25. Ayla

1399 Palavras
Depois do café, eu fui pra sala. A casa tinha aquele cheiro de coisa vivida: comida, sabão, gente. Eu me joguei no sofá como se ele fosse um lugar proibido, uma coisa que eu não merecia. A almofada afundou. O pano era áspero, gasto em alguns pontos. E, mesmo assim, era confortável de um jeito que hotel nenhum era. Eu peguei um livro na estante que ficava encostada num canto. Qualquer coisa pra ocupar a cabeça sem virar monitoramento do meu próprio corpo. Abri na primeira página e fiquei alguns segundos só olhando as letras, tentando lembrar como era ler sem obrigação. Sem ser roteiro, sem ser contrato, sem ser legenda de post. No começo, foi difícil. Minha mente queria ir pro Victor. Pro jeito que ele ficou perto sem invadir. Pro beijo. Pro fato de eu ter gostado. Eu detesto gostar de coisas que eu não controlo. Forcei os olhos a seguir a linha, uma palavra de cada vez. Aos poucos, algo dentro de mim desacelerou. Eu senti o corpo ficar pesado no sofá, como se finalmente eu tivesse permissão pra largar o peso que eu carrego nos ombros há anos. E, sem aviso, eu senti vontade de chorar. Não era tristeza. Era estranhamento. Era como se meu corpo dissesse: é isso? Então é assim que as pessoas vivem? Eu fechei o livro por um instante, respirei fundo, e engoli o nó na garganta. Não precisa decidir nada hoje, eu falei pra mim mesma. Nem sobre ele. Nem sobre você. Só... fica. Foi nessa hora que Dona Tereza apareceu na sala, secando as mãos no pano de prato, como quem tem radar de pensamento. — Tá com cara de quem tá emocionada com livro de romance. — ela disse, com um riso na voz. Eu virei o rosto rápido, fingindo que tava tudo ótimo. — Não tô. — Tá sim. — ela veio e deu um tapinha de leve na minha cabeça, como se eu fosse uma criança grande. — Ó... preciso ir no mercadinho depois do almoço. Mas tô cheia de coisa pra fazer. Tu se sente bem pra ir comprar umas coisinhas pra mim? Eu olhei pra ela. — Eu posso. — Pode mesmo? — ela arqueou a sobrancelha. Eu senti um orgulho pequeno e b***a crescer no peito. — Eu posso, Tereza. Eu quero. Ela assentiu, satisfeita. — Então pega aí a lista. E leva o dinheiro. E pelo amor de Deus, não me volta com coisa "zero açúcar" porque aqui ninguém morre por causa de açúcar, morre é de tristeza. Eu ri de novo, e peguei o papel. A lista era simples. Algumas verduras, temperos, pó de café, manteiga, fermento… e um pudim. Eu me troquei no quarto, botei uma roupa básica, prendi o cabelo de um jeito sem esforço e, antes de sair, me olhei no espelho. Não tinha stylist, não tinha produção, não tinha ninguém me avaliando. Eu tava... eu. E isso dava um medo quieto. Na rua, o morro era barulho, cor e vida. Criança correndo, gente falando alto, vizinho discutindo com vizinho e depois rindo. O sol batia forte, e eu tive que apertar os olhos. Eu fui até o mercadinho com o coração um pouco acelerado, não por perigo real, mas por costume. Meu corpo ainda não acreditava que eu podia andar sem ser olhada como vitrine. No caminho, duas meninas passaram por mim e eu ouvi uma delas dizer: — Bom dia, moça. Eu quase olhei pra trás pra ver se era com outra pessoa. — Bom dia. — eu respondi, e a palavra saiu estranha, como roupa nova. No mercadinho, o dono me reconheceu do "convivência", não de fama. — Ó, loira da Tereza! — ele falou alto, sorrindo. — Tá sumida! Eu sorri, sem saber muito como agir com familiaridade. — Vim comprar as coisas. — Então compra direito, porque a Tereza é braba. — riu, e foi separando as coisas. Enquanto ele passava no caixa, uma senhora atrás de mim comentou: — Essa Tereza é uma mãe pra todo mundo mesmo, né? Eu assenti. — Ela é. E aí veio a sensação mais absurda: eu tava participando de conversa de fila. Conversa comum. Coisa de vida real. E eu não tava performando nada. Eu voltei carregando sacola, com o braço doendo um pouco e uma sensação de vitória ridícula no peito, como se eu tivesse desfilado e ganhado aplauso. Só que ninguém aplaudiu. E, talvez, isso fosse o melhor. Quando eu entrei na pensão, Dona Tereza tava na cozinha, mexendo uma panela grande. O cheiro de alho e cebola fritando me abraçou. — E aí? — ela gritou, sem olhar. — Comprei tudo. — eu disse, levantando as sacolas. Ela virou e abriu um sorriso. — Tá vendo? Dá conta. — pegou o pudim, ergueu como troféu. — Isso aqui é o que importa. Eu ri e fui guardando as coisas. Minha mão ainda tremia um pouco, de leve, mas eu não tava em pânico. Eu tava... viva. — Vai tomar banho. — ela disse, como se lesse meu cansaço. — Depois vem me ajudar, que hoje eu vou fazer comida de verdade. E não vem com frescura de "porção". Aqui é prato cheio. No banheiro eu tirei a roupa com calma. Entrei no banho e deixei a água cair no meu corpo como se fosse uma limpeza além da pele. Eu fechei os olhos e, por alguns minutos, eu não fui lembrança de set, nem contrato, nem grito engolido. Eu fui só uma mulher debaixo de água quente. Quando eu saí, enrolei a toalha no corpo, coloquei uma roupa leve e voltei pra cozinha com o cabelo úmido pingando. Dona Tereza me olhou de cima a baixo. — Agora sim. Tá com cara de gente. — Obrigada, eu acho. — eu respondi, pegando uma faca. — Corta essa cebola aí. E cuidado pra não cortar dedo, porque eu não tenho paciência pra sangue no meu piso. Eu comecei a cortar cebola e o choro veio: o choro normal, de cebola e eu quase achei engraçado pensar que eu tava chorando por uma coisa tão simples. Meu corpo devia estar confuso. Foi nesse momento que eu ouvi a voz dele antes de ver. — Ô, tia! Cheiro bom, hein. — Victor entrou como se a casa fosse dele, com a confiança de quem cresceu ali e a cara de quem sabe que vai apanhar e vem mesmo assim. Eu endureci um pouco sem querer. Não de medo dele. De... alerta. Eu continuei cortando cebola como se nada tivesse acontecido. — Victor! — Dona Tereza virou na hora, já armada com o pano de prato na mão. — Tu não tem casa, não? — Tenho, mas lá não tem sua comida. — ele respondeu, dando um sorriso que fazia o ambiente ficar quente. Eu senti a presença dele perto. Ele parou do meu lado, olhou a cebola, olhou minha mão, e falou baixo: — Tá chorando, Loirinha? Eu não olhei pra ele. — É cebola. — Sei... — ele riu, e eu senti a risada vibrar perto demais. — Cebola e saudade. Eu respirei fundo, tentando não sorrir. — Para, Victor. Ele encostou no balcão do outro lado, como se tivesse todo o tempo do mundo. — Eu pareço homem que para? — ele perguntou, com aquela malandragem que era metade brincadeira, metade verdade. Dona Tereza interrompeu, como sempre. — Victor, pega esse saco de arroz e guarda. Se tu quer ficar aqui, trabalha. — Trabalhar eu trabalho. — ele respondeu, pegando o saco com facilidade. — Só não prometo ser comportado. — Nem precisa, porque eu também não prometo. — ela rebateu, e eu ouvi o pano de prato estalar no ar, só pra avisar. Eu tentei focar na cebola, mas meu corpo sabia que ele tava ali. Sabia do jeito que ele olhava. Sabia que ele tava esperando alguma reação minha. Victor guardou o arroz, pegou o feijão, guardou também. Depois voltou pro meu lado, e ficou perto demais de novo. — E aí, como foi teu dia? — ele perguntou, agora num tom mais normal, menos provocação. Eu continuei cortando. — Foi... tranquilo. — Tranquilo é bom. — ele falou, e eu senti a voz dele ficar mais baixa. — Dormiu bem? Minha mão hesitou por meio segundo. — Dormi. — disse e ouvi dona Tereza resmungando alguma coisa e saindo da cozinha.
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