No quarto, fechei a porta e encostei a testa na madeira por alguns segundos. Respirei fundo. Minha imagem no espelho ainda carregava o rastro da noite. O brilho no olhar, o rubor leve na pele. Eu não parecia cansada. Parecia inflamada.
Troquei de roupa sem pensar demais, lavei o rosto, prendi o cabelo em um coque frouxo e deitei na cama. Fiquei olhando pro teto com o ventilador fazendo aquele som de hélice torta.
Peguei o celular.
Nenhuma nova mensagem. Nenhum e-mail urgente. Nenhuma ligação perdida de assessor, agente, marca, ninguém.
Pela primeira vez em muitos anos, não tinha ninguém esperando nada de mim no outro lado da tela.
Sentia o peso da noite nos lugares certos. A calça marcando o quadril, a pele ainda quente, a garganta seca, mas o peito num estado estranho de expansão. Como se eu tivesse ocupado um espaço novo dentro de mim mesma.
Nunca tinha ido a um bar só pra ser Ayla. Nunca tinha tido amigas para arrumar roupa com antecedência. Nunca tinha sentido que podia rir alto sem alguém analisar meu riso.
Hoje eu tive tudo isso.
E ainda por cima, ele estava lá. Não como dono. Não como ameaça. Só como parte de um cenário que, de repente, começou a parecer mais meu do que qualquer passarela.
Fechei os olhos, tentando não imaginar o rosto dele na porta do bar. Ou o jeito que me observou dançando com as meninas. Ou o modo como falou que queria ser parte, não perigo.
Não adiantou.
Ele veio mesmo assim. No pensamento. Na lembrança do toque. Na memória do olhar.
Coloquei a mão no peito, sentindo o coração bater firme.
Eu não estava pronta para entregar nada para ninguém. Ainda tinha muita coisa quebrada aqui dentro. Mas pela primeira vez, percebi que talvez eu estivesse pronta para pelo menos cuidar do que começava a nascer.
Não era amor ainda. Seria covardia chamar assim. Era outra coisa. Curiosidade. Desejo. Alívio. Medo dividido. Um começo.
Talvez eu ainda caísse. Talvez me machucasse. Talvez errasse tudo de novo.
Mas ao contrário do que acontecia no mundo de onde vim, aqui eu sentia que, se caísse, teria chão. Gente. Casa.
Adormeci com essa ideia dentro de mim. Não como promessa. Não como certeza.
Só como possibilidade. E isso, depois de tudo que vivi, já era enorme.
Acordei no meio da madrugada com o corpo pesado e a cabeça estranhamente calma. Não era aquele susto que vinha dos sonhos ruins. Era só o silêncio mesmo, espesso, ocupando o quarto. O ventilador girava lento, empurrando um ar morno que não refrescava, mas embalava.
Fiquei deitada, olhando o contorno escuro do teto.
Pela primeira vez em muito tempo, eu não estava repassando cenas de passarela, ordens atravessadas, vozes dizendo como eu devia existir. O que vinha eram imagens simples: a mesa bamba do bar, o riso alto da Rita, a batata frita dividida no meio, o jeito cuidadoso do Victor ficando à margem sem invadir.
Coisas pequenas. Coisas normais.
Virei de lado e encostei o rosto no travesseiro. O cheiro de sabão ainda estava ali, misturado com o leve perfume que eu tinha passado antes de sair. Pensei no quanto aquilo tudo era novo pra mim. Não o bar, nem a música, nem as pessoas. O novo era não estar em alerta o tempo inteiro.
Meu corpo não estava esperando o próximo comando. Minha cabeça não estava calculando risco.
Eu só... estava.
Sentei na cama devagar e fui até a janela. Abri um pouco, deixando entrar o barulho distante do morro que nunca dorme de verdade. Um rádio ligado em alguma casa, passos apressados, um carro passando lá embaixo. Vida acontecendo sem me pedir licença.
Encostei a testa no vidro.
Talvez eu não ficasse aqui pra sempre. Eu sabia disso. O mundo que eu tinha deixado não some assim, do nada. Mas, pela primeira vez, a ideia de ir embora não vinha com urgência. Não era fuga. Era só uma possibilidade distante.
Voltei pra cama e puxei o lençol até o peito.
Pensei no Victor de novo, inevitável. Não com ansiedade, nem com expectativa. Pensei nele como se pensa em algo que ainda não se decidiu tocar. Algo que existe, que chama, mas que pode esperar.
Eu não precisava resolver nada naquela madrugada.
Não precisava escolher caminho, nem nomear sentimento. Não precisava prometer nada a ninguém.
Fechei os olhos com essa certeza simples.
O sono voltou devagar, gentil.
Acordei com o cheiro de café subindo pela casa e com um som de panela batendo na pia. A manhã já estava clara, atravessando a cortina fina do meu quarto e marcando faixas de luz no chão. O ventilador tinha parado durante a noite e eu estava com o cabelo grudado na nuca, mas, ainda assim, meu corpo parecia mais leve do que nos últimos meses.
Sentei na cama devagar. Alonguei os braços, senti os músculos reclamarem da noite anterior, mas era aquela dor boa de ter dançado, de ter vivido. Peguei o celular. Nada. Nenhuma mensagem, nenhum alarme de agenda, nenhum compromisso forçado. Só o horário e algumas notificações perdidas que eu nem quis abrir.
Vesti um short simples e uma camiseta larga e desci.
Na cozinha, Dona Tereza já estava no modo "dona da casa". Café coado, pão na chapa, manteiga derretendo, um prato com fatias de mamão e um potinho com açúcar. Ela nem levantou a cabeça quando me viu.
— Dormiu?
— Dormi.
Ela assentiu como se fosse uma vitória dela também.
— Então senta e come. Hoje tu tá com cara de quem vai aguentar o mundo.
Sentei à mesa e peguei o pão. O primeiro gole de café foi forte e quente, quase queimou a língua, e me fez sorrir. Dona Tereza me observava por cima da xícara, como se estivesse analisando minhas microexpressões.
Mastiguei devagar, sem pressa de responder, porque a verdade era grande demais pra caber numa frase.
Dona Tereza começou a mexer em umas coisas na bancada, como se não quisesse me olhar enquanto eu ficava sensível.
— Ah, e outra coisa. O Victor passou aqui cedo.
Minha mão congelou com o pão a meio caminho da boca.
— Passou?
— Passou. Perguntou se tu tava bem. Eu disse que tu tava dormindo. Ele fez uma cara de quem queria ficar e outra de quem sabia que não devia. Aí foi embora.
Eu engoli em seco, tentando agir normal.
— Ele não precisava...
— Menina, para. — Dona Tereza me cortou, sem agressividade. — Homem quando gosta, ele aparece. Nem sempre é pra te cobrar. Às vezes é só pra ter certeza que tu existe ali, inteira.
Fiquei quieta, encarando o café.
Eu pensei no bar. No jeito dele ficar na dele. No cuidado de não invadir. No olhar firme. Pensei na frase que ainda ecoava na minha cabeça.
Terminei o café em silêncio, sentindo o dia começar dentro de mim. Não como um peso, mas como uma chance.