Em certo momento, Rita se levantou pra ir ao banheiro. Josi foi junto. Carla saiu para atender uma ligação do lado de fora. Ficamos nós dois na mesa, por breves instantes, com o bar inteiro em movimento e a nossa pequena ilha de silêncio.
Ele mexeu no copo, pensando.
— Não vou perguntar se você tá bem, porque já sei que vai dizer que sim.
— Eu estou.
— E também não vou perguntar se gostou da noite, porque sua cara já respondeu.
— Gostei.
Silêncio curto, denso.
— Não sabia que você tinha esse lado — ele falou.
— Que lado?
— O de sentar em mesa de bar, rir com amiga, dançar pagode r**m e disputar batata frita.
— Talvez eu também não soubesse — respondi.
Ele apoiou o antebraço na mesa, corpo levemente inclinado para frente, mas não invadiu meu espaço.
— Gosto de ver você assim. Sem medo de estar. Sem tanta armadura.
— A armadura fica mais pesada quando você está perto.
— Por quê?
Olhei bem nos olhos dele. Não ia fugir dessa.
— Porque você vê demais.
Ele engoliu a resposta. Não tentou rebater com piada. Não usou charme barato. Só aceitou.
— Não vou fingir que não vejo. Seria falta de respeito.
Rita voltou naquela hora, batendo a mão na mesa.
— Se tiver clima começando aqui, pode pausar que eu ainda tô solteira. Nada de novela na minha ausência.
A tensão quebrou em riso. Eu agradeci por dentro.
A noite continuou. Mais música. Mais conversa. Mais copos trocando de lugar. Em algum momento, uma roda se formou do lado de fora do bar, as pessoas batendo palma, alguém improvisando rima. Saímos para ver, e eu me encontrei no canto, entre Rita e Carla, com Victor alguns passos atrás, conversando com outro cara, mas ainda atento.
Quando a hora foi pesando, o movimento começou a diminuir. Uma brisa fresca chegou do alto do morro. O letreiro do bar piscou. Rita esticou os braços.
— Vamos subir antes que a ladeira engula a gente.
Saímos juntos. Eu, as meninas, e ele um pouco mais atrás, trocando um papo rápido com o Léo e acertando a conta. Ninguém pediu. Ele fez.
Começamos a subir. Passos lentos, riso mais contido, o corpo cansado, mas leve. Victor veio no mesmo caminho, sem se meter demais, mas acompanhando.
Na metade da subida, Josi se virou.
— VT, se alguém vier encher o saco, você bate primeiro, tá avisado.
— Hoje ninguém mexe com vocês — ele respondeu. — Já mandei o recado pro morro inteiro.
Não tinha ameaça na voz. Tinha certeza.
Chegamos na frente da pensão. As meninas falaram em mais dez coisas ao mesmo tempo, marcaram compromisso para ver roupa de novo, pediram pra eu não sumir.
— Sexta que vem tem mais — Rita avisou, já descendo de volta.
— Vai treinando uns passinhos novos — Carla completou.
Fiquei ali, na porta, observando as três se afastarem rindo.
Quando virei, Victor ainda estava ali. Mais embaixo, alguns degraus distante. As mãos no bolso, o corpo relaxado, mas o olhar muito atento a mim.
— Obrigada por não estragar minha noite — falei, meio séria, meio brincando.
— Mesmo aparecendo de surpresa?
— Você não tomou o lugar, não fez cena, não fez pergunta demais. Foi só parte.
Ele pensou um pouco antes de responder.
— Queria que você me visse assim também. Como parte. Não como ameaça.
Aquilo entrou no peito com força.
— Tô tentando.
— Continua tentando. Que eu continuo aqui.
Não tinha cena. Não tinha beijo. Não tinha toque.
Só duas pessoas paradas na frente de uma casa simples, depois de uma noite comum que, pra mim, não tinha nada de comum.
— Boa noite, Ayla.
— Boa noite, Victor.
Eu não sabia como aquilo ia acabar. Mas sabia que, eu não estava assistindo à minha vida de fora. Eu estava dentro. E sentindo cada segundo.
Quando empurrei a porta da sala, a luz da TV ainda estava acesa. Dona Tereza estava deitada no sofá, com um cobertor jogado pelos pés, óculos na ponta do nariz e o controle caído no peito. Parecia dormindo. Até eu dar dois passos para dentro.
— Demorou, hein. — ela falou, sem nem abrir os olhos.
Quase pulei.
— Pensei que a senhora estivesse dormindo.
— Mãe de meio mundo não dorme. Só descansa as pálpebras.
Larguei a bolsinha na cadeira e tirei os chinelos, sentindo o piso frio nos pés quentes da caminhada.
— Foi bom o passeio?
— Foi. — respondi, sincera. — Foi muito bom.
Ela abriu um olho, medindo minha expressão.
— Cara de quem comeu, riu e esqueceu um pouco da vida. Gostei.
— Só faltou o pudim da Sol.
— Não se pode ter tudo. Ainda bem. Senão a gente para de valorizar o pouco.
Fiquei ali parada, sem saber se subia ou se sentava. Meu corpo queria cama. Minha mente queria ficar mais cinco minutos naquele lugar seguro.
— Ele apareceu lá, né. — ela soltou, como quem comenta a previsão do tempo.
Olhei na direção dela, surpresa.
— Quem?
— Quem mais seria. O dono dessa favela e da tua atenção. Tô falando do Victor.
Suspirei. Encostei no batente.
— Apareceu. Mas não atrapalhou. Foi só... parte.
— Ele sabe entrar nos lugares. Aprendeu isso cedo. Não é só chegar. É saber o peso que tem.
— Ele não tomou conta de nada. Não ficou em cima de mim. Não fez cena. Só... ficou.
— E isso te assustou.
— Me deixou sem saber o que fazer, na verdade.
Ela se ajeitou no sofá, sentando com um pouco de esforço, o cobertor caindo para o lado.
— Filha, tem medo que vem pra avisar que tem perigo. E tem medo que vem pra avisar que aquilo importa.
— E se for os dois?
— Então você vai ter que decidir se vale arriscar.
Meu peito apertou.
Ela continuou.
— Te vendo assim, dá pra saber que faz tempo que você não pertence a lugar nenhum. Nem casa. Nem gente. Nem peito de ninguém. Agora o morro tá te segurando num braço. Esse menino tá tentando segurar no outro. E você tá achando que vai ser engolida.
— Eu não quero ser um peso pra ninguém.
— Não é sobre isso. É sobre deixar alguém ser porto, não âncora.
Fiquei em silêncio por alguns segundos. O barulho da TV com o som baixo enchia o espaço. Uma propaganda qualquer passava, sem que nenhuma de nós prestasse atenção.
— Eu não sei o que fazer com alguém que realmente me quer por quem eu sou. — confessei.
— Vai aprendendo. Do mesmo jeito que aprendeu a andar com salto, a posar para foto, a falar sem gaguejar quando tudo em você queria gritar. Só que agora é ao contrário. Em vez de engolir sentimento, você vai ter que deixar sair um pouco.
Ela levantou com um resmungo, passou a mão nos meus cabelos de leve e apontou a escada.
— Vai tomar um banho rápido e dormir. Amanhã a ressaca é de sentimento, não de bebida. E essa bate mais forte.
Assenti, engolindo as respostas que queriam sair. Subi.