Capítulo 123
Ele ficou fazendo carinho em silêncio por bastante tempo. Ela perguntou se ele queria ir comer na casa dele. Ele disse que não, que mais tarde iria lá apenas para pegar as coisas e dormir com ela.
Ela levantou, terminou o jantar, arrumou a mesa e ficou quieta o tempo todo. Estava pensativa, imaginando várias coisas.
Ele se sentou à mesa e pediu para ela tentar comer pelo menos um pouco.
Ela respondeu, encarando-o:
— Não quero. Vai me colocar de castigo? Não tenho medo de você!
Ele sorriu e respondeu:
— Não vou ficar sendo chato com você, meu amor. Só quero cuidar de você. Vem, senta aqui pertinho de mim?!
Ela se sentou no colo dele e comeu algumas garfadas que ele levou à boca dela com muito carinho e cuidado.
Ele começou a falar que reparava muito no corpo dela. Disse que não era na maldade, apenas percebia as mudanças. Que a conheceu de um jeito e, depois do acidente, ela havia se tornado outra pessoa.
Ela perguntou o que tinha mudado.
Ele respondeu:
— Ahhh, no começo eu te achei bonita logo de cara, mas você usava umas roupas estranhas. Eu lembro do dia em que nos conhecemos. Você estava de moletom, calça e tênis, toda moleca. Foi grossa comigo e eu achei engraçado. Pude ver que você era cheia de energia. Depois teve aquele dia em que você caiu do muro e machucou a mão. Estava seminua, né, barriga de fora. Fiquei com dó, mas você foi tão agressiva comigo, o tempo todo, e não me mandou mensagem depois. Cara, achei você um porre. Ainda acho, às vezes!
Ela sorriu e disse que ele foi muito mala fazendo piada sobre a queda dela enquanto ela sentia dor e raiva.
Ele continuou falando:
— Você foi muito m*l-educada! Eu só te ajudei por causa da sua mãe. No dia do acidente você quase bateu em mim. Eu senti que tinha algo errado, mas achava você doidinha mesmo. Fiquei com muita raiva, mas logo passou quando começaram a falar do acidente no bar. É estranho, mas eu desejei que você tivesse me derrubado. Foi a primeira coisa em que pensei, porque aí não teria acontecido nada com você. As pessoas estavam falando que você tinha morrido. Sua mãe sumiu, não respondia ninguém. Todo mundo em casa orou para você ficar bem. Ela ficou péssima, com muito medo de te perder. Depois, quando você foi para o hospital em estado grave e ficou em coma, ela teve muito medo de você ficar com sequelas. Eu vi na sua agenda as coisas que você escreveu sobre ela e seu pai. Eu vi tudo sobre Daniel. Foi muito difícil para eu conseguir digerir tudo. Tinha muita mágoa, rancor e ressentimento lá. Eu não fazia ideia de como era forte o nosso lance, até ler seus sentimentos e pensamentos tão expostos.
Ela disse que não se lembrava de muitas coisas, de antes do acidente e de logo depois, e que tinha dúvidas sobre vários acontecimentos.
Ele continuou falando:
— Depois do acidente, quando nos vimos pela primeira vez no restaurante, eu achei que você ia ser grossa, sei lá. As pessoas estavam falando que você tinha perdido parte da memória, mas eu achei que a falta de educação seria a mesma. Quando eu te vi, o que mais chamou minha atenção de início foi sua aparência e o sorriso tímido que você deu ao me receber. Insisti pedindo comida fora de hora e achei que você ia me dar uma patada, mas não deu. Foi firme e educada, repetindo que não tinha como me servir naquela hora. Quando sua mãe falou comigo e você disse, chateada, quase chorando, que aquilo não tinha a menor graça caso eu te conhecesse, eu me senti muito m*l, um babaca. Acho que eu nem tinha noção da gravidade de tudo. Deu para ver que você não estava bem, supermagra, abatida, e minha mãe sempre falava de você em casa, que tudo tinha mudado, que sua vida talvez nunca mais fosse a mesma. A primeira vez em que conversamos de verdade em casa, eu vi outra Kaori. Você foi gentil, fez brincadeiras sobre você mesma. Fomos ao bar e eu te comprei doces, lembra?
Ela disse, chateada, que vagamente, mas que se lembrava de ter ficado chateada com ele naquele dia.
Ele respondeu:
— Eu te vi com outros olhos, sei lá. Tão frágil, aberta a me conhecer. Nem parecia a mesma. E você estava tão fácil de lidar. De certa forma, me encantei. Senti vontade de ser legal com você. Era difícil me policiar nas brincadeiras e nos comentários irônicos. Outra coisa que notei era que você se chateava muito e com facilidade. Foi estranho. Eu senti que faria qualquer coisa para ter um sorriso seu e também para não te magoar.