Aaron Black
O som abafado do riso de Cassie ainda ecoava na minha mente enquanto eu me afastava da casa dela, sentindo uma mistura de frustração e confusão. Estava atrasado, e sabia que o meu pai ficaria furioso, mas o que importava? Este casamento era apenas mais uma obrigação, mais uma forma de garantir que eu mantivesse o cargo de CEO. E, para ser honesto, não estava exatamente ansioso para conhecer a minha nova esposa.
Quando entrei no carro, ainda podia sentir o cheiro do perfume de Cassie nas minhas roupas, mas... algo estava errado. Toda vez que ficávamos juntos, parecia que algo faltava. Não era apenas o toque dela que me parecia diferente, mas até o cheiro que emanava do seu corpo. O perfume que ela usava antes era doce e envolvente, agora parecia pesado, enjoativo. Talvez fosse eu. Talvez fosse tudo que estava acontecendo.
Mas havia algo mais. Toda vez que ficávamos juntos, eu não conseguia deixar de pensar naquela noite. Aquela única noite que tinha sido completamente diferente. Era como se eu estivesse buscando uma sombra, algo que não conseguia alcançar. E cada vez que eu e Cassie nos tocávamos, aquilo se tornava ainda mais evidente. Por mais que tentasse, não conseguia recriar a intensidade daquela primeira vez, nem entender por que o cheiro dela parecia ter mudado. Era estranho, quase como se ela fosse outra pessoa.
A ironia é que, enquanto estava com Cassie hoje, a culpa não me assombrava tanto. Estava me casando por obrigação, não por amor, então o que importava? Mas, enquanto me vestia para o casamento, não pude evitar a sensação de que algo estava profundamente errado. A expressão no rosto de Cassie enquanto eu saía, como se ela soubesse de algo que eu não sabia, ficou comigo. Aquilo me incomodava, mas não era algo que eu pudesse resolver agora.
Eu estava atrasado, e sabia que seria punido por isso com olhares de desaprovação. Ao chegar, senti os olhares pesados de todos sobre mim. Meu pai, Benjamin Black, me encarava com uma fúria silenciosa, mas contida, e eu sabia que teria que lidar com isso depois. Eu o conhecia bem, e ele não deixaria isso passar despercebido. Mas, honestamente, isso pouco me importava. Este casamento era uma prisão, não uma celebração.
Então, finalmente quando entrei na sala, vi a mulher que seria minha esposa. Sarah. E, por um breve momento, fui completamente capturado por ela. Os meus olhos se fixaram nos dela, e uma atração inesperada percorreu o meu corpo. Era como se algo nela chamasse por mim de uma forma que eu não conseguia explicar. A minha mente tentou buscar algum lugar, algum momento em que a tivesse visto antes, mas a lembrança era esquiva, como um sonho que desaparece ao acordar. Mesmo que a conhecesse de alguma forma, isso não importava.
O meu pai me tirou desse transe, a sua voz cortante me trazendo de volta à realidade.
- Você está atrasado, Aaron. – ele disse, a fúria clara nas suas palavras, mas segurando o tom para não explodir na frente dos outros.
- Eu sei pai, estava resolvendo um assunto importante. – respondi, sem emoção, enquanto tentava afastar a sensação que Sarah havia despertado em mim.
Me posicionei ao lado dela no altar improvisado, e o juiz de paz começou a cerimônia. Eu estava distante, as palavras dele se misturando com os meus próprios pensamentos. Foi então que senti o perfume dela. Era suave, doce, mas não excessivo. E algo naquele cheiro mexeu comigo de uma maneira que eu não esperava. Imagens da noite que passei com Cassie começaram a surgir na minha mente, rápidas e confusas. Eu não conseguia ver o rosto dela claramente, mas a sensação de familiaridade me invadiu.
Por um momento, fechei os olhos, tentando dissipar os pensamentos. Isso era loucura. Estava me casando com essa mulher agora, e ela não era Cassie. Tinha que me focar no presente, no que estava acontecendo. Quando finalmente chegou a minha vez de responder, eu apenas disse "Sim", sem emoção, quase como se estivesse no automático.
A cerimônia foi rápida, quase mecânica, e antes que eu percebesse, estava saindo do local, ainda perdido nos meus pensamentos. Eu guiava a cadeira de rodas para fora, tentava entender por que aquelas memórias insistiam em surgir agora, mas não conseguia encontrar respostas.
Fiquei esperando do lado de fora do carro, as mãos apoiadas no colo, enquanto os meus pensamentos continuavam a me atormentar. Sarah apareceu pouco depois, e me olhou com uma expressão incerta, talvez até nervosa.
- Você... precisa de ajuda? – ela perguntou, sua voz hesitante, quase tímida.
Não respondi, simplesmente ignorei. O que eu poderia dizer? Que a culpa que eu estava sentindo não tinha nada a ver com ela, mas com algo que eu nem sequer compreendia completamente? Em vez disso, mantive o olhar distante, enquanto ela entrava no carro logo atrás de mim.
O caminho até a mansão de Benjamin Black foi silencioso, e eu não fiz esforço algum para iniciar uma conversa. A minha mente ainda estava presa nas memórias confusas que surgiram durante a cerimônia. Quando finalmente chegamos, senti um leve alívio ao ver a imponente mansão do meu pai.
O motorista parou o carro em frente à entrada principal, e ele rapidamente saiu para abrir a porta para mim. Com um gesto, pedi ajuda para me transferir da cadeira do carro para minha cadeira de rodas. Ele era eficiente, discreto, como sempre, e em poucos minutos, eu estava pronto para entrar.
Olhei para Sarah, que ainda estava dentro do carro, observando a mansão com olhos cautelosos. Ela parecia hesitante, como se estivesse decidindo se queria mesmo sair ou simplesmente pedir para voltar. Eu não a culpava; se pudesse, faria o mesmo.
- Vamos. – murmurei, sem olhar para ela, enquanto girava a cadeira em direção à porta da frente.
Ela me seguiu em silêncio, o som dos seus passos ecoando pelo chão de mármore enquanto entrávamos na mansão. Eu a conduzi diretamente para o corredor que levava ao quarto preparado para nós, no andar térreo. Não era comum ter um quarto no andar de baixo, mas dadas as circunstâncias, o meu pai havia mandado preparar um para mim — ou melhor, para nós.
Quando chegamos ao quarto, parei em frente à porta e me virei para encará-la. Vi que ela estava parada alguns passos atrás, com uma expressão nervosa.
- Entre. – disse, tentando manter a minha voz firme e impassível.
Ela hesitou por um momento, mas finalmente entrou. O quarto era grande, decorado de forma sóbria, com móveis de madeira escura e uma cama grande, de casal, no centro. As cortinas pesadas estavam parcialmente abertas, permitindo que a luz suave da lua iluminasse o ambiente.
Sarah parou no meio do quarto, os olhos examinando o local como se estivesse procurando algo. Vi a sua hesitação, a forma como ela mantinha distância de mim, como se estivesse pronta para fugir a qualquer momento. Havia uma inocência na forma como ela se comportava, algo que me surpreendeu e que só aumentou a minha curiosidade sobre ela.
- Olha. – comecei, rompendo o silêncio. – Eu sei que isso tudo é... estranho. Nenhum de nós queria esse casamento, e eu não vou fingir que estou feliz com isso. Mas podemos tornar as coisas menos complicadas.
Ela olhou para mim, surpresa, mas não disse nada, apenas assentiu levemente.
- Eu proponho o seguinte. – continuei. – Vamos manter este casamento por um mês. Durante esse tempo, vamos manter as aparências na frente dos outros, especialmente do meu pai. Mas fora isso, não precisamos ter qualquer contato. Você vive a sua vida, eu vivo a minha.
Ela piscou algumas vezes, absorvendo as minhas palavras, antes de finalmente perguntar, sua voz baixa:
- Por que apenas um mês?
Eu a encarei por um momento, ponderando a minha resposta. Poderia dizer a verdade, que eu não queria que este casamento interferisse na minha vida, mas, em vez disso, perguntei:
- Você queria este casamento? – ela balançou a cabeça lentamente, desviando o olhar. Era a resposta que eu esperava, e isso tornava tudo mais fácil. – Então, não há razão para prolongar isso mais do que o necessário. – disse. – Após um mês, podemos arranjar uma separação discreta. Será melhor para ambos.
Sarah parecia considerar a proposta por um momento antes de finalmente assentir.
- Certo. – disse ela, sua voz ainda hesitante. Eu aceito!
Havia um alívio na sua resposta, como se ambos tivéssemos concordado em uma trégua silenciosa.
Ela então olhou ao redor do quarto e, finalmente, perguntou:
- Por que estamos na mansão do seu pai? Não deveríamos estar em outro lugar?
- É só por essa noite. – respondi, observando a sua expressão. – Amanhã, iremos para minha casa. Já organizei para que a suas coisas sejam enviadas para lá. – a casa onde moraríamos estava passando por umas mudanças, como ela pensa que estou preso nessa cadeira, estou providenciando que a casa seja acessivel a uma pessoa cadeirante.
Ela pareceu relaxar um pouco com essa informação, e, por um momento, o silêncio entre nós se tornou quase confortável. No entanto, havia algo no ar, uma tensão invisível que ambos sentíamos, mas que não sabíamos como lidar.
- Não precisa se preocupar. – acrescentei, percebendo o leve rubor que subia nas suas bochechas. – Nada vai acontecer entre nós. Esta noite, ou em qualquer outra. Sarah. Apenas... faça o que precisar fazer para se sentir confortável.
Ela olhou para mim e, por um instante, pareceu querer dizer algo, mas acabou apenas assentindo novamente, o rosto vermelho. O contraste entre a mulher tímida e reservada à minha frente e a força que ela mostrava ao aceitar essa situação era intrigante.
- Se precisar de algo, estarei no outro quarto. Vou te deixar à vontade, e depois eu volto. – finalizei, virando a cadeira para sair.
Ela apenas ficou ali, parada, observando enquanto eu saía do quarto. Fechei a porta atrás de mim, sentindo uma mistura de alívio e incerteza. Esse casamento não era algo que eu desejava, mas se ao menos pudéssemos passar por isso sem maiores complicações, seria mais fácil suportar.
E, quem sabe, um mês fosse tempo suficiente para encontrar as respostas que eu tanto procurava sobre quem realmente era a mulher que estava agora no quarto ao lado.