Falcao narrando
Eu não ia perder essa oportunidade.
Hoje, não tinha como eu deixar isso passar. Durante dias, eu vinha jogando um jogo perigoso, me aproximando, testando, observando cada reação dela, cada gesto, cada mínimo sinal que me desse a certeza que eu precisava. E agora, eu estava prestes a ganhar.
Angel estava dançando no meio dos clientes, deslizando entre os homens com aquele olhar cheio de mistério, o corpo rebolando no ritmo da música, a boca entreaberta numa expressão provocativa. Ela andava como se pertencesse àquele lugar, como se soubesse que dominava todos ali, como se soubesse que cada olhar a seguia.
Mas eu não era qualquer um.
Eu sabia que, por trás daquela máscara, havia mais do que uma dançarina que instigava os homens sem permitir que ninguém a tocasse.
Eu sabia que por trás daquele olhar, havia uma verdade que ela tentava esconder.
E hoje, eu ia arrancar essa verdade dela.
Sentado no bar, eu mantinha meus olhos fixos nela, observando cada movimento, analisando cada detalhe de sua expressão. Meu corpo estava tenso, minha respiração mais pesada, minhas mãos inquietas. A verdade é que eu estava nervoso. E não era o tipo de nervosismo que eu costumava sentir antes de uma guerra ou de um acerto de contas. Era algo diferente, algo que me corroía por dentro, que fazia meu peito apertar de um jeito que eu não conseguia explicar.
Ela passou perto de mim e eu aproveitei a oportunidade.
Usei as palavras certas.
Palavras que não diziam tudo, mas que diziam o suficiente.
— Você vai perder a oportunidade? Nunca sabemos como pode ser a última vez.
A forma como seu corpo travou no mesmo instante me deu a resposta que eu precisava.
Ela não conseguiu esconder.
Seus olhos se arregalaram, sua respiração ficou instável, seus dedos gelados, mesmo no calor daquela boate. Ela tentou disfarçar, tentou fingir que nada tinha acontecido, mas toda a sua linguagem corporal gritava o contrário.
Ela sabia exatamente o que eu queria dizer.
E por isso, fugiu.
Saiu apressada, como se precisasse escapar de mim antes que eu a desmontasse por inteiro. Como se temesse o que eu pudesse descobrir.
Eu passei a mão pelo rosto, sentindo meu coração bater pesado no peito.
Caralho.
Não pode ser.
Não pode ser ela.
Mas era.
Angel não era apenas uma dançarina misteriosa de um puteiro no outro lado da cidade.
Ela era do meu morro.
Ela sempre esteve lá.
Tão perto de mim, e eu nunca reparei.
Como isso foi possível? Como eu nunca percebi? Como eu nunca notei aqueles olhos, aquele corpo, aquela energia? Eu conhecia cada canto daquela favela, cada morador, cada pessoa que circulava pelas vielas, cada mulher que chamava a atenção. Mas ela… ela sempre passou despercebida.
E agora, a verdade estava bem diante de mim.
Meu peito estava um caos. Uma parte de mim estava revoltada por ter demorado tanto para perceber. Outra parte estava elétrica, sentindo o gosto da vitória antes mesmo de dar o xeque-mate. Mas, acima de tudo, eu queria agir.
Eu queria segui-la até o fim daquela noite, ver para onde ia, descobrir qual era o caminho que ela percorria quando saía da boate. Eu queria pegá-la com a boca na botija, arrancá-la daquele lugar e fazê-la admitir a verdade. Hoje, Angel sairia dali comigo. Não importava como.
Mas antes que eu pudesse sequer levantar do bar, meu celular começou a tocar insistentemente.
A tela piscava com o nome de Piloto.
Primeiro, ignorei.
Depois, vieram as várias mensagens.
“O que fez, filha da p**a? Tu tá nessa p***a dessa boate?”
“c*****o, irmão, o bagulho tá doido, cara. Como é que tu faz isso comigo?”
“O que tá acontecendo com você? Não tem como tu entrar na favela, filha da p**a. Agora que tu tá aí na pista, tu fica.”
“Que inferno! O que tá acontecendo contigo, Falcão? Nem eu tô te reconhecendo.”
Meu corpo ficou em alerta.
Alguma coisa estava errada.
Eu abri o celular e passei os olhos pelas mensagens rapidamente, sentindo minha respiração acelerar, meu sangue correr mais rápido.
E então, veio a última mensagem.
Aquela que fez o chão sumir sob os meus pés.
“p***a, Falcão, a Core e o Bope estão aqui também. Fodeu, culpade, fodeu.”
Meu estômago revirou.
A invasão começou.
Meu morro estava sendo atacado.
Meu lugar, meu território, minha favela estava em guerra. Naquele instante, tudo dentro de mim mudou. A excitação que corria pelo meu corpo se dissipou, dando lugar a um ódio frio, cortante, c***l. Angel desapareceu da minha mente como fumaça ao vento. A única coisa que importava agora era a minha favela. Minha casa. Minha tropa. Meu povo.
Antes que o segundo show dela começasse, saí da boate sem olhar para trás.
Minhas pernas se moviam rápido, minha mente fervilhava, meu coração martelava dentro do peito.
Eu arranquei meu carro da frente daquele puteiro e acelerei no asfalto, rasgando a cidade, atravessando sinais vermelhos, deixando o ronco do motor ecoar pelas ruas.
A única coisa que existia na minha mente agora era o morro.
Eu precisava chegar lá antes que fosse tarde demais.
Eu precisava proteger o que era meu.
E se alguém ousasse se meter no meu caminho essa noite, ia pagar o preço com sangue.
A entrada do morro estava tomada.
Caveiras por todos os lados, carros da polícia estacionados no meio da pista, motos cortando os becos, homens à paisana misturados na multidão. Aquela cena fazia meu sangue ferver. A Core e o Bope não vieram só pra dar susto, não era só mais uma operação comum. Eles vieram pra derrubar tudo.
Mas aqui não é qualquer lugar.
Aqui é meu morro.
E eu nunca vou deixar essa p***a cair.
Passei reto, sem diminuir a velocidade. Não tinha como entrar de frente, então cortei caminho por uma das laterais, subindo por uma favela vizinha que tem conexão direta com a nossa. O asfalto virou barro, os becos estreitos me obrigavam a pisar no freio e acelerar de novo, desviando de lixeira, escombros e até criança que corria no meio do caminho assustada.
Peguei o celular e disquei rápido o número do Piloto.
— Qual é, viado, cadê tu? Tô dentro da favela já.
Primeiro, ele me xingou de tudo que era nome. Pediu minha cabeça, me chamou de irresponsável, de filha da p**a, de arrombado, de tudo que tinha direito. Mas depois, soltou:
— Rua 14, na laje. Já tô te esperando aqui com teu fuzil e teu colete. Corre, p***a.
Eu não pensei duas vezes.
Nem bati boca com ele. Só acelerei.
Cheguei jogando o carro de qualquer jeito na rua 14, freando seco, batendo a porta com força. Piloto já estava lá em cima, armado até os dentes, e quando me viu, nem falou nada. Só jogou o colete e o fuzil na minha direção.
Vesti tudo no automático.
Entrei na guerra.
O clima entre nós dois estava carregado. Eu sabia que ele ainda tava puto comigo, sabia que no fundo ele queria me jogar um sermão no meio do fogo cruzado. Mas ali, naquele momento, não existia discussão.
Só existia sangue.
Nossa posição era estratégica. Lá de cima da laje, tínhamos visão ampla de toda a rua principal e dos becos que se conectavam às vielas da favela. Todo policial que entrava no nosso campo de visão, morria.
Atiramos frios, calculistas, certeiros.
Somos muito bem treinados.
Nos comunicamos com olhares, gestos rápidos, sinais silenciosos. Cada movimento precisa ser exato, sem hesitação. O barulho dos tiros rasgava o ar, os gritos ecoavam pelas vielas, o cheiro de pólvora já impregnava na pele.
Mas algo estava errado.
Peguei o rádio e fiz a primeira chamada.
— Coelho, qual a tua posição?
Nenhuma resposta.
Esperei alguns segundos e tentei de novo.
— Tropa que tá com Coelho, responde.
Silêncio.
Meu peito começou a apertar.
Olhei pra Piloto e ele já sabia que eu estava incomodado.
— Vou descer.
Ele franziu a testa, estranhando minha decisão.
— Depois a gente acha o Coelho, parceiro. Ele deve tá na guerra também, não tá podendo responder.
Mas eu sabia que não era só isso.
Coelho é importante.
Muito mais do que qualquer um ali imagina.
Eu vi o jeito que Jade estava diferente hoje. O nervosismo, a agitação, o olhar perdido. Não era só por minha causa.
E se ela é irmã do Coelho, como ele soltou sem querer mais cedo, então ele também é importante pra ela.
E qualquer um dos meus soldados são importantes pra mim.
Piloto percebeu que eu estava decidido, então não discutiu. Apenas me olhou uma última vez antes de voltar a atirar.
Peguei meu carro e mergulhei de cabeça no caos.
Desviei entre as vielas, o motor roncando alto enquanto eu passava por cima de corpos caídos, estilhaços de vidro, pedaços de concreto. O chão da favela estava sujo de sangue e eu sabia que a batalha ainda estava longe de acabar.
Cada policial que eu via, eu atirava sem pensar duas vezes.
Eu conheço cada canto da minha favela. Sei os atalhos, os becos que levam para rotas de fuga, os caminhos mais perigosos e os mais seguros. Mas agora, nada disso importava.
Eu não estava fugindo.
Eu estava caçando.
E a única coisa que passava pela minha mente era encontrar Coelho antes que fosse tarde demais. E um arrepio corria pela minha espinha, sinalizando que algo não estava correto, eu sentia isso, eu sabia que tinha alguma coisa muito errada, ainda mais que o coelho não era de sumir assim…