Meu ânimo até subiu. Que maravilha quando nada dói!
Como me vesti para a celebração? Sem ser muito enfeitada: um vestido de veludo verde de comprimento médio, com mangas, corte reto, sem decotes ou aberturas provocantes.
A propósito, o vestido contrasta muito bem com meu cabelo. Enrolei ainda mais este último.
E nos pés, um salto alto vermelho e umas meias pretas. E por cima, o casaco.
Agora posso ir ao restaurante parabenizar meu pai pelo aniversário dele.
Assim que giro a chave para fechar a porta… Um espasmo percorre minha espinha e se curva para trás como a letra C.
Entendo que meu caminho até o restaurante passará pela farmácia.
E assim é.
No entanto, não me sinto melhor, muito pelo contrário. Estou sentado à mesa do restaurante e não estou com vontade de nada…
Eu nem como, embora na minha frente eu tenha muitas iguarias que, em circunstâncias normais, eu teria me empanturrado até a comida sair da minha garganta.
Eu estaria procurando um remédio para um estômago pesado.
Mas a dor me fez fazer dieta.
— Bruna, chega de sentar! — Minha irmã mais velha, Marina, balança meu ombro — Vamos dançar! Ou você ficará grudado na cadeira!
Má ideia…
Má ideia!
Meus olhos quase saltaram das órbitas!
Vou começar a uivar. Como um lobo.
— Marina…
— O que há de errado, Marina? —Ela continua me torturando.
— Pare… As costas… Eu vou falecer… Por favor…
— O que há de errado com suas costas? — Ela se senta ao meu lado e olha para meu rosto contorcido de dor.
— Acho que me deu ar… Dói e você me sacode — eu digo, ofendido, jogando minha cabeça para trás.
— Desculpe, Bruna, eu não sabia… Você já tomou alguma coisa?
— O medicamento que você me recomendou no ano passado.
— Esse é um analgésico leve.
— Eu já tomei.
— Vejo que você tem que tomar algo mais forte… Atualmente, estou tomando o Artem, tudo o que ele fez até agora é me ajudar e levantar o cotovelo.
Marina se levanta e vai procurar o marido. E quanto à festa…
O restaurante está lotado de parentes. Todos estão felizes e, em meia hora, conseguiram ficar bastante doentes. E para que eles não fiquem completamente bêbados antes das dez, o programador corre de um lugar para outro.
Ela é uma mulher enérgica na casa dos cinquenta, com curvas generosas, um vestido amarelo brilhante e cabelos ruivos.
Ela lidera a festa, organiza concursos e passa o microfone para todos parabenizarem o aniversariante.
Felizmente, foi a minha vez no início. Atualmente, é a vez do irmão do meu pai felicitá-lo, e nesse momento Marina aproxima-se com os medicamentos.
— Bruna, para um pai, você pode até vinte minutos e não cantar uma única música — o sensato intervém inesperadamente.
— Ah, concordo plenamente com você! — A apresentadora brilha com a resposta do idiota.— Palavras sábias!
— Então, Bruna, vá cantar — as palavras dele quase me deram um tique nervoso.
Bruna…
Agora…
— Sim, sim…! Todos estão esperando! Vamos lá! — A apresentadora me incentiva. — E o teu pai, mais do que ninguém!
Eu quero escapar. Agora mesmo: traga-me o casaco, eu o pego e saio correndo do restaurante. Entro no veículo e vou para algum lugar muito, muito distante, para que ninguém me encontre ou me obrigue a fazer o que não quero fazer. Nem cantar nem sair com alguém!
— Ok… — Sinto-me como a pequena Bruna com um vestidinho rosa e duas tranças, arrastada para o palco mais uma vez — Eu vou cantar.
Nesse momento, a mulher chega com meu casaco. Eu gesticulo para que ele desligue novamente. Pego o token e, assim que dou um passo…
— E eu poderia ir ao seu banquete para ouvir a apresentação? — Pergunta, meu chefe.
— Claro! — A mulher acena com a cabeça, dando rédea solta à sua curiosidade. E a Bruna? E como se chama? Eu não perguntei a ele antes…
— Bruna — O meu chefe deixa de lado seu nome de fantasia — Eu sou…
— Ela é minha amiga. — Eu o interrompo, sem querer ou saber o que ele ia dizer a seguir. — Um conhecido…
— Muito bom — A mulher nos dá um sorriso. Eu sou Alessandra. Prazer em conhecê-lo.
— Da mesma forma — ele sorri.
— E agora, correndo para a sala! —Palmas. Venha, venha!
Ela corre na frente e nós a seguimos. Mas antes de entrar na sala, viro-me para ele e...
Se não fosse pelo funcionário do vestiário, eu teria dito a mais sincera e saborosa sequência de palavrões para ela.
Maldito!
Ela está um pouco incomodada.
— O que há de errado? — ela perguntou, suspeitando que havia brigado com o marido.
— É melhor beber — me ignora. —Isso deve ajudar.
— Obrigada, irmã — Engulo a pílula com um gole de água.
Dez minutos depois, sinto alívio. Até sinto vontade de comer alguma coisa.
Justamente quando toco no garfo, o telefone vibra. Eu tiro e leio:
— Estou esperando.
Suspiro tristemente, olho para o restaurante… Agora, toda a gente está a dançar. Não quero sair da festa. Eu havia acabado de começar a perceber a atmosfera feliz.
Mas não tenho escolha.
Eu bufo e saio do restaurante. Desço para o primeiro andar e vou para o vestiário.
E ao lado dele… está ele.
De pé, sem tirar os olhos roxos de mim. Nossos olhos se encontram.
Aproximo-me dele sem dizer uma palavra e sem desviar o olhar. Cegamente, entrego o token ao funcionário do guarda-roupa.
Enquanto ela vai buscar meu casaco, ele fala:
— A cor verde… Devo considerar isso uma dica? Luz verde para seguir em frente? — me provoca. A propósito, essa cor combina bem com você.
Já tenho uma resposta mordaz na ponta da língua. Eu quero deixá-la ir… Diga a ele para olhar meus saltos vermelhos, para que…
— Lais, me chama! — A voz de uma mulher familiar me chama.
Eu me viro e vejo a apresentadora correndo em minha direção enquanto tagarela.
— Agora você tem que cantar uma música!
— Que música? — Estou revirando os olhos pela segunda vez esta noite, mas desta vez surpresa.
— Os convidados agora escolherão por votação… Corra para a sala de estar!
Achei que não poderia haver nada pior do que um encontro com o dono do local onde trabalho e uma dor insuportável nas costas.
Bem, talvez somente o fim do mundo…
Não.
Há.
Algo pior…
Uma canção!
Eu faço uma careta. Uma careta como se eu estivesse sendo forçado a beijar um sapo enorme, das pontas das patas até o topo da cabeça.
E por que essa cara? Por que isso provoca essas emoções em mim?
Porque odeio cantar com todo o meu ser! Eu simplesmente não aguento mais! Dá vontade de vomitar só de pensar nisso!
Na minha infância, os meus pais, contra a minha vontade, matricularam-me numa escola de música porque viram um potencial em mim. Minha mãe, mesmo antes de eu nascer, estava profundamente convencida de que meu destino era ficar com um microfone em frente a um enorme auditório.
Uma condenação tirada da manga!
E de onde veio?
Quando minha mãe estava grávida de mim, eu sonhava constantemente, quase todas as noites, que sua futura filha — uma garota loira de cabelos compridos e vestido branco — estava no palco, cantando.
Foi por isso que ela começou a acreditar nisso, e meu pai habilmente alimentou essa fé dela, dizendo que sua falecida avó cantava tão bem que a cidade inteira, quando ela soltava a voz, saía do trabalho e corria para ouvi-la, quase chorando de emoção.
E a cola que selou definitivamente essa ideia foi que nasceria uma menina.
O sonho profético da minha mãe…
Ambos achavam que eu era uma estrela e até me deram o nome daquela avó para que meu talento grudasse como piche em um sapato. Às vezes, eles até sentiam falta de que eu era a reencarnação da vovó…
O que as pessoas não inventam.
Aos seis anos, com lágrimas nos olhos e uma bolsa rosa nas costas, fui desenvolver esse talento. Eles me forçaram a tocar piano e cantar.
Meus pais até compraram o piano, e eu m*l consegui tirar aquelas malditas melodias dele.
Mas cantar era ainda mais detestável para mim, e atuar era quase a morte!
Eles sempre me davam arrepios.
É por isso que eu odiava todas as festas. Porque se houve uma festa, houve um concerto.
E isso sem falar na escola, onde eu também era constantemente usada como a grande cantora.
A Bruna sempre teve que atuar!
E ninguém estava interessado se a própria Bruna quisesse fazer isso…
Eles somente repetiram com entusiasmo que eu tinha grande talento…
Mas eu não acredito. Toco piano medíocre e minha voz… Talvez a avó do meu pai cantasse para as pessoas ficarem sem fôlego, mas minhas habilidades vocais são medianas. Absolutamente nada de especial.
Cantei um pouco melhor que as outras crianças porque me ensinaram a fazer isso!
Todo o resto é um exagero. Eles fizeram uma montanha com um grão de areia!
Enquanto isso, meus pais, a cada ano que passava, acreditavam mais fortemente: eu me tornaria uma estrela e o mundo inteiro saberia sobre mim.
Eles me fizeram barulho dizendo que eu tinha que ir a castings, a todos os tipos de shows de talentos.
Mas eu fiz o oposto. Terminei a escola de música e a escola normal e fui para a universidade, mas não para estudar canto. Quatro anos depois, obtive um diploma com honras em contabilidade e auditoria, destruindo os sonhos dos meus pais.
Eles ficaram muito bravos comigo por isso…
Minha mãe disse ser um grande pecado não mostrar talento como o meu.
Repeti que o destino é caprichoso e que faria todo o possível para retornar ao verdadeiro caminho: cantar.
Mas agora não é o destino que é tão teimoso, mas os meus pais! Estou convencido de que foram eles que incluíram uma música na lista de entretenimento, pare…
Isso já é um pesadelo…
Deus, queria que ontem, em vez de ar nas costas, eu tivesse pegado angina! E que minha voz soe como o assobio de uma serpente maligna!
— Com licença, mas temo que não seja possível — tento evitar a situação. Estou com pressa… Como você vê, ele está me esperando — aponto a cabeça para o meu chefe — Tenho assuntos urgentes.
— Bruna, mas é por causa do seu próprio pai! Não é todo dia que você faz sessenta anos! — A apresentadora fica indignada — Você é a filhinha dos olhos dele, deveria dedicar pelo menos dez minutos a ele! Você não imagina o quão triste ele ficou quando comecei a ligar para você e você havia desaparecido… Graças a Deus, Marina me disse onde te procurar, porque ela viu você sair…
— Com licença, mas...