A gente foi pro quarto com aquela calma de depois do banho, pele quente, cabelo ainda úmido, a casa inteira mais silenciosa do que o normal. Victor apagou quase todas as luzes, deixou só a claridade baixa de um abajur, como se não quisesse assustar meu descanso com brilho demais.
Eu vesti uma camiseta dele de novo - já tava virando hábito, e eu fingia que não percebia isso. Ele colocou uma bermuda e ficou andando pelo quarto como se ainda tivesse um resto de energia pra gastar, arrumando coisa que nem precisava ser arrumada: puxou o lençol, ajeitou o travesseiro, fechou a cortina do jeito certo.
— Você é perfeccionista. — eu falei, sentando na beira da cama e secando o cabelo com a toalha.
— Eu sou prevenido. — ele corrigiu. — Se tu acorda no meio da noite e vê a cidade piscando, começa a pensar demais.
Eu sorri, porque era exatamente isso que ele tava fazendo: tentando cuidar da minha cabeça sem me dizer "eu tô cuidando".
Quando a gente deitou, eu me encaixei nele naturalmente, como se meu corpo tivesse encontrado um lugar que queria repetir. A mão dele veio pra minha cintura e ficou ali, firme, tranquila.
— Tu tá bem agora? — perguntou baixinho, a voz quase sumindo no escuro.
— Tô. — respondi. — Melhor.
— Se tua cabeça começar a fazer bagunça... me acorda. — ele disse.
Eu dei um riso pequeno.
— Eu não vou te acordar por causa de pensamento.
— Vai sim. — respondeu, e eu ouvi o sorriso na voz. — Porque eu mandei.
Eu revirei os olhos, mas por dentro eu senti aquela coisa quente: alguém mandando eu pedir ajuda.
A gente ficou quieto por alguns minutos. O quarto tinha o som baixo do ar condicionado e o barulhinho de cidade distante. Eu tava quase pegando no sono quando me mexi um pouco pra pegar uma posição melhor.
E aí aconteceu.
Eu não sei explicar como. Um segundo eu tava na cama, o outro eu tava... no ar. E depois no chão.
Foi um tombo tão rápido e tão ridículo que eu nem consegui gritar. Só saiu um "ai!" abafado junto com o barulho seco do meu corpo acertando o tapete.
Eu fiquei deitada ali, imóvel, com o coração disparado, tentando entender o que tinha acontecido.
Do alto, a voz dele veio num pulo, desesperada:
— Ayla?
A cama rangeu, e no segundo seguinte Victor tava ajoelhado do meu lado, o cabelo bagunçado, os olhos arregalados como se eu tivesse levado um tiro.
— c*****o! Tu tá bem? Tu bateu a cabeça? Fala comigo!
Eu pisquei, ainda meio zonza, e a cena era tão absurda que uma risada começou a nascer no meio do meu peito.
— Eu... — eu tentei falar, mas a risada me pegou antes. — Eu caí.
— Eu tô vendo que tu caiu! — respondeu, irritado de preocupação, passando a mão pelo meu rosto, pelo meu cabelo, checando. — Onde doeu? Onde?
Eu ri mais forte, porque a seriedade dele era mais engraçada ainda.
— Victor... eu caí da cama. — eu falei, entre risos. — Eu não fui atropelada.
— Não tem graça. — disse, mas a voz dele já tava falhando, porque ele percebeu que eu tava bem.
— Tem sim. — eu rebati, rindo. — Eu sou uma adulta. Eu caí da cama.
Ele me encarou como se eu tivesse ofendido a honra dele.
— Minha cama é grande pra c*****o. Como é que tu consegue cair?
— Eu me mexi. — eu expliquei, ainda rindo. — Acho que eu... esqueci que ela é alta.
Victor passou a mão pelo rosto, soltando um suspiro exagerado, e aí finalmente deixou sair o alívio.
— Tu quer me matar do coração? — reclamou.
Eu estendi a mão pra ele, ainda com o sorriso.
— Me ajuda a levantar, por favor.
Ele segurou minha mão e me puxou com cuidado, como se eu fosse de vidro. Eu quase caí de novo porque continuei rindo, e ele segurou minha cintura na hora, firme.
— Para de rir e fica parada. — mandou.
— Eu tô tentando! — eu falei, limpando uma lágrima de riso no canto do olho.
Victor me olhou de cima a baixo como se conferisse se eu tava inteira mesmo.
— Tu tá doendo?
Eu senti. Um leve impacto na lateral da coxa, nada demais.
— Só meu orgulho. — respondi.
Ele soltou um som entre riso e resmungo.
— Orgulho eu não tenho pena, não. Isso aí tu resolve sozinha.
Eu dei um tapa fraco no peito dele.
— Grosso.
— Eu tô é aliviado. — falou, e dessa vez a voz dele saiu mais baixa, mais real. Eu parei de rir devagar, percebendo o que tinha por trás: medo de me ver quebrada. De novo.
Eu toquei o rosto dele, bem leve.
— Eu tô aqui. Inteira. — falei.
Victor engoliu seco e me puxou pra perto, apertando mais do que precisava.
— Não faz isso comigo. — murmurou no meu cabelo. — Eu não gosto quando tu me dá susto.
— Eu não fiz de propósito. — eu respondi, com um sorriso pequeno.
Ele soltou um "hm" que era metade bronca, metade carinho.
— Amanhã eu boto grade nessa cama.
Eu ri de novo.
— Você vai me prender?
— Vou te proteger de você mesma. — ele respondeu, com dignidade.
Ele me levou de volta pra cama como se eu fosse uma criança, ajeitou o travesseiro, puxou o lençol e, antes de deitar, apontou o dedo pra mim.
— Agora tu fica do meu lado. Encostada.
— Tá bom, chefe.
— Pra você não é chefe.
— Tá bom, dono do morro.
Ele deitou e me puxou pra ele, a mão firme na minha cintura, como se fosse impedir o chão de me roubar de novo.
— Dorme, Loirinha. — murmurou, beijando minha testa. — E para de tentar voar.
Eu fechei os olhos, sorrindo contra o peito dele.