Depois que todas as serpentes sumiram, e depois que recebeu a picada da cobra naja, Octávio caiu no chão e Talita foi a primeira a correr para socorrê-lo — assim como ele fizera com ela.
Fernanda revirou os olhos, ela não suportava ver todo aquele cuidado entre eles, o casal a incomodava, quem sabe fosse resquício de inveja por estar solteira, ou ciúmes por gostar do Octávio, o próprio Demétrio quem fez esta observação.
— Por que você faz isso? — perguntou Demétrio para Fernanda, logo após os outros irem ao encontro do jovem caído no chão e desacordado.
— Isso o quê? — Fernanda fez-se de desentendida.
— Para de se fazer de desentendida, eu sei que você não gosta do casal, você revira os olhos quando estão um cuidando do outro.
— Está ficando doido? Por que eu não gostaria deles? Estão sendo os meus melhores amigos no momento, lembra que não temos mais ninguém?
— Não é sobre isso, me refiro ao casal em si, pois, toda vez que eles…
— Gente, venha aqui, ele está acordando — Renata os interrompeu ao chamá-los.
Demétrio encerrou a conversa para falarem sobre isso mais tarde, não queria deixar escapar, precisava saber o que se passava no coração de Fernanda, pois, ele estava se interessando por ela, mas precisava ter certeza de que não havia outra pessoa ocupando espaço naquele coração.
Octávio gemia antes de acordar, ao abrir os olhos completamente, ele assustou-se e se afastou dos seus colegas que apenas o assistiam. Ele olhou para o braço e viu os furos da picada da naja, ficou inquieto, ofegante, queria muito chorar, mas se controlou e apertou a mão sobre o braço. Ficaram todos de pé e o levantaram do chão.
— Amor, está tudo bem, está se sentindo m*l? — interrogou Talita, ela precisava manter a calma já que o seu namorado parecia não estar, não queria piorar as coisas.
— Gente, eu sonhei que estava nesse tal jardim do deserto, como a Renata falou da primeira vez, e lá uma voz me mandou escolher entre ficarmos sem nada, ou então eu receber uma mordida da serpente.
— Por que sempre querem mexer com o nosso único dinheiro? — indagou Renata. — É tudo o que temos para sobreviver, não fazemos ideia de quanto tempo podemos ficar neste jogo.
— Porque o livro sabe que precisamos dele — respondeu Andrei. — Sem dinheiro não vamos durar muito tempo nas ruas, sempre dependeremos do dinheiro para tudo, o Brasil é capitalista.
— Vai dar aula de Geografia agora é? — disse Fernanda.
— Gente — continuou Octávio —, a voz disse que se eu escolhesse a picada viraria uma estátua de mármore dependendo das próximas decisões.
— Ó, meu amor — lamentou Talita.
— Não entendi — falou Fernanda.
— Eu entendi, e espero que vocês pensem no bem de todos — disse Talita.
Fizeram silêncio por um momento e analisaram o local até decidirem que dava para ficarem por lá enquanto Demétrio não se decidia se daria a sua casa para eles dormirem.
•••
Estavam todos mais uma vez tranquilos, descansavam, porém, atentos para qualquer coisa que pudesse ser uma das provas proporcionada pelo livro, tudo era possível.
— Amor, é melhor você ir para casa agora — pediu Octávio para Talita, a noite dava indícios da sua chegada. — Está ficando tarde.
Talita suspirou.
— Sim, você tem razão. Mas não saiam daqui sem mim. Me esperem chegar, senão eu vou ficar muito chateada.
— Minha vida, você n******e nos acompanhar deste jeito, pode se prejudicar. Eu já falei que é perigoso, se alguma coisa r**m acontecer com você eu não vou me perdoar nunca.
— E eu já falei que não me importo, eu sou a única que se lembra de vocês, se tudo, isso pode ser importante, e tenho certeza que se fosse acontecer alguma coisa r**m, já teria acontecido, acho que vocês estão numa situação pior do que a minha. Estejam aqui amanhã, senão vou sair por aí à procura de vocês pela cidade toda.
Octávio não gostou do que ouviu, mas não podia contestar com a sua namorada, ela era insistente e teimosa, uma jovem bem-decidida e persuasiva.
Talita foi embora e os que ficaram exploraram o ambiente. Era uma antiga propriedade de um senhor idoso com muitos bens que foi abandona após a sua morte, os parentes brigaram na justiça por anos pelo patrimônio, mas até aquele dia nada havia se resolvido.
A casa era muito empoeirada e os móveis eram clássicos, porém, velhos e deteriorados, o teto da sala tinha um rombo e as paredes estavam descascadas. Os quartos ainda estavam intactos, contudo, a falta de manutenção os deixava com uma aparência não muito agradável. As camas e lençóis estavam velhas e com cheiro de mofo, era tudo o que podiam usufruir. Era aquilo ou nada, e nada não parecia uma opção muito boa já que aquela casa foi indicada pelo livro, na verdade, não tinham opções.
Com o dinheiro, compraram velas, fósforo e muita comida, principalmente água, nada do que fosse muito perecível, e algumas coisas mais. A noite chegou e arrumaram um quarto para todos dormirem. Passaram desodorante nos cobertores e nas camas para sair o cheiro r**m, não deu muito certo, em seguida, retiraram a cama do quarto e deixaram apenas os colchões, também, acenderam uma vela e a deixaram num canto da parede bem distante deles para não causarem um acidente.
Dormiam tranquilamente até que, pela madrugada, muito antes do sol raiar, o livro vibrou e despertou o Octávio, dentre todos e todas, ele agora tinha o sono mais leve, a preocupação que tinha e a posição que estava o tornou uma espécie de líder do g***o, não podia vacilar. Octávio pegou o livro e aproximou-se da vela que estava dando os seus últimos sinais de vida. O ambiente estava muito escuro. Ele pegou o livro, o abriu na nova página e leu:
— "Aquele que não sabe pode saber muito. O temor o aflige, mas superá-lo lhe dará confiança. O que mergulhar poderá pegar a pedra" — após ter lido e meditado para tentar entender, a vela se apagou e ele pôs-se a acordar o outros.
— De madruga de novo? — resmungou Fernanda com voz sonolenta. — Ah, não! E está tudo escuro, vamos dormir e deixar para depois.
— Levanta, Fernanda — ordenou Demétrio. — Essa ideia pode não ser boa. O livro vai nos punir, ou sei lá, não quero arriscar para saber.
Logo após alguns minutos, acenderam várias outras velas e iluminaram o quarto. Agora estavam todos de pé diante do livro tentando entender a charada.
— Bem, se está falando em mergulhar, provavelmente fala de água — disse Andrei.
— Mergulhar onde por aqui? — indagou Renata, mas não tinham uma resposta exata. — Será que vamos ter que ir em algum esgoto?
Os outros murmuraram e expressaram repulsa pelo comentário dela.
— Não — falou Demétrio —, numa casa grande como esta, o dono pode ter uma grande banheira, ou diria que aqui tem uma piscina, mas é tão antiquada.
— Não custa nada procurar — sugeriu Octávio.
Saíram do quarto, cada um com uma vela nas mãos, as meninas gritavam por causa de alguns ratos e baratas, mas não eram incomodados pelos vetores, e chegaram a uma porta que indicava levar para o quintal, trancada com cadeado que parecia estar em bom estado, apesar da pouca ferrugem, os meninos tentaram arrombá-la, mas não obtiveram sucesso, nesse momento, Andrei perguntou se uma das meninas não tinha grampos de cabelo e por sorte a Fernanda tinha, ela entregou-o e ele mexeu no cadeado até conseguir destravar.
O pessoal impressionou-se pela habilidade do garoto, queria saber onde ele havia aprendido aquilo, ele disse que aprendeu com o pai que era mecânico, como o pai de Octávio, porém, este não havia aprendido nada com a profissão, por isso o seu pai não queria que ele fosse cantor e músico.
— Você estava certo, tem mesmo uma piscina aqui — falou Fernanda para Demétrio depois que passaram para fora da casa.
Eles estavam no quintal da casa, era fechado por um muro e havia apenas uma piscina grande com algumas cadeiras quebradas ao redor. A piscina parecia ter sido feita não há muito tempo, contudo, estava suja e cheia de limos e algumas folhas secas. Cobriram as velas com as mãos para que os ventos da noite não as apagassem, mesmo assim, o ambiente estava um pouco mais claro, fora que uma luz intensa e azul emanava do fundo da piscina, sem dúvida era uma das pedras.
Ao se aproximarem da piscina perceberam o quanto era funda, e não tão suja quanto imaginavam.
— Que bonita toda esta luz! — comentou Renata.
— Parece que dessa vez não há criaturas — disse Andrei.
Demétrio colocou a sua vela em cima de uma das cadeiras e começou a retirar a sua roupa, tinha um corpo escultural.
— É... O clima está muito frio, mas não vou molhar a farda, só temos isto para vestir mesmo.
— O que está fazendo? — perguntou Octávio para Demétrio, ele ficou um pouco exasperado.
— Vou pegar a pedra, ué — simplesmente respondeu o garoto.
— Como sabe que é você que tem que pegar a pedra? — falou Renata. — Não analisamos o provérbio por completo.
— Alguém quer ir pegar a pedra? — perguntou Demétrio para os todos.
— Eu não quero me molhar, está muito frio — disse Fernanda.
— Bem, eu também não quero ir — respondeu Renata —, e tenho certeza que não é a minha vez.
— Eu não sei nadar — disse Andrei.
— Então, deixa eu fazer o que tenho que fazer — Demétrio jogou-se na piscina, porém, ficaram confusos quando viram que ele se chocou conta a superfície da água como se estivesse se lançado num colchão d'água, não afundou, não mergulhou. — O quê? — Demétrio ficou em pé por sobre as águas da piscina, se equilibrava muito bem.
Octávio colocou a sua vela e o livro em cima de outra cadeira e pisou na água, também não afundou, em seguida Fernanda, aconteceu o mesmo. Apenas Renata e Andrei ficaram de fora.
— E aí, qual dos dois? — perguntou Octávio apesar de ter quase certeza de que o negócio era com o Andrei.