As primeiras batidas entraram pelo chão, subiram pela perna, tomaram conta do peito. Lembrei do baile, do Victor, da sensação de liberdade e perigo. Respirei fundo.
Rita começou a dançar, com o quadril solto, o ombro marcando a cadência, o sorriso confiante no rosto. Josi levantou logo depois, rindo, meio desengonçada e sem vergonha nenhuma disso. Carla veio também, levantando os braços e cantando junto.
Eu fiquei no meio.
Então decidi que não ia pensar. Só levei o corpo para o ritmo. Primeiro, devagar. Ombros. Depois, quadris. Deixei as mãos livres, soltas. O bar não parou para me olhar. Ninguém virou a cabeça como em uma cena de filme. O mundo não parou.
Eu não era o centro.
Era só mais uma.
E aquilo trouxe um alívio que eu nunca tinha sentido. Rita se aproximou, encostando a testa na minha por um instante.
— É isso. Vê se sente que o chão é teu também.
— Tô tentando.
— Tá conseguindo.
Cantamos trechos que eu não sabia direito, errei palavras, entrei atrasada, bati o ombro em alguém e pedi desculpa, ouvi um desconhecido dizer "tá tudo certo, tá linda". E pela primeira vez eu não quis conferir se ele falava da cara, do corpo ou da roupa. Só aceitei.
Voltamos para a mesa ofegantes, o rosto quente, o corpo leve.
— Isso é muito diferente do que eu conhecia — falei, pegando um gole de água desta vez.
— O que você conhecia? — Carla perguntou.
Pensei nas festas que já tinha frequentado. Nas músicas planejadas, nos fotógrafos, nos figurinos. Gente se olhando, mas não se vendo. Quase tudo ensaiado.
— Coisa com muita produção e pouca verdade.
Rita riu e levantou o copo.
— Aqui é ao contrário. Produção pouca, verdade demais.
Brindamos.
Em algum momento, alguém colocou funk na playlist. O bar vibrou. Duas meninas da mesa ao lado levantaram para dançar de um jeito que faria qualquer evento "chique" torcer a cara. Rita gritou elogio, Josi aplaudiu, Carla tentou imitar um passo e quase caiu.
Eu senti algo dentro de mim se encaixar.
Não tinha fotógrafos. Não tinha contrato. Não tinha um diretor dizendo como eu devia me comportar. Não tinha marca por trás, nem campanha no dia seguinte. Só tinha bar, cadeira bamba, copo suado, música alta, e mulheres vivendo uma noite só delas.
Rita apoiou o queixo na mão e me olhou por um tempo.
— Cê sabe que a gente tá feliz de verdade por você estar aqui, né.
— Por quê? — perguntei, sem crer totalmente.
— Porque tu não tá pousando. Tu tá presente. Tem gente que senta na mesa, mas não chega. Você chegou.
Engoli em seco.
Era uma coisa tão simples. Sentar em um bar com amigas. Beber, rir, dançar. Mas, para mim, era revolucionário.
Olhei ao redor mais uma vez. As paredes com azulejo antigo, o quadro torto de um time de futebol, a TV pequena numa novela sem som, os casais no canto, os amigos em pé na porta, as mulheres no celular, mas rindo entre si.
Cada cantinho daquele lugar gritava normalidade. E pela primeira vez, eu quis essa vida normal.
A música trocou pro funk de novo e metade do bar levantou como se alguém tivesse dado ordem. A gente continuou sentada por alguns minutos, vendo o movimento, rindo de quem dançava exagerado, comentando roupa, cabelo, tudo aquilo que só roda de mulher sabe fazer.
Eu estava inclinada pra frente, mexendo no guardanapo amassado, quando senti. Não foi barulho. Não foi voz. Foi a mudança de energia na porta.
Rita percebeu um segundo antes.
Ela olhou por cima do meu ombro, sorriu daquele jeito malandro e tomou um gole longo da cerveja, quase encenando. Josi acompanhou com o olhar. Carla também. Eu ainda não tinha virado.
— Chegou reforço para a segurança — Rita comentou, fingindo casualidade.
Virei.
Victor estava na entrada do bar, encostado na parede, conversando com o Léo. Roupa simples, como sempre: bermuda escura, camiseta preta, corrente no pescoço, boné. Nada demais, mas o corpo dele preenchia o lugar de um jeito diferente. As pessoas cumprimentavam ele com acenos de cabeça, aquele respeito silencioso que já conhecia.
Ele olhou pro salão. Viu gente, copos, fumaça, luz. Depois, viu a mesa.
Viu a mim.
Nosso olhar se encontrou. Foi rápido. Mas suficiente.
Ele não veio direto. Isso me irritou e aliviou ao mesmo tempo. Pedi pra mim mesma manter o foco nas meninas. Na conversa. No motivo de eu estar ali.
— Não fica se enrolando no copo, Ayla — Rita murmurou, sem tirar o sorriso. — Você não tá em filme. Tá num bar. Respira.
— Eu tô respirando.
— Tá segurando o ar igual gente que tá debaixo d'água.
Fiz o esforço consciente de soltar o ar. O peito doeu um pouco. Tomei um gole de refrigerante, só pra ocupar as mãos.
Minutos depois, Victor se aproximou. Não com pressa. Não com pose. Simplesmente fundido no ambiente, como se fosse parte do bar.
— Boa noite, damas — ele disse, parando ao lado da mesa.
Rita foi a primeira a responder.
— Boa noite nada. Você chegou atrasado. Já perdeu três pagodes bons.
— A vida de quem resolve problema não tem horário certo — ele rebateu, com um meio sorriso. — Posso sentar ou a mesa é só das guerreiras hoje.
— A mesa é das guerreiras, mas você pode ficar um pouco na lateral — Josi falou, rindo.
Carla completou.
— Desde que pague pelo menos uma rodada.
Ele riu, levantou as mãos em rendição.
— Nisso eu sou bom. Que é que vocês estão bebendo?
Léo apareceu como se tivesse ouvido a deixa.
— Mais uma cerveja, dois refrigerantes, água e, se tiver vergonha na cara, traz um prato de batata frita — Rita ordenou.
— E bota na conta de quem? — Léo perguntou.
— Do cidadão aí com boné — Carla respondeu.
Victor só balançou a cabeça, divertido.
Ele puxou uma cadeira de outra mesa, virou de lado para caber na nossa, sem se impor. Não sentou do meu lado. Ficou entre Rita e Josi, de frente pra mim. Distância segura. Presença impossível de ignorar.
— Satisfeitas? — ele perguntou.
— Por enquanto — disse Rita.
Eu não tinha dito nada ainda. Ele percebeu.
— E você, Loirinha. Tá curtindo o bar do Léo ou ainda prefere baile de rico?
— Aqui é mais honesto — respondi. — Ninguém finge um sorriso por contrato.
O olhar dele firmou em mim por um segundo a mais.
— Verdade.
A batata chegou. A conversa voltou a girar entre todos, mas com outro ritmo. O assunto passou por futebol, fofoca do morro, a senhora que tinha caído na rua e falado m*l do chão, a nova música que ia tocar na próxima festa.
Eu participava, ria, falava pouco, mas falava. Victor não tomava conta do espaço. De vez em quando, fazia uma piada. Mais de vez em quando ainda, olhava pra mim.