Maya
Acordo confusa, em um quarto desconhecido, vestida com roupas que não reconheço. Ao me levantar, percebo que não estou em casa. Vou para uma porta que deduzi ser o banheiro e depois de fazer minha higiene matinal desci as escadas e fui ao chegar na sala escuto alguns barulhos e chegando na porta da cozinha vejo o mesmo rapaz que me ajudou ontem a noite.
Como é o nome dele mesmo?"penso"ah lembrei
— Christian!— chamo e ele olha para mim e abre um lindo sorriso.
— Oi Maya, você já acordou? Dormiu bem?— ele me perguntou vindo em minha direção com um pano de prato enxugando as suas mãos.
— Sim, obrigada por ontem à noite, mais agora eu preciso ir pra casa
— Espera para tomar café, já está tudo pronto.— ele diz a andar até a mesa e mesmo eu querendo ficar sozinha
Enquanto saboreio o café ao lado de Christian, noto sua simpatia envolvente. No entanto, não consigo evitar a rápida reação de afastar esses pensamentos ao relembrar Joel, cujo comportamento inicial espelha o de Christian. Minhas lembranças ressuscitam momentos em que Joel me envolvia com gentilezas, apenas para transformar-me, mais tarde, em um mero peão em suas mãos habilidosas. Uma onda de emoções me invade, meus olhos se enchem de lágrimas, mas me seguro, decidida a não mostrar minha vulnerabilidade diante de Christian.
Enquanto tento disfarçar a turbulência emocional, sinto meu coração apertar diante do conflito interno. Christian, alheio ao vendaval de lembranças que assola minha mente, continua a compartilhar histórias e sorrisos. Neste instante, a xícara de café parece mais um refúgio temporário do que uma simples bebida quente.
As palavras de Joel ecoam em minha mente, como se tivessem vida própria, reavivando as feridas emocionais que pensei ter superado. A gentileza de Christian, que poderia ser genuína, é ofuscada pela sombra do passado.
Minhas mãos tremem sutilmente enquanto seguro a xícara, tentando não revelar a tormenta interna que se desenrola. Uma batalha entre a vontade de confiar novamente e o receio de repetir os erros do passado se desenrola silenciosamente em meu íntimo.
Respiro fundo, forçando um sorriso enquanto agradeço a Christian pela agradável companhia. Enquanto ele se despede com um gesto amigável, percebo que esta xícara de café tornou-se mais do que uma pausa para uma bebida quente; é um momento de reflexão, um confronto com meus próprios fantasmas e uma decisão sobre a confiança a ser depositada em alguém novo. Christian me ofereceu uma carona mas eu não quis, ele me entregou minhas roupas e eu voltei para casa de táxi e sozinha, e assim que chego lá vejo que meus amigos estão todos lá e assim que me verem vem correndo até mim e me abraçam.
— Maya, pelo amor de Deus, onde você estava.— Emily pergunta enquanto vejo lágrimas dos seus olhos
— Você está bem? Alguém fez alguma coisa com você?— Arthur perguntou me olhando de cima a baixo
— Meu Deus garota, nunca mais faça isso eu pensei que você tinha …..— ele para de falar, eu estava me sentindo bem com a preocupação dos meus amigos
— Me desculpa.— falo retribuindo o abraço de cada um deles
— Onde você ficou?
— Vamos subir que eu conto tudo pra vocês.— Subi para o quarto com meus amigos, a atmosfera leve de risadas e compartilhamentos preenchia o ambiente. Entre sorrisos, revelei que passei a noite na casa de Christian, um rapaz que se mostrou prestativo quando precisei. A alegria estampou o rosto dos meus amigos, expressando satisfação pela minha boa companhia.
À medida que eles se despediram e deixaram o quarto, uma sensação de solidão gradualmente tomou conta do espaço. O silêncio que se seguiu foi interrompido apenas pelo eco dos momentos compartilhados, deixando-me sozinha para refletir sobre a gratidão e o calor da amizade, contrastando com a serenidade do quarto vazio.
Os dias se desenrolam lentamente, e encontro conforto em me isolar no meu quarto. A notícia do ocorrido com Joel na escola alcançou meus pais, e eles decidiram que viriam me buscar daqui a um mês. Uma sensação de inevitabilidade se instala, e a contagem regressiva para o reencontro com minha antiga vida se torna uma sombra pairando sobre mim.
Minha rotina agora é pontuada por diálogos superficiais com os amigos, onde as palavras básicas são trocadas, mas a profundidade das conexões se perdeu. Cada interação parece exigir um esforço sobre-humano, e a alegria que antes fazia parte de minha essência parece ter se dissipado.
Ao me observar no espelho, percebo as mudanças físicas refletindo as tormentas emocionais. Cada vez mais, a imagem que me encara parece distante daquela que um dia fui. O peso emocional se traduz em um ganho de peso físico, uma metamorfose involuntária que ocorre enquanto tento processar as marcas deixadas pelos eventos passados.
A ansiedade pela iminente partida mistura-se ao autodesprezo pela minha aparente transformação física. Essa espiral emocional está me consumindo, e a contagem regressiva parece ser também uma contagem regressiva para recuperar não apenas meu lar, mas minha própria identidade perdida.
Enquanto os dias se arrastam, a solidão do quarto torna-se uma companheira constante. As paredes, que antes eram testemunhas de risos e histórias compartilhadas, agora ecoam o vazio da minha própria introspecção.
A notícia da partida iminente dos meus pais paira como uma nuvem sombria sobre mim, adicionando uma pressão adicional às já pesadas cargas emocionais. Cada momento parece um passo mais próximo do confronto inevitável com meu passado e da tentativa de reconstruir o que foi quebrado.
A comunicação com os amigos torna-se um desafio, pois as palavras se perdem em um mar de pensamentos tumultuados. O espelho do quarto reflete não apenas a mudança física, mas também a metamorfose interna que me consome.
O ciclo de autodestruição persiste enquanto luto para encontrar uma saída desse labirinto emocional. À medida que o mês se desenrola, a promessa de um reencontro com minha antiga vida se mistura com a incerteza do que realmente restou dela. O tempo, antes aliado, agora se tornou um adversário implacável, marcando o ritmo da minha jornada rumo à cura ou ao desconhecido.