Sarah Mills
Depois de três dias da visita do meu pai e Clarissa na minha, ele, fui “convidada” a me mudar para Los Angeles, e morar com eles até o casamento, talvez eles estivessem com medo que eu fizesse alguma loucura como fugir, sei lá. A minha vida transformou-se em um pesadelo sem fim. Tive que me mudar para a casa deles, e sinceramente, isso tem sido o inferno na terra. Clarissa e a sua filha, Isabel, parecem fazer de tudo para me deixar desconfortável, como se eu fosse um intruso que invadiu o santuário delas. Eu nunca fui bem-vinda, isso era evidente, e a cada novo dia eu sentia a pressão de estar ali apenas como um favor.
Uma semana depois da minha chegada, o meu pai me chamou ao seu escritório. O ambiente frio e impessoal, como ele sempre foi comigo. Havia uma pilha de documentos sobre a mesa – e papeis de transferência da minha herança. Ele m*l olhou para mim enquanto assinava, mas por um breve momento, tive a impressão de ver uma sombra de culpa em seus olhos. Mas talvez fosse apenas a minha imaginação, uma tentativa desesperada de encontrar alguma fagulha de humanidade naquele homem. Assinei aos documentos, e ele se comprometeu a continuar pagando pela internação da minha mãe na clínica. Aquilo deveria me trazer alívio, mas o vazio que restava era insondável. Quando terminei de assinar, ele apenas acenou com a cabeça, encerrando a conversa sem mais uma palavra.
Os dois dias que se seguiram foram um borrão de preparação para um casamento que parecia mais uma sentença. Eu estava prestes a me casar com um estranho, alguém que eu nunca havia conhecido pessoalmente. As poucas informações que obtive sobre ele eram vagas e desprovidas de qualquer calor humano. Aaron Black, o herdeiro misterioso de um império empresarial, um homem envolto em rumores e especulações. Mesmo sendo alguém conhecido, não havia muitas fotos dele na internet, o que só aumentava a minha sensação de estar prestes a mergulhar em algo obscuro e inexplorado.
No dia do casamento, eu me senti uma completa estranha no meu próprio corpo. O vestido simples, escolhido às pressas, parecia sufocar a minha alma. Olhei para o reflexo no espelho e m*l me reconheci. A cerimônia seria simples, apenas um juiz de paz, meu pai, Clarissa, e o pai do noivo, Benjamin Black, como testemunhas. Não havia espaço para flores, para sorrisos, para qualquer vestígio de alegria. Era um contrato, uma troca de interesses frios e calculados.
Eu estava no local da cerimônia, tentando controlar a ansiedade que apertava o meu peito. Sentia-me perdida, como se estivesse prestes a ser empurrada de um precipício. Olhei para o relógio e notei que o noivo estava atrasado. Quinze minutos se passaram, depois trinta. Quase uma hora. Eu queria desaparecer, me encolher em um canto onde ninguém pudesse me ver. O constrangimento e a humilhação eram esmagadoras. Meu pai e Clarissa não escondiam o desprezo, e até Benjamin Black parecia impaciente.
Finalmente, Aaron chegou. Quando o vi pela primeira vez, não pude evitar um sentimento estranho que me atingiu, como se eu já o tivesse visto antes. Ele se aproximou em uma cadeira de rodas, o que não era surpresa, eu sabia que ele usava cadeiras de rodas, o boato era, é que ele tinha sofrido um acidente que o fez perder os movimentos das pernas. Era como se algo na sua presença despertasse uma lembrança distante, mas logo dissipou-se na confusão da situação. Talvez fosse porque ele era uma figura pública, ainda que reservada, e eu já tivesse visto alguma imagem sua em algum lugar. Mesmo assim, o desconforto permaneceu.
Ele não fez questão de disfarçar a sua indiferença, sua expressão era dura, fechada, como se ele estivesse a caminho de uma execução, e não de um casamento. O seu atraso, seu olhar distante, tudo parecia gritar que ele não se importava com o que estava acontecendo. Ele nem se desculpou, ele me olhou brevemente, e, para minha surpresa, seus olhos se fixaram nos meus por alguns segundos a mais do que esperado.
Houve um momento de silêncio desconfortável, e senti o meu coração acelerar. Ele continuou a me encarar, os seus olhos escuros se estreitando levemente, como se estivesse tentando me reconhecer. Por um breve instante, a familiaridade no seu olhar me deixou confusa. Parecia que ele já me conhecia… mas de onde? A sensação era perturbadora, mas rapidamente se dissipou quando ele desviou o olhar.
- Você está atrasado, Aaron. – a voz severa de Benjamin Black quebrou o silêncio, carregada de reprovação.
- Eu sei pai, estava resolvendo um assunto importante. – Aaron respondeu, encarando o seu pai.
O juiz de paz nos chamou para iniciar a cerimônia. Aaron se aproximou com a cadeira de rodas, e por um momento, ele parecia desconfortável, porém, a sua expressão logo voltou à neutralidade.
- Vamos começar? – disse o juiz de paz, quebrando o silêncio que pairava sobre nós.
Aaron fez um movimento com a cabeça, sinalizando que estava pronto. Aquele gesto simples parecia pesar uma tonelada, como se ele estivesse se forçando a seguir em frente. Ele se aproximou com a cadeira de rodas, e se dirigiu ao altar improvisado.
Eu me posicionei ao seu lado, sentindo a pressão do olhar de todos sobre nós. O meu corpo estava tenso, e eu m*l conseguia respirar.
As palavras do juiz de paz soavam distante, como se eu estivesse debaixo d’água. A ideia de que estava me casando com um homem que eu não conhecia, era loucura. Então escutei o juiz chamar pelo nome de Aaron.
- Aaron Black, você aceita Sarah Mills, como a sua esposa, para amá-la, respeitá-la, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, por todos os dias da sua vida?
- Sim! – a sua voz monótona e sem emoção nenhuma.
Então ele se vira para mim e pergunta.
- Sarah Mills, você aceita Aaron Black, como o seu legítimo esposo, para amá-lo e respeitá-lo, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, por todos os dias da sua vida.
- Sim. – sussurrei, com voz trêmula quase sem acreditar que estava realmente fazendo aquilo.
Aaron me olhou de soslaio, seu olhar estranho, como se houvesse algo que ele não conseguia decifrar.
Quando o juiz de paz finalmente nos declarou casados, uma onda de náusea me atingiu. Aquilo era o início de uma nova vida, mas não da forma que eu havia imaginado.
Assim que a cerimônia terminou, Aaron se virou abruptamente e começou a se afastar. Ele não me olhou, não disse uma palavra, simplesmente se retirou da sala como se estivesse fugindo de uma cena que o incomodava profundamente.
Eu estava casada com um estranho, e a jornada que começava naquele dia parecia mais uma sentença do que uma nova vida.