53. Ayla

1004 Palavras
A gente foi pro quarto com aquela calma de depois do banho, pele quente, cabelo ainda úmido, a casa inteira mais silenciosa do que o normal. Victor apagou quase todas as luzes, deixou só a claridade baixa de um abajur, como se não quisesse assustar meu descanso com brilho demais. Eu vesti uma camiseta dele de novo - já tava virando hábito, e eu fingia que não percebia isso. Ele colocou uma bermuda e ficou andando pelo quarto como se ainda tivesse um resto de energia pra gastar, arrumando coisa que nem precisava ser arrumada: puxou o lençol, ajeitou o travesseiro, fechou a cortina do jeito certo. — Você é perfeccionista. — eu falei, sentando na beira da cama e secando o cabelo com a toalha. — Eu sou prevenido. — ele corrigiu. — Se tu acorda no meio da noite e vê a cidade piscando, começa a pensar demais. Eu sorri, porque era exatamente isso que ele tava fazendo: tentando cuidar da minha cabeça sem me dizer "eu tô cuidando". Quando a gente deitou, eu me encaixei nele naturalmente, como se meu corpo tivesse encontrado um lugar que queria repetir. A mão dele veio pra minha cintura e ficou ali, firme, tranquila. — Tu tá bem agora? — perguntou baixinho, a voz quase sumindo no escuro. — Tô. — respondi. — Melhor. — Se tua cabeça começar a fazer bagunça... me acorda. — ele disse. Eu dei um riso pequeno. — Eu não vou te acordar por causa de pensamento. — Vai sim. — respondeu, e eu ouvi o sorriso na voz. — Porque eu mandei. Eu revirei os olhos, mas por dentro eu senti aquela coisa quente: alguém mandando eu pedir ajuda. A gente ficou quieto por alguns minutos. O quarto tinha o som baixo do ar condicionado e o barulhinho de cidade distante. Eu tava quase pegando no sono quando me mexi um pouco pra pegar uma posição melhor. E aí aconteceu. Eu não sei explicar como. Um segundo eu tava na cama, o outro eu tava... no ar. E depois no chão. Foi um tombo tão rápido e tão ridículo que eu nem consegui gritar. Só saiu um "ai!" abafado junto com o barulho seco do meu corpo acertando o tapete. Eu fiquei deitada ali, imóvel, com o coração disparado, tentando entender o que tinha acontecido. Do alto, a voz dele veio num pulo, desesperada: — Ayla? A cama rangeu, e no segundo seguinte Victor tava ajoelhado do meu lado, o cabelo bagunçado, os olhos arregalados como se eu tivesse levado um tiro. — c*****o! Tu tá bem? Tu bateu a cabeça? Fala comigo! Eu pisquei, ainda meio zonza, e a cena era tão absurda que uma risada começou a nascer no meio do meu peito. — Eu... — eu tentei falar, mas a risada me pegou antes. — Eu caí. — Eu tô vendo que tu caiu! — respondeu, irritado de preocupação, passando a mão pelo meu rosto, pelo meu cabelo, checando. — Onde doeu? Onde? Eu ri mais forte, porque a seriedade dele era mais engraçada ainda. — Victor... eu caí da cama. — eu falei, entre risos. — Eu não fui atropelada. — Não tem graça. — disse, mas a voz dele já tava falhando, porque ele percebeu que eu tava bem. — Tem sim. — eu rebati, rindo. — Eu sou uma adulta. Eu caí da cama. Ele me encarou como se eu tivesse ofendido a honra dele. — Minha cama é grande pra c*****o. Como é que tu consegue cair? — Eu me mexi. — eu expliquei, ainda rindo. — Acho que eu... esqueci que ela é alta. Victor passou a mão pelo rosto, soltando um suspiro exagerado, e aí finalmente deixou sair o alívio. — Tu quer me matar do coração? — reclamou. Eu estendi a mão pra ele, ainda com o sorriso. — Me ajuda a levantar, por favor. Ele segurou minha mão e me puxou com cuidado, como se eu fosse de vidro. Eu quase caí de novo porque continuei rindo, e ele segurou minha cintura na hora, firme. — Para de rir e fica parada. — mandou. — Eu tô tentando! — eu falei, limpando uma lágrima de riso no canto do olho. Victor me olhou de cima a baixo como se conferisse se eu tava inteira mesmo. — Tu tá doendo? Eu senti. Um leve impacto na lateral da coxa, nada demais. — Só meu orgulho. — respondi. Ele soltou um som entre riso e resmungo. — Orgulho eu não tenho pena, não. Isso aí tu resolve sozinha. Eu dei um tapa fraco no peito dele. — Grosso. — Eu tô é aliviado. — falou, e dessa vez a voz dele saiu mais baixa, mais real. Eu parei de rir devagar, percebendo o que tinha por trás: medo de me ver quebrada. De novo. Eu toquei o rosto dele, bem leve. — Eu tô aqui. Inteira. — falei. Victor engoliu seco e me puxou pra perto, apertando mais do que precisava. — Não faz isso comigo. — murmurou no meu cabelo. — Eu não gosto quando tu me dá susto. — Eu não fiz de propósito. — eu respondi, com um sorriso pequeno. Ele soltou um "hm" que era metade bronca, metade carinho. — Amanhã eu boto grade nessa cama. Eu ri de novo. — Você vai me prender? — Vou te proteger de você mesma. — ele respondeu, com dignidade. Ele me levou de volta pra cama como se eu fosse uma criança, ajeitou o travesseiro, puxou o lençol e, antes de deitar, apontou o dedo pra mim. — Agora tu fica do meu lado. Encostada. — Tá bom, chefe. — Pra você não é chefe. — Tá bom, dono do morro. Ele deitou e me puxou pra ele, a mão firme na minha cintura, como se fosse impedir o chão de me roubar de novo. — Dorme, Loirinha. — murmurou, beijando minha testa. — E para de tentar voar. Eu fechei os olhos, sorrindo contra o peito dele.
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