Giovanna Glibert
Séculos esvaiu-se como poeira ao vento, e mesmo assim, permaneço inalterada — não por milagre ou arte, mas por maldição. Eu sou uma vampira. Uma imortal. Uma alma presa entre o tempo e a eternidade.
A minha história começa num tempo distante, quando eu ainda era humana, prestes a completar dezenove anos. Jovem, cortejada por inúmeros rapazes que ansiavam por minha mão em casamento. Mas mesmo naquela época em que os compromissos vinham cedo, recusava-me a aceitar o destino que se esperava de mim. Sentia-me jovem demais, viva demais para ser aprisionada a alianças e promessas. Os meus pais, na sua sabedoria, nunca me forçaram a um noivado. Por isso, sou eternamente grata.
Na sociedade em que fui criada, beleza era mais que um dom — era um requisito social. A "beleza ideal" era exaltada; a "beleza rara", reverenciada. E talvez eu carregasse essa última. Os meus cabelos cacheados tinham um tom rubro, herança de ninguém na minha linhagem, um traço peculiar que chamava a atenção. A minha pele, branca como o leite que não vê o sol, contrastava com olhos de um azul profundo. Alta, esguia, alvo constante de olhares e elogios que jamais desejei.
Mas deixemos as vaidades no passado..., pois o que mudou a minha existência foi a chegada de um forasteiro à cidade.
Jamie — um nome que ecoou em sussurros pelos corredores da vila. Um homem de fala mansa e olhar indecifrável. Desde o primeiro momento, soube que havia algo errado com ele. A sua presença parecia densa, como se as sombras se curvassem à sua volta. E mesmo quando me dirigia palavras insinuantes, o meu instinto gritava para eu manteria. Ah, se eu tivesse escutado.
Na noite do meu aniversário, escolhi um atalho por um beco escuro. Foi minha ruína. Um som estranho fez-me parar. Curiosa — ou tola — entrei naquele corredor lúgubre e fétido. Foi então que o vi. Jamie, agachado sobre uma mulher, o corpo dela inerte, manchado de vermelho. Quando ele se levantou, o seu rosto estava coberto de sangue. E os seus olhos... jamais esquecerei.
Aquela foi a última noite da minha vida como humana.
O veneno nas suas presas não me matou — transformou-me. Não tive escolha. Corri, desesperada, e passei dias mergulhados em dor e febre, num transe febril entre a morte e algo além. Quando despertei, a sede era insuportável. E a minha humanidade, um eco distante.
Jamie desapareceu e eu... tornei-me uma assassina. Antes de aprender a controlar a minha sede, tirei vidas. Vidas humanas. Cada uma, um peso que carrego até hoje. Mas com o tempo, aprendi. Disfarcei-me entre os homens, mantive-me oculta, silenciosa. Descobri, gradualmente, que possuía algo raro entre os meus: um dom chamado imunização. Era um escudo natural contra habilidades mentais e sensoriais de outras criaturas. Jamie possuía o dom da hipnose, mas mesmo quando humana, fui imune à sua manipulação.
Anospassaram-sem. Décadas. Séculos, e mesmo com a eternidade diante de mim, havia algo que jamais me deixava em paz: a memória dos meus pais. Gradualmente, os seus rostos foram se esvaindo da minha mente, como tinta dissolvida pela chuva. O medo de esquecê-los completamente corroía-me. Por isso, resolvi voltar. Retornar ao lugar onde tudo começou: Fargo, Dakota do Norte.
Reservei a passagem de última hora. Já estava em Boston quando arrumei as minhas poucas malas. O voo foi tranquilo, silencioso — como eu. Assim que desembarquei, recusei a ajuda do rapaz que tentou cortejar-me no aeroporto. Um único olhar fez com que recuasse, assombrado. Peguei um táxi rumo a uma pousada simples, com fachada bem cuidada.
A cidade havia mudado. Mais movimentada, mais moderna. Mas o clima, úmido e frio, permanecia igual. Sorri ao pensar que, embora o mundo seguisse, eu ainda carregava o mesmo rosto da jovem de dezenove anos. Check-in feito, fui levada ao quarto 11. O atendente, Nico, ousou insinuar-se, mas sua irmã rapidamente o afastou. Subi com as minhas malas, não desfiz nenhuma delas. Não sabia quanto tempo permaneceria.
Na manhã seguinte, corri até o cemitério — silenciosa, veloz como um sopro noturno. Levei flores. Ajoelhei-me diante das lápides dos meus pais. Memórias surgiram, frágeis e distantes. Vampiros têm memória precisa, mas as lembranças humanas... essas desvanecem com o tempo. Isso doía. Mais do que qualquer sede. Toquei a inscrição: melhores pais do mundo.
Foi quando senti. Um cheiro. Sutil, mas inconfundível: outro vampiro. Despertei todos os meus sentidos. Alerta. Em prontidão. Perguntei ao porteiro se havia outros visitantes.
Ele recusou-se a responder... até que, por segurança, usei o meu dom. Hipnotizei-o — algo que evito, mas, naquele momento, era necessário. Ninguém mais havia passado pela portaria.
Voltei para a floresta, tentava encontrar rastros. Nada. A presença esvaiu-se tão rápido quanto surgiu.
À noite, Nico veio à minha porta. “O restaurante está aberto, caso queira comer.” — Sorri com amargura. Se soubesse o categoria de “fome” que me movia…
Troquei de roupa, saí pela janela e fui até a floresta. Cacei. Matei um cervo. Alimentei-me. A água do riacho refletia o meu rosto — um rosto que não envelhecia. Ainda bem que os mitos estavam errados. Vampiros têm reflexo, sim.
Ao retornar, cruzei com um rapaz. Troquei poucas palavras. As minhas desculpas eram sempre as mesmas. “Tenho aula cedo.” Ele espantou-se. “Você parece nova demais para ser universitária.” Apenas sorri.
Na manhã seguinte, preparei-me com cuidado. Um vestido sóbrio, batom vermelho para combinar com os meus cabelos rubros. Passei pela recepção e, inevitavelmente, dei de cara com Nico. De novo. Tentei ser breve. Evitar diálogos. Garotos humanos eram... previsíveis.
Saí em busca de um carro. Encontrei uma Ferrari preta numa vitrine. Disseram ser apenas de exposição. Ignorei. Mostrei o meu cartão dourado. O vendedor nem ousou protestar.
E, finalmente, cheguei à universidade. O campus fervilhava com a presença juvenil. Os murmúrios, os olhares... tudo era barulhento para meus sentidos aguçados. Caminhei entre eles, ignorando os sussurros. Entrei na secretaria. A recepcionista tremeu. Disfarçou o medo com educação.
— Anna Glibert, aluna nova — anunciei, tirando os meus óculos.
Recebi os papéis, caminhei pelos corredores, entrei na primeira aula. Sentei ao fundo. A música nos fones ajudava-me a silenciar o ruído humano. Então... o cheiro. Novamente. O mesmo do cemitério.
Eles estavam aqui.
Outros vampiros.
E eu não fazia ideia do que queriam.
Mas uma coisa era certa: eu estava preparada para descobrir.