21. Ayla

1183 Palavras
Sábado chegou rápido. Rápido demais para quem ainda não tinha decidido se estava pronta para ter amigas, sair em grupo e, principalmente, ser só uma mulher comum indo pra um bar. O sol já estava baixando, tingindo o céu de laranja atrás das casas empilhadas. A pensão cheirava a café fresco e roupa limpa. Lá embaixo, Dona Tereza falava alto com alguém no portão. Eu estava no quarto, encarando a cama, onde três roupas estavam jogadas. Uma calça jeans escura, uma saia preta e um short. Uma regata branca, uma blusa vermelha justa e uma camiseta preta simples. Eu nunca tinha sofrido tanto pra me arrumar sem stylist, sem stylist pelo menos na teoria, porque na prática eu era minha própria equipe agora. Peguei a saia. Coloquei. Tirei. Experimentei a calça. Prendi a blusa vermelha. Olhei no espelho. Não queria aparecer demais. Não queria passar despercebida. Não sabia qual dos dois medos era maior. Respirei fundo. Abri a pequena sacola com as poucas coisas que eu tinha comprado no asfalto dias antes. Peguei uma regata preta de alça fina, vesti com a calça jeans que abraçava o quadril sem me sufocar e o short eu joguei de volta na cama. Terminei de me olhar. Regata preta, calça justa, pé ainda descalço. Cabelo solto, com ondas naturais caindo sobre os ombros. A pele limpa. Sem maquiagem pesada. Abri a nécessaire. Tinha uma base leve, um corretivo, um rímel e um batom nude. Passei o rímel devagar. Um pouco no corretivo abaixo dos olhos. Um brilho na boca. O suficiente para me sentir arrumada sem virar personagem. Olhei de novo. A mulher no espelho ainda era Ayla. Mas uma versão menos distante. Menos montada. Mais real. Bati na porta do próprio reflexo com a ponta dos dedos. — Você vai sair com amigas. Não com fotógrafos. Respira. Coloquei um par de brincos pequenos. Um anel que eu gostava. Prendi só um lado do cabelo com uma presilha. Desci as escadas ouvindo a voz da Dona Tereza na cozinha. — Vai encontrar quem, menina? — Vou sair com a Rita e as meninas. Elas disseram que vão passar aqui. — Então espera sentada, porque mulher nunca chega na hora que marca. Ainda mais em dia de barzinho. — Tá me chamando de mulher atrasada também? — Tô te chamando de gente. É diferente. Peguei um copinho de água e sentei na cadeira da sala. O estômago apertava de um jeito familiar, mas não era o mesmo medo de desfile ou evento. Era um nervosismo novo. Eu nunca tinha sido convidada, de verdade, para um programa de grupo em que eu não fosse atração. Agora eu era só parte. Escutei risadas na rua. Passos subindo correndo a escada da frente. A voz da Rita surgiu antes do corpo dela. — Cadê a Loirinha pronta pra virar gente normal hoje? Ela entrou. Short jeans rasgado, blusa de alcinha colorida, argolas grandes na orelha, a maquiagem forte ressaltando ainda mais o sorriso. Atrás dela, duas das meninas da ONG, também arrumadas, cheias de acessório e energia. As três pararam quando me viram. Rita sorriu, devagar. — Olha só. Eu sabia que tinha uma mulher dessas escondida dentro daquela roupa de voluntária. — Está exagerando — respondi, mas senti o rosto esquentar. Uma das outras meninas, a Josi, comentou: — Tá bonita de um jeito diferente, sabia? Parece mais leve. — Isso é porque hoje ela não vai lavar louça. Hoje ela vai levantar copo — completou Rita, rindo. Peguei minha bolsinha pequena. Coloquei dentro documento, um pouco de dinheiro, o celular, um batom e a chave. Dona Tereza apareceu do corredor, secando a mão no pano de prato. — Se alguém mexer com vocês, vocês avisam o Victor. E se ele não resolver, vocês avisam a mim. — A senhora é a melhor segurança do morro — falei. — Eu sou a mãe de quem aparecer aqui com fome e cara de confusão. Só isso. Ela se aproximou e ajeitou a alça da minha blusa no ombro, com delicadeza. — Tá linda. Mas o importante é estar confortável. Se em algum momento não estiver, volta. Casa não sai do lugar. Assenti. Senti o peito amolecer um pouco. Rita bateu palmas. — Partiu, time. Hoje o Bar do Léo não está preparado pra essa seleção. Saímos juntas pela porta. Descemos o morro em grupo, como se fossemos um pequeno bloco. Rita na frente, falando com todo mundo, dando tchau para metade da rua. Josi e Carla logo atrás, discutindo qual música ia tocar primeiro. Eu no meio, ouvindo, observando, tentando decorar cada detalhe. As luzes dos postes piscavam, os bares iam abrindo as portas de ferro pela metade, soltando o cheiro de fritura, cerveja gelada e som alto. O Bar do Léo ficava em uma esquina mais aberta, com mesas de plástico espalhadas pela calçada, um toldo vermelho desbotado e uma placa com letras grandes: "BAR E ESPETINHO DO LÉO – FIADO SÓ AMANHÃ" Tinha gente na porta, gente em pé, gente com copo na mão, gente rindo alto. Uma caixa de som apontada para a rua soltava um pagode antigo daqueles que todo mundo sabe cantar. Eu reconhecia a melodia, mas não a letra inteira. Rita já chegou cantando o refrão. — Hoje a gente vai sentar lá no fundo, que é perto do banheiro, da cozinha e da fofoca — ela decretou. Entramos. Léo, o dono do bar, um homem gordo, com sorriso fácil e toalha no ombro, levantou a mão. — Boa noite, meninas. Hoje chegaram causando, hein. — A gente só causa com respeito — Rita respondeu. — Quatro cadeiras e uma rodada de cerveja e refrigerante. — E pudim, se tiver — Josi completou. — Pudim só amanhã. Hoje tem só mousse de maracujá meio torto. — Então hoje é dia de ousadia — Carla riu. Sentamos perto da parede, em uma mesa que balançava um pouco, e Rita colocou um pedaço de papel embaixo da perna para estabilizar. O copo de vidro suado chegou rápido. A primeira cerveja também. Eu aceitei um copo, mas pedi pouco. Mais espuma do que líquido. — Não gosta de beber? — Josi perguntou. — Gosto, mas quero lembrar da noite. — Ela é consciente, que ódio — Carla reclamou, em tom de brincadeira. O bar foi enchendo, as pessoas se aproximando do balcão, o garçom passando apertado entre as mesas. Lá fora, dava para ver crianças ainda correndo, enquanto as mães gritavam para entrarem. O céu tinha ficado mais escuro, e as luzes coloridas do letreiro refletiam nas garrafas vazias do balcão. A primeira música de pagode mais animada tocou, e Rita já levantou. — Eu vou dançar. Quem vem? — Depois do segundo copo — Josi murmurou. — Eu não sei dançar — falei. — Não é aula de dança, Ayla. É bar em morro. Só mexe o corpo e ri. O resto o som resolve. Ela puxou minha mão. Pensei em recusar. Não recusei. Deixei que me levasse para perto da entrada, onde tinha um espaço menor, mas suficiente para umas quatro ou cinco pessoas dançarem.
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