Os seis jovens estavam na calçada diante dos escombros da casa as pessoas que passavam não reparavam neles menos ainda na casa desabada numa área bem grande onde havia mais espaço para fazer outra casa.
A casa foi dada a Demétrio de presente pelos "pais", ele foi o único que lamentou com muito pesar e lágrimas nos olhos, obviamente, não era todo dia que um brasileiro perdia uma casa devido a um terremoto, ainda mais gente com muito dinheiro.
— Que… d***a! Minha linda casa, arruinada. Olha só como ela ficou depois de muito tempo de reforma e gasto de dinheiro... Eu não aguento mais isso, temos que acabar logo com este jogo infernal.
— Com certeza, meu amigo — falou Octávio. — A gente vai acabar logo.
— Esse jogo está tentando nos m***r? — indagou Andrei. — Parece que se a gente não morrer de um jeito, morre de outro.
— Para de falar de morte, i*****l — xingou Fernanda.
Demétrio se voltou para Renata.
— Como você sabia o que ia acontecer?
— Demi — a garota começou a se explicar —, quando a pedra vibrou, eu a senti de algum modo, uma atração bem forte, e quando fiz contato a pedra levou a minha consciência para um oásis, sabem, tipo um jardim com lagoa e tudo no meio do deserto, e lá uma voz me pediu para escolher entre perder a casa ou perder todo o dinheiro…
— O quê? — Demétrio gritou. — E essa voz desgraçada te deu autoridade para destruir a minha casa?
— Não... Desculpa, eu fiquei nervosa... — Renata calou-se por uns instantes, ficou nitidamente constrangida.
— Demétrio, não brigue com ela — advertiu Octávio.
— Não estou brigando, só estou… — Demétrio obrigou-se a se acalmar para não perder o juízo. — Ela poderia ter escolhido o dinheiro. E agora, como vou recuperar o prejuízo que eu tomei?
— Me desculpa, eu estava pensando no que comer se ficássemos com fome — justificou Renata.
— Alguém está impressionado? — comentou Fernanda para fazer graça, porém, ninguém estava no clima. — Renata só anda com fome, parece um homem disfarçado, uma loba na pele de cordeiro.
— Olhe, deixa quieto — disse Demétrio. — Acredito que quando tudo isso acabar, tudo vai voltar ao normal, assim espero — ele balançou o molho de chaves. — Pelo menos, tenho outra casa.
Os outros ficaram boquiabertos. Demétrio tinha outra casa, era a esperança deles para que não ficassem no meio da rua e ter que viverem como mendigos, tinham a certeza de que não sobreviveriam.
Então, começaram a implorar para que Demétrio os levasse até a outra casa, que não permitisse que andassem como sem-tetos que praticamente eram, mas Demétrio endureceu o coração, ele não queria arriscar se maneira nenhuma.
— Não, não e não — teimou Demétrio. Os seus colegas pediram de joelhos para que ele os levasse para a sua outra casa para abrigá-los. — Não vou perder outra casa, não estou maluco. Estão pensando que casas crescem como árvores? É muito gasto, meus amores.
— Então, onde vamos dormir? — perguntou Fernanda. No meio da rua? Eu nunca dormi na rua, não sei o que é isso, vou sentir tanta vergonha, tanto medo. Eu não vou fazer isso, sou mulher, sou bonita, a casa que eu bater na porta vai me hospedar sem problemas. Vocês que se virem.
— Você é inacreditável — falou Octávio a balançar a cabeça em sinal de negação.
— Gente, e onde vamos comer? — perguntou Renata.
— É sério? E depois falam de mim, acabamos de tomar café e você ainda está com fome? — respondeu Fernanda. — Você só anda com fome.
— Eu não quero saber — Demétrio interrompeu a discussão —, por mim dormimos nas ruas até acabar isso tudo, mas não insistam, eu não vou dar outra casa.
— Gente — disse Octávio pegando o livro mágico de dentro da mochila —, o livro vibrou — ele pegou o livro, abriu e mais uma página revelou algo escrito. Era um endereço.
— É um endereço. O que é que tem lá? — perguntou Fernanda.
— Temos que ir para lá — falou Talita. — É isso que o livro quer.
— Nós vamos, você vai para casa — ordenou Octávio.
"Oh!" Os outros disseram em uníssono, esperavam por uma discussão de casal, e ao que pareceu, Talita não gostou nada do jeito que o seu namorado falou com ela.
— Amor, eu vou com vocês — falou ela com toda a sua paciência e delicadeza de garota tímida.
— Não, Talita, pode ser perigoso. Você não foi amaldiçoada com a gente...
— E qual a diferença?
— Não insista, por favor. Quando isso tudo terminar, muito coisa pode se reverter para nós, mas para você... Não sabemos.
— Se ninguém sabe, então não precisa pensar assim.
— Óbvio que precisa, só estou raciocinando direito.
— Octávio, eu sou a única pessoa que se lembra de vocês, como tem certeza que a maldição do livro não me afetou?
Octávio não tinha resposta, mas arriscou em afirmar o que foi dito no começo:
— Você pode ser uma feiticeira também...
— Não interessa, eu vou, quero ajudar — Talita começou a andar na frente deles.
— Aonde você vai?
— Para o endereço que o livro mostrou — respondeu já um pouco distante dos outros. — Eu sei onde fica.
Fernanda pegou o livro mágico das mãos de Octávio de surpresa e disse:
— Eu vou com ela — Fernanda puxou Renata pelo braço. — Vamos, Renata.
Octávio ficou parado com as mãos na cintura a olhar para as meninas se afastarem a cada passo e respirou fundo.
— Mulher é fogo, não é!? — comentou Demétrio perto do seu ouvido.
— Intenso.
•••
Os seis estudantes chegaram ao centro da cidade, as ruas estavam muito movimentadas, finais de semana sempre eram assim, se cansam bastante para descansar depois.
— Gente, desculpe se estou parecendo esfomeada, mas vamos parar para comer, eu não aguento mais — sugeriu Renata, todos pararam e olharam para ela.
Minutos depois estavam todos a comer alguma coisa numa lanchonete local, o mais barato possível para não gastarem tanto dinheiro.
Talita optou por não comer nada para não gastar o dinheiro que tinham e também não estava com fome nem precisava se preocupar com isso, como eles. Octávio insistiu que ela comesse, mas ela foi bastante consciente.
Logo após isso, seguiram caminho em silêncio, não tinham muito o que conversar, na verdade, precisavam pensar, já tinham uma ideia do funcionamento do jogo.
De acordo com o endereço, pararam diante de uma casa abandonada, o portão estava enferrujado e a vegetação invadiu o lugar que era um terreno muito extenso.
— Vamos entrar — disse Talita.
— Espera, amor, desta vez eu vou na frente — disse Octávio.
Ele escalou o portão, com pouca dificuldade, depois Andrei e por último Demétrio e foi bem fácil para ele. Eles deveriam procurar alguma coisa para quebrar a corrente enferrujada com cadeado, mas Talita simplesmente puxou o portão com tanta força que as correntes superenferrujadas se quebraram. As meninas entraram cheias de graça e os meninos soltaram leves risos, exceto Octávio, ficou constrangido pelo papel que se prestou.
Todos subiram pela escada e pararam de frente para a porta branca da casa, agora, já estava bastante encardida. Antes que pudessem entrar o livro alertou, Fernanda o abriu e leu a nova página.
— "A rainha das que se rastejam possui o que você precisa ter. A fobia pode atrapalhá-lo, mas o autocontrole o mantém focado" — Fernanda fez uma careta. — Hein? Não entendi nada.
— Serpentes — disse Andrei. — Está falando de serpentes.
— Ai, meu Cristo.
— Provavelmente uma cobra naja vai estar com a outra pedra mágica — disse Talita. — "A rainha das que se rasteja", deve ser a cobra naja, com certeza ela está com a pedra.
— Será mesmo? — falou Fernanda.
Ela fechou o livro e abriu a porta com desdém.
Dentro da enorme casa, no meio da sala deteriorada pelo tempo e falta de cuidado, havia centenas de serpentes de todas as espécies espalhadas pelo chão e em cima de uma pequena coluna de concreto feita para sustentar plantas, que estava no canto da parede, no centro entre duas escadas, tinha uma cobra naja com uma pedra verde reluzente grudada no ventre, perto da cabeça.
Imediatamente, Fernanda fechou a porta.
— Gente, eu morro de medo de cobras, eu não posso entrar aí.
— É muita cobra, não vou de jeito nenhum — disse Renata.
Ela e a amiga olharam as mãos para se certificarem de que não esmaeciam e comemoraram por isso.
— Sou alérgico a cobras — falou Andrei.
— Você é alérgico a tudo, garoto — disse Fernanda fazendo Renata gargalhar, apesar de estarem nervosos.
— Claro, tenho alergia ao perigo.
— É, amor, tem que ser você — disse Talita para Octávio.
— Por que ele e não eu? — perguntou Demétrio. — Eu também sou homem e sou corajoso.
— Você quer ir?
— Não quero, mas... Diga o que sabe, você falou com tanta propriedade que me despertou a curiosidade.
— Sim, querido, ele é o meu namorado e eu sei tudo sobre ele. Ele tem fobia a cobras, principalmente à naja, ele viu uma pessoa morrer por picada quando era mais novo, além de ter trauma de picadas desde novo devido às seringas do hospital.
— Quantas namoradas suas sabem tudo sobre você? — perguntou Andrei a formular a frase de maneira errônea, ele queria namorar e queria saber como funciona um relacionamento.
— Só tenho uma namorada, rapaz — respondeu Octávio —, e ela é a única que sabe tudo.
— Assuntos aleatórios à parte — disse Demétrio. — Vai ou não vai pegar a pedra?
— Oh! Vou ter que ir — Octávio deu de ombros.
O musicista respirou fundo, se aproximou da porta, os outros se afastaram, e a abriu. Várias serpentes se rastejavam, uma em cima da outra, por todo o canto. Ele focou na cobra naja e o que fez em seguida chocou os seus colegas.
Ele caminhou por cima das cobras como se fossem areias da praia, ignorando-as completamente. As cobras sibilaram, mas nada fizeram, ele teve que saltar por cima da maior delas e por fim, chegou na rainha. A naja ergueu-se, abriu as orelhas e sibilou para Octávio que não hesitou e arrancou a pedra do seu ventre. A serpente o picou depois de três segundos, por fim, todas as cobras enegreceram e desfizeram-se como fumaça.