A casa estava quieta, com aquele tipo de silêncio que só existe depois de um dia cheio.
Lá dentro, Dona Tereza já devia estar dormindo, ou pelo menos fingindo que dormia, enquanto escutava os barulhos do corredor pra garantir que todo mundo estava em paz. Os outros hóspedes estavam recolhidos. Um deles ainda deixava a TV ligada no volume mínimo, soltando ruídos abafados de novela antiga.
Mas ali, na varanda dos fundos, o mundo era outro.
O céu estava limpo. As estrelas, mais visíveis do que eu costumava ver nas cidades grandes. A brisa subia do morro com cheiro de comida queimada, sabão de roupa e asfalto quente. E eu estava sentada na cadeira de plástico branca, com os pés descalços apoiados na outra, o corpo relaxado, e uma xícara com chá morno nas mãos.
Tinha aprendido a gostar daquele chá de erva-doce que Dona Tereza fazia todas as noites, mesmo sem perguntar se alguém ia tomar. Ela fazia por tradição. Por cuidado. Por rotina de quem cuida de gente.
A caneca ainda tinha uma lasca na borda. Não me importava mais com isso.
Olhei pro céu e pensei em tudo o que tinha acontecido nos últimos dias. Desde que eu pisei aqui pela primeira vez. A mala pequena, a mente cheia, o corpo em ruínas. A mulher que chegou não era a mesma que agora sentava aqui, com os cabelos presos de qualquer jeito e a pele livre de maquiagem.
Eu tinha rido hoje.
Rido de verdade, com outras mulheres. Tinha comido pudim, contado uma história íntima e sido chamada pra um rolê. Tinha ouvido meu nome ser dito sem interesse, sem contrato, sem segunda intenção.
Mas ainda tinha medo.
Não medo do morro, nem das pessoas. Medo de perder isso, de confiar e ser desmontada de novo. Medo de gostar demais.
Victor veio à cabeça como sempre. E, por mais que eu tentasse evitar, ele ocupava um espaço em mim que já não era só físico.
Eu lembrava do toque dele, do beijo, da paciência.
Mas o que mais me voltava era a forma como ele me olhava quando eu dizia que não podia. Ele não discutia. Não cobrava. Só... ficava.
E isso era mais perigoso do que qualquer pressão.
O coração batia mais calmo agora. Mas batia diferente. Como se dissesse: "você tá sentindo. E não adianta fugir."
Me estiquei na cadeira. Fechei os olhos por um instante. A brisa bateu no rosto e arrepiou meus braços. Sorri sozinha. Cansada, mas viva.
Não precisava decidir tudo agora. Não precisava entender tudo agora. Talvez só precisasse estar ali, sentada naquela varanda de cimento gasto, com a xícara morna na mão, o cabelo bagunçado, e o peito um pouco mais aberto do que na noite anterior.
O silêncio tava tão bom que doía. Aqueles minutos preciosos em que o mundo lá fora não pedia nada de mim, onde ninguém me cobrava um sorriso, onde meu nome não vinha seguido de um contrato ou flash. Era só eu, o céu meio encoberto, o vento morno do morro e minha xícara de chá quase vazia.
A cabeça já tava longe. Pensava em tudo e em nada ao mesmo tempo. Quase entrando naquele estado entre vigília e sono, com o corpo mole e a mente leve.
E então...
— Pensando em quê, menina?
Eu juro por tudo que é sagrado: meu coração pulou no peito, a xícara escorregou da mão, e a cadeira virou com tudo pra trás.
Caí de costas, perna pra cima, xícara batendo no chão com um estalo seco, e o som do plástico da cadeira arrastando no cimento. Fiquei uns bons dois segundos deitada no chão, tentando entender se eu ainda tava viva.
— Eita, Nossa Senhora da Barulheira! — exclamou Dona Tereza, aparecendo com um pano de prato no ombro e os olhos arregalados. — Cê tá bem, filha?
— Não faz isso comigo! — falei, ainda no chão, com o peito disparado. — A senhora me matou de susto!
— Mas eu só falei baixinho, criatura!
— Tava em transe, ué! Meditando! Pensando no universo! Sei lá! A senhora apareceu igual alma penada!
Ela começou a rir. Aquela risada alta, de quem nem tenta segurar. Se encostou na parede, rindo de verdade, sem filtro.
— Eu vim só perguntar se cê queria mais chá. Nem sabia que a bicha ia cair pra trás como galinha na chuva.
— Quase morri, Dona Tereza. De verdade. Me vi aos sete anos de idade de novo, quando minha avó me pegou escondendo pão no bolso.
— E tu tinha essa cara aí de assustada desde criança? — ela provocou, estendendo a mão pra me ajudar a levantar.
Aceitei, meio mancando, ainda rindo e bufando ao mesmo tempo. A cadeira tava de lado, a xícara milagrosamente inteira no chão.
— Que vergonha, meu Deus. Se tivesse alguém gravando, isso ia virar meme.
— Pois devia. Sua cara ao cair foi a melhor coisa, Ayla! Você deveria te visto tambem.
Eu sentei de novo, ajeitando a camiseta, tentando recuperar a dignidade.
— A senhora anda que nem sombra. Devia usar um chinelo com barulho.
— E perder meu dom de aparecer do nada? Imagina, eu nasci pra dar susto.
Ela foi até a xícara caída, pegou com cuidado, e me olhou de canto.
— Mas vem cá... cê tava tão desligada assim, pensando em quê?
Parei. Respirei. Fiquei olhando o chão por um instante.
— Em tudo… em mim, no que tá nascendo aqui dentro e eu ainda não sei nomear.
Dona Tereza assentiu. Não precisou perguntar mais nada.
— Chá cura tudo, filha. Menos susto. Esse, só passando.
— Ainda tô me tremendo.
— Vai deitar. Toma um banho amanhã cedo e finge que não caiu. Ninguém precisa saber.
— A senhora vai contar pra todo mundo, né?
— Provavelmente.
E piscou pra mim, com aquele ar debochado que só ela tem.
Ficamos mais um minutinho ali, em silêncio, respirando o ar da noite. O riso ainda preso no peito, o susto ainda grudado nos músculos. Mas por algum motivo, aquilo me fez bem.
Cair de costas, às vezes, é só o universo dizendo: "relaxa, menina. Você tá viva." Mas de qualquer maneira, não queria perceber que estava viva, caindo de novo, não!