Capítulo 10

1112 Palavras
Sarah Black Quando Aaron saiu do quarto, senti uma mistura de alívio e confusão. A proposta dele era uma bênção disfarçada. Um mês. Só precisava aguentar um mês. Depois disso, finalmente estaria livre para seguir a minha vida, cuidar da minha mãe e deixar tudo isso para trás. Ele não voltou naquela noite, e para ser honesta, eu não me importava. O silêncio e a solidão no quarto me permitiram refletir sobre tudo o que tinha acontecido até ali. No dia seguinte, fomos para casa de Aaron, onde se tornou uma espécie de prisão luxuosa, desde que cheguei aqui. As paredes impecavelmente decoradas pareciam fechar-se ao meu redor, enquanto tentava me adaptar a essa nova realidade. Aaron estava sempre ausente, como se o nosso casamento fosse uma formalidade a ser ignorada. E eu… eu me contentava com isso. Meu pai, também nunca mais me procurou depois que me casei, o que só reforça que eu só servi como moeda de troca para ele. Apesar do alívio inicial, algo começou a me incomodar. Meu corpo, que antes era uma fonte de força, agora parecia me trair. Sentia-me exausta o tempo todo, como se as minhas energias fossem sugadas por um vazio desconhecido. Havia momentos em que o mundo girava, me deixando enjoada, e eu me convencia de que era apenas o estresse. Afinal, em pouco tempo, a minha vida virou de cabeça para baixo. Perdi o meu irmão, e minha mãe, já fragilizada, acabou sendo internada. Tudo isso enquanto era forçada a casar com um desconhecido que quase nunca estava em casa. A única companhia que realmente me confortava era a de Celeste, a governanta de Aaron. Ela era uma mulher gentil, com um jeito maternal que me fazia sentir um pouco menos sozinha. Tratava-me com respeito e até certo carinho, o que, naquele ambiente frio, era um alívio. No entanto, o meu corpo continuava a me pregar peças. Uma manhã, após um episódio particularmente rüim de tontura e náusea, decidi que era hora de procurar um médico. Talvez fosse apenas o estresse, mas queria ter certeza de que não havia nada mais sério acontecendo. No consultório, o médico foi meticuloso, fazendo perguntas que eu respondia com indiferença, até que ele perguntou sobre a minha última menstruação. Fiquei paralisada, tentando lembrar, mas não conseguia. Um calafrio percorreu a minha espinha quando uma possibilidade aterrorizante passou pela minha mente. Se o que eu estava pensando fosse verdade… Se eu estivesse grávida… Grávida de um desconhecido! Aquele pensamento me atingiu como um soco no estômago. A criança que eu poderia estar carregando foi concebida em um dos momentos mais desesperadores da minha vida, quando eu… Não. Não queria me lembrar daquela noite. Aquela noite tinha que permanecer enterrada na minha mente, junto com toda a dor e vergonha que a acompanhavam. O médico fez os exames necessários, e eu esperei, torcendo para que o meu medo fosse infundado. No final, ele voltou com os resultados. A expressão em seu rosto era calma, mas as palavras que ele pronunciou ecoaram na minha mente como um trovão. - Parabéns, Sarah. Você está grávida. O chão pareceu sumir sob os meus pés. A minha visão começou a embaçar, e o som ao meu redor ficou distante, como se eu estivesse sendo sugada para dentro de um túnel. O pânico se instalou, e antes que eu pudesse processar completamente o que estava acontecendo, tudo ficou escuro. Quando acordei, estava deitada no sofá do consultório. Senti o rosto quente e úmido, e percebi que o médico havia molhado a minha testa com uma toalha. A tontura ainda estava lá, mas o pior já havia passado. - Sarah, você está bem? – a voz do médico era suave, mas carregava preocupação. – Você desmaiou. Tentei me sentar, mas ele colocou uma mão gentil no meu ombro, me mantendo deitada por mais alguns segundos. - Deixe-me te ajudar. Vá devagar. – ele observava o meu rosto atentamente, como se procurasse sinais de que eu estava prestes a desmaiar novamente. – Quer que eu chame alguém para te acompanhar? – ele perguntou gentilmente, quebrando o silêncio que havia se instalado. O tom da sua voz era preocupado, como se soubesse que aquela notícia me atingira de forma devastadora. Respirei fundo, tentando conter a onda de emoções que ameaçava me consumir. Mas eu não podia desabar. Não ali, não agora. - Não... – murmurei, balançando a cabeça. – Não precisa. Eu estou... estou bem. - Tem certeza? – ele insistiu, observando a minha expressão cuidadosamente. – É importante ter apoio em momentos como esse. A minha garganta se apertou. Eu queria gritar que não havia apoio algum, que eu estava completamente sozinha nisso. Mas em vez disso, forcei um sorriso fraco. - Eu... vou ficar bem. – menti, lutando para manter a compostura. O médico assentiu, respeitando a minha decisão, mas ainda parecia hesitante ao me deixar ir embora. Quando finalmente saí do consultório, o peso da situação começou a se acumular novamente. Cada passo que eu dava parecia mais pesado, como se estivesse carregando o peso de um segredo que não poderia compartilhar com ninguém. Grávida. Como eu esconderia isso? E o pior: como esconderia isso de Aaron? Eu sabia que este casamento era temporário, um acordo frio que duraria apenas um mês. Mas, agora, havia uma nova vida crescendo dentro de mim, fruto de uma noite que eu queria desesperadamente esquecer. Eu não podia contar para Aaron. Ele não poderia saber, não se importaria, e mais do que isso, ele nunca acreditaria em mim. Com a cabeça cheia de perguntas sem resposta e uma sensação de desespero crescente, segui para casa, consciente de que a minha vida acabara de tomar um rumo que eu jamais imaginara. {...} Quando cheguei em casa, ainda atordoada com a confirmação do médico, fui direto para o banheiro. Precisava de um momento para me recompor, para entender o que faria a seguir. A água quente do chuveiro era um pequeno alívio, mas não conseguia lavar a sensação esmagadora de desespero que agora dominava cada pensamento meu. Eu estava grávida, e o pai poderia ser qualquer um, exceto Aaron. Como eu esconderia isso dele? Como lidaria com essa situação? Ao sair do banheiro, envolta na toalha, o meu coração quase parou ao ver Aaron parado no quarto, segurando os papéis do exame que eu havia deixado em cima da cama. O ar parecia ter saído do ambiente, e o frio nos seus olhos me deixou instantaneamente em alerta. Ele levantou o olhar lentamente, examinando-me de cima a baixo, e eu senti como se ele estivesse me despindo com os seus olhos, mas não com desejo – com desdém.
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