26. Ayla

1251 Palavras
Eu finalmente olhei pra ele, só um pouco. Ele tava me olhando sério, sem zoeira. E isso era mais perigoso do que qualquer provocação. — Por que você tá aqui? — eu perguntei, tentando manter a voz firme. Ele inclinou a cabeça. — Porque eu queria ver se tu tava bem. — falou simples, sem drama. — E porque eu tava com saudade de te irritar. Eu revirei os olhos. — Você não tem vergonha. — Vergonha eu tenho é de ficar longe. — ele respondeu, e sorriu de leve, como se a frase fosse brincadeira, mas os olhos não eram. Meu coração apertou num lugar que eu não queria acessar. — Victor... — eu comecei, mas não tinha final pra aquela frase. Ele deu um passo mais perto. A cozinha parecia menor. — Relaxa, Loirinha. — disse, olhando minhas mãos. — Tu tá cortando cebola com muita raiva. — Eu não tô com raiva. — Tá sim. — falou, e o dedo dele tocou meu pulso de leve, bem rápido, como se ele só quisesse sentir se eu ia recuar. Eu congelei. Meu corpo lembrou coisas. Minha mente tentou gritar "não". Mas não era o toque que eu conhecia. Era um toque sem invasão. Um toque que perguntava e não tomava. Eu respirei. — Eu tô bem. — eu disse, mais pra mim do que pra ele. — Eu sei. — ele respondeu. — Eu só gosto de ouvir da tua boca. A frase me atravessou. Eu larguei a faca no balcão, devagar. Virei de frente pra ele, tentando manter aquela distância mental que eu tinha construído com tanto esforço. — Você não pode... — eu comecei, mas ele já tava me olhando daquele jeito que desmonta. — Eu não posso o quê? — ele perguntou, baixo. Eu não tinha resposta. Porque a verdade era outra: eu podia. Eu queria. E isso me assustava. Victor levantou a mão devagar, como se desse tempo pro meu corpo decidir. Tocou meu cabelo molhado perto do pescoço e puxou de leve uma mecha, só pra sentir a água escorrendo. — Tu tá bonita assim... sem nada. — ele falou, e a voz dele saiu rouca. — Eu tô... normal. — Normal é o que mais me pega. Senti meu estômago virar, e não era ansiedade. Encarei os olhos dele. Aquele homem tinha poder no morro inteiro e tava ali, me dando escolha. Meu corpo tremia, e eu odiei que isso me emocionou. Eu não mandei parar. Então ele se aproximou e me beijou. Não foi bruto. Não foi aquele beijo de filme que toma tudo. Foi um beijo que começou devagar e ficou profundo como se ele tivesse guardado vontade a noite inteira. A mão dele foi pra minha cintura, firme, mas cuidadosa. Eu senti o gosto dele, senti a respiração dele, senti meu corpo respondendo antes da minha cabeça. Eu segurei a camisa dele com força. Como se eu precisasse de âncora. Ele se afastou um milímetro, encostando a testa na minha. — Tá tudo bem? — perguntou. Eu assenti, sem conseguir falar. E ele beijou de novo, agora mais quente, mais urgente, e eu senti meu corpo derreter num tipo de desejo que eu quase tinha esquecido que existia fora de performance. Minha perna encostou no balcão sem querer, e Victor riu baixo no meio do beijo. — Vem cá. — ele murmurou, e antes que eu pensasse, ele me pegou pela cintura e me colocou sentada no balcão. Eu soltei um som curto, surpresa, e minha pele arrepiou inteira. — Victor! — eu falei, mas minha voz saiu mais fraca do que eu queria. — Shh... — ele encostou a boca no meu maxilar, beijando de leve, e eu senti o mundo ficar pequeno, reduzido à cozinha, ao cheiro de comida e ao corpo dele perto do meu. A mão dele segurou meu rosto e ele me beijou de novo, com aquela mistura perigosa de malícia e cuidado. Eu senti o calor subir, senti meu coração batendo rápido, senti o medo tentando entrar pela fresta e, ainda assim, eu fiquei. E aí, como se o universo decidisse que eu não podia ter nada perfeito sem pagar com vergonha: — Victor! A voz de Dona Tereza explodiu na cozinha. Eu abri os olhos na hora, assustada, e vi ela parada na porta, com o pano de prato na mão, o olhar de quem já viu tudo e tá ofendida por princípio. — Tu é um safado mesmo! — ela veio pra cima como um furacão. Victor tentou se virar rindo, ainda com a mão na minha cintura. — Tia, calma- Não deu tempo. Ela deu uma pancada nele com o pano de prato, não forte o bastante pra doer, mas forte o bastante pra humilhar. — Larga de ser safado na minha cozinha! — ela gritou. — Vai beijar menina na laje, no teu barraco. Aqui não! Victor levantou as mãos, rindo, tentando se defender do pano como se fosse chicote. — Tia, foi só um beijo! — Só um beijo é o c*****o! — ela respondeu, e eu perdi a compostura. Eu comecei a rir. Rir de verdade. Alto. Com a mão na boca. Victor olhou pra mim, ainda rindo, e apontou com o queixo. — Tá vendo? Ela que começou, tia. Eu parei de rir na hora. — Eu não comecei nada! — Começou sim. — ele falou, com uma cara de inocente completamente mentirosa. — Ela me olhou com cara de "me beija ou eu te jogo essa cebola". — Mentira! — eu protestei, mas eu tava rindo de novo. Dona Tereza apontou o pano de prato pros dois como se fosse vara de professora. — Os dois, quietos. — ela decretou. — Ayla, desce desse balcão antes que eu te boto pra lavar panela. Victor, senta ali e para de graça. E se tu quiser ficar aqui, vai cortar alho. Victor respirou fundo, teatral. — Essa casa é uma ditadura. — E tu ama. — Dona Tereza respondeu, virando as costas. Eu desci do balcão ainda com o rosto quente, tentando recuperar algum tipo de dignidade. Meu cabelo pingava no pescoço e eu senti a marca do beijo dele na minha boca como se fosse uma coisa física. Victor sentou na cadeira, pegou o alho e começou a cortar, olhando pra mim com aquele sorriso de quem sabe exatamente o que fez. — Tá rindo de quê? — eu perguntei, tentando ficar séria. Ele levantou a mão, como se jurasse. — Tô feliz. Eu senti meu peito apertar. — Não faz isso. — eu falei baixo. Ele parou de cortar e me olhou, sério de novo. — Loirinha... eu não sei fingir que não sinto. — ele falou, simples. — Mas eu sei respeitar quando tu não dá. Eu respirei fundo, tentando não deixar a emoção me trair. — Eu não tô dando. — eu falei, mais dura do que eu queria. Ele assentiu, aceitando o golpe sem brigar. — Eu sei. — e aí ele sorriu de canto, pra aliviar. — Mas tu também não tá tirando. Eu não respondi. Porque, no fundo, ele tinha razão. Dona Tereza voltou pro fogão, mexendo a panela com força, como se cozinhar fosse também uma forma de controlar o mundo. — E vocês dois, ó... — ela falou sem olhar. — Se forem inventar de se apaixonar, faz isso direito. Sem drama. Porque drama aqui já tem demais. Victor riu baixinho e voltou pro alho. Eu voltei pra cebola.
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