52. Ayla

1404 Palavras
A sensação foi absurda, arrepiante, engraçada e excitante ao mesmo tempo. Eu me enrolei toda, soluçando de riso. — Victor! — Tá vendo? — disse, triunfante, erguendo a cabeça. — Reflexo positivo. Muito sensível. Ótimo sinal. Eu estava ofegante de tanto rir, meu corpo completamente relaxado e, paradoxalmente, vibrante de desejo. Era um desejo diferente. Alegre. Lúdico. Ele subiu então, sobre mim, ainda rindo. Sua calça também havia sumido em algum momento. Ele se posicionou, a ponta dele pressionando minha entrada, que já estava úmida e pronta, não de uma tensão ardente, mas de uma expectativa feliz. Ele me beijou novamente, um beijo molhado e sorridente. — Pronta pra parte prática da pesquisa, doutora? — ele sussurrou contra meus lábios. — Só se o sujeito de teste se comportar — retruquei, envolvendo minhas pernas em sua cintura. Ele entrou. Devagar, suavemente, preenchendo-me com uma familiaridade que era ao mesmo tempo nova e antiga. Não havia pressa. Nós nos movíamos em um ritmo preguiçoso, quase desengonçado, nossos corpos se encontrando e se separando entre suspiros e risadas abafadas. As vezes a gente errava o ritmo, e explodia em gargalhadas. — Tu tá rindo do meu desempenho? — perguntou, fingindo indignação, enquanto deslizava dentro de mim em um movimento longo e delicioso. — Tô rindo da sua cara de concentração — eu disse, puxando para um beijo molhado. — Parece que tá resolvendo conta de matemática. Ele riu, o corpo dele tremendo contra o meu, e então intensificou o movimento, apenas um pouco. O suficiente para arrancar um gemido de mim, que se misturou a um riso. Era uma dança. Uma brincadeira íntima. Seus dedos se entrelaçaram com os meus, pressionando contra o sofá. Ele sussurrava coisas absurdas e safadas no meu ouvido, mas com um tom de voz tão carinhoso que transformava tudo em carícia. O orgasmo veio não como um tremor sísmico, mas como uma onda suave e expansiva de calor. Foi construído pelo riso, pela i********e, pela confiança. Eu me contraí em volta dele com um suspiro longo e feliz, meu corpo arqueando sem dramaticidade, apenas entregando ao prazer simples e compartilhado. Ele me seguiu momentos depois, seu próprio clímax vindo com um gemido rouco que terminou em um suspiro de riso abafado. Ele desabou ao meu lado, não em cima de mim, me puxando para um abraço suado e ofegante. Nós ficamos deitados no sofá, enrolados um no outro, rindo sem fôlego, como duas crianças que fizeram uma travessura. — Acho... acho que a pesquisa foi um sucesso — ele disse, entre um suspiro e outro. — Aprovada com louvor — concordei, enterrando o rosto no pescoço dele, ainda tremendo levemente de riso e prazer. E ali, na sala iluminada pelo dia, nus, suados e rindo como idiotas, eu soube que tinha encontrado algo raro. Algo que não era só paixão, ou fogo, ou até mesmo amor no sentido grandioso. Era amizade com benefícios. Era safadeza com carinho. Era poder rir do próprio prazer, e compartilhá-lo com alguém que não tinha medo de parecer bobo contigo. Victor passou a mão pelo meu cabelo, agora todo despenteado. — Tá vendo? — sussurrou, seu sorriso sentido na minha pele. — Nem sempre precisa ser um drama. Era verdade. Às vezes, podia ser apenas isso, riso, carícia e uma pitada de safadeza no ouvido. Ele ficou um tempo em silêncio, só fazendo aquele carinho distraído no meu cabelo, como se estivesse organizando meu mundo com a ponta dos dedos. Eu já tava mais leve, mais presente, mas o corpo ainda tinha aquela sensação de "depois" a pele sensível, o cansaço bom, e um tipo de vulnerabilidade que não era fraqueza... era a******a. Victor olhou pro pacote de chocolate na mesa, pro meu rosto ainda meio amassado de choro e riso, e tomou uma decisão sem alarde. — Vem cá. — falou, baixo. — Pra onde? — perguntei, sem sair do lugar. — Banho. — respondeu, como se fosse óbvio. — Tu vai ficar aí com essa cara de "fui atropelada por sentimento" não. Eu soltei um riso pequeno, mas não me mexi. Porque, quando a gente tá frágil, até levantar parece esforço demais. Ele percebeu. Victor se inclinou, colocou uma mão na minha nuca e outra na minha cintura e me puxou de leve, sem pressa, como quem não tá com pressa de me consertar, só de me cuidar. — Eu consigo andar, tá? — reclamei por princípio. — Eu sei. — respondeu. — Mas deixa. Eu levantei com ele, e o jeito como ele me conduziu até o corredor foi quase silencioso. Não parecia ordem, parecia "tô aqui". No caminho até o banheiro, ele foi falando bobagem, de propósito, pra manter o clima leve. — Se tu escorregar, eu não vou rir. — disse. — Mentira. — eu retruquei. — Tá... eu vou rir um pouquinho. — admitiu. — Mas depois eu ajudo. Eu revirei os olhos, mas um sorriso insistiu em aparecer. Ele acendeu só metade da iluminação, deixando o espaço mais íntimo, menos "hotel". — Senta. — mandou, apontando pra tampa do vaso. — Victor… — Senta, Ayla. — a voz veio firme, mas macia. — É só um minuto. Eu sentei. Ele abriu a torneira da pia, molhou a mão e veio até mim com uma toalhinha, como se já soubesse o que fazer. Não perguntou. Não justificou. Só começou a limpar meu rosto com cuidado, tirando a marca do choro que eu nem tinha percebido direito, como se aquilo fosse tão normal quanto ajeitar uma gola. — Você faz isso como se tivesse prática. Ele levantou o olhar. — Tenho prática em cuidar. — disse. — Só não costumam me deixar. A frase era simples, mas tinha um peso escondido que eu senti na pele. Ele terminou, passou a toalha de leve no meu queixo e depois encostou a testa na minha. — Melhor? — Melhor. — respondi, quase num sussurro. Ele beijou minha testa. Um beijo rápido, sem espetáculo. — Então vem pro banho. Victor ligou o chuveiro, ajustou a temperatura sem nem olhar, como quem conhece o próprio mundo. O som da água enchendo o boxe trouxe uma calma instantânea, como se o barulho lavasse não só o corpo, mas a cabeça. Ele estendeu a mão pra mim de novo. — Vem. Eu levantei e fui, deixando ele me guiar. Não porque eu não sabia fazer sozinha, mas porque, naquele momento, eu queria experimentar essa coisa rara: ser amparada sem ser dominada. Dentro do boxe, a água caiu morna, perfeita. Eu fechei os olhos no primeiro toque, sentindo os ombros relaxarem. Victor ficou atrás de mim, não invadindo, só presente, como se estivesse guardando o espaço ao redor. Ele passou as mãos pelos meus braços devagar, tirando o resto da tensão, e eu senti algo dentro de mim ceder, aquela defesa antiga que fica sempre armada. — Respira. — ele murmurou perto do meu ouvido. Eu respirei. E, por alguns segundos, a única coisa que existiu foi água, calor e o som da cidade lá fora sendo deixada do lado de fora. Victor pegou o sabonete e começou a ensaboar minhas costas com calma, como se cada gesto dissesse "tu não precisa correr". A mão dele era firme, mas cuidadosa, e eu me peguei quase derretendo. — Tu tá quieta. — comentou. — Tô descansando. — respondi, sincera. — Descansa aqui. — ele disse. Eu virei um pouco o rosto e olhei pra ele por cima do ombro. O olhar dele não tinha pressa. Não tinha cobrança. Tinha atenção. E isso me dava um tipo de paz que eu não sabia explicar. — Obrigada. — eu falei, baixinho. Ele franziu a testa como se eu tivesse agradecido algo óbvio demais. — Para com isso. — ele respondeu. — Eu não tô fazendo favor. — Eu sei. — murmurei. — É por isso que eu tô agradecendo. Victor ficou quieto por um segundo, como se aquela resposta tivesse acertado nele. A mão dele parou na minha cintura e me puxou devagar, só pra me encostar nele. — Tu tá segura aqui. — disse, e a frase não era promessa de filme. Era compromisso do jeito dele. Eu encostei a testa no peito dele, deixando a água correr pelo meu cabelo, pelo meu rosto, levando embora o resto da ansiedade. — Eu sei. — eu respondi. E foi a primeira vez em muito tempo que eu disse isso sem duvidar.
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