do amigo, uma tristeza muda que pesava em cada um deles.
Eles partiram do hospital. No carro, o silêncio era tão pesado quanto a dor que os unia. Miguel assumiu o controle do volante, concentrado na estrada à frente. No banco de trás, Lian estava imóvel, os olhos fixos no vazio, amparado por uma solidão que nem mesmo a presença da família conseguia preencher. Em outro carro, Dominic, Vicenzo e Rafael seguiram atrás, uma formação silenciosa de lealdade e apreensão.
Quando chegaram à mansão, a equipe de funcionários, os esperava em fila, com os rostos graves e os olhos marejados. Klaus, o fiel mordomo, deu um passo à frente.
— Nossos mais profundos sentimentos, Senhor Lian.
Lian apenas balançou a cabeça em agradecimento, a voz incapaz de se erguer. Ele se virou para Dominic, a voz quase inaudível, um murmúrio de dor.
— Dominic… eu sei que estou pedindo muito, mas… você pode, por favor, cuidar dos preparativos para o velório de Raul? Eu… não consigo. Me desculpe.
Dominic assentiu, a compreensão estampada no rosto, um pacto silencioso de amizade. Lian virou-se novamente para os funcionários, a voz quase um sussurro quebrado:
— Eu preciso ficar sozinho. Por favor, não entrem lá… me deixem em paz. Só me chamem quando for para o velório e o enterro.
Ele se afastou, os ombros curvados, os olhos fixos na escadaria à sua frente. Cada passo era uma batalha, e ele se apoiou no corrimão, arrastando-se para cima como se o peso do mundo estivesse nas suas costas.
No quarto, ele seguiu direto para o banheiro. O som da água do chuveiro preencheu o espaço, abafando o som da sua roupa caindo no chão. Ali, a porta do mundo exterior finalmente se fechou, e a sua armadura se desfez. Lian não apenas chorou. Ele se despedaçou em soluços altos e guturais que ecoaram pelas paredes frias do banheiro, um grito primal que ele havia contido por tempo demais.
A porta do quarto, que ele deixou entreaberta, permitiu que o som da sua dor se espalhasse. Lá em baixo, Klaus e os outros funcionários olharam para o topo da escada com os olhos marejados, testemunhas de um sofrimento que não podiam consolar. Clara começou a caminhar em direção às escadas, a mão estendida, mas Miguel a segurou.
— Ele precisa desse momento, meu amor. Dói muito em mim também, mas não podemos fazer nada agora.
Enquanto isso, Klaus subiu a escada. Ele parou do lado de fora do quarto, olhou para a porta entreaberta e, em silêncio, a fechou, dando a Lian a privacidade que ele tanto precisava para seu luto. Lá em baixo, Dominic já estava ao telefone, assumindo a responsabilidade por um funeral, o último ato de lealdade a um homem que, embora não tivesse família, tinha um lugar na vida de Lian.