O ventilador velho fazia mais barulho do que vento, e mesmo assim a sala da ONG estava lotada. Era o dia da oficina de costura, mas por algum motivo ninguém costurava nada naquele momento. As máquinas estavam desligadas, os tecidos espalhados e o único movimento vinha das cadeiras que viravam de um lado pro outro conforme o assunto esquentava.
Eu tava sentada num cantinho, ajudando a dobrar panos coloridos, quando ouvi a explosão de riso.
— E eu juro por Deus, J-U-R-O, que o infeliz me pediu pra fazer a posição da "aranha invertida". Acredita?
— O quê? — gritou outra, engasgando com o suco.
— Isso existe? — perguntou uma mais jovem, de olho arregalado.
— Existe sim, minha filha! Ele viu no vídeo e achou que eu era ginasta olímpica. A minha coluna tá torta até hoje.
Caiu mais uma rodada de gargalhada geral. E eu, no meu canto, sorri. Tentei disfarçar, mas Rita me viu.
— Opa! A gringa riu. Marca esse momento: Ayla entrou oficialmente pro grupo.
— Eu não sou gringa, Rita.
— É quase. Você fala como se estivesse sempre num filme de drama francês.
— E você fala como se fosse repórter do Meia Hora.
— E com orgulho.
Rita se virou pra mim, apoiando o cotovelo no encosto da cadeira.
— E aí, Loirinha, conta uma tua. Qual foi a posição mais maluca que já fizeram contigo?
— Eu não—
— Não vem com essa de "não gosto de falar sobre minha vida íntima", não. Aqui todo mundo fala. Se o assunto for pimenta, cê pelo menos tem que botar a malagueta na mesa.
As outras começaram a gritar "fala, fala, fala!" como se estivessem em um programa de auditório.
Fiquei vermelha. Sentia o calor subindo do pescoço. Mas, no fundo, era bom. Eu não era o centro por causa de um escândalo, ou por um vestido caro, ou por uma foto em alguma revista. Era só mais uma mulher no meio de outras mulheres, rindo da própria sorte (ou falta dela).
— Tá... — suspirei. — Uma vez, o cara pediu pra eu usar um salto... de quinze centímetros... e me posicionar de costas, na beira da cama, equilibrando com uma perna só.
— Meu Deus! — gritou uma.
— Isso é sexo ou acrobacia circense? — disse outra.
— Eu caí. Bati o ombro na parede e fui embora do quarto mancando.
A sala inteira explodiu de novo. Gargalhadas, gritos, tapas na perna, gente se dobrando. Até a mais tímida começou a rir de verdade. E Rita, com os olhos marejando, disse entre risos:
— Você é doida! E ainda anda fina, toda elegante. Sabia que escondia uma pervertida no salto.
— Não é ser pervertida. É só... tentar não morrer de tédio.
— Isso aí. Tem homem que acha que transa é só meter e dormir. Tem que ter graça. Tem que rir. Tem que errar pose e cair da cama às vezes. É aí que o sexo fica bom.
— E aí que o homem fica lembrado. — disse outra, rindo.
— Mas, se for pra escolher uma só, qual a posição preferida de vocês? — perguntou Rita, já acendendo outra fogueira.
— De ladinho!— gritou uma.
—A de quatro com dignidade. — disse outra, com pose séria.
— Sentada de frente. Olhando no olho. Pra ver se o infeliz tem alma mesmo.
Rita virou pra mim.
— E você, Ayla?
Pensei. Não no aspecto técnico. Mas no que aquilo dizia sobre mim.
— Acho que... sentada também. Mas não pelo controle, como dizem. É porque eu consigo olhar. E se eu não conseguir olhar no olho do cara, eu não devia estar ali.
O silêncio foi breve. Depois, um coro de "ihhhh", seguido por palmas e risadinhas debochadas.
— Essa foi profunda. — comentou uma das mais velhas. — Mas é verdade. Tem homem que a gente não quer nem ver o rosto.
— A maioria. — completou Rita, com um gole no copo.
E então seguimos. Entre mais gargalhadas, histórias absurdas, trocas de conselhos, dicas inúteis e outras geniais. E eu ali, no meio, esquecendo por instantes que era "aquela Ayla", a que todos sempre esperavam perfeição, frieza ou escândalo.
Ali eu era só mulher. Com desejo, vergonha, história, e um riso solto que finalmente estava aprendendo a sair sem medo.
As risadas ainda ecoavam quando a conversa sobre posições acabou virando um bate-papo sobre vida, homem cafajeste e as tragédias cômicas do dia a dia. As cadeiras estavam bagunçadas, os copos de suco pela metade, e a sensação era de que ninguém ali tinha pressa pra ir embora.
Rita passou a mão nos cabelos, tirando o coque frouxo e deixando os fios soltos. Estava suada, descabelada e com aquele ar de quem poderia dominar um estádio se colocassem um microfone na mão.
— Ó... sexta agora vai ter um sambinha no Bar do Léo, lá embaixo. Vocês tão ligadas que é o melhor pagode do morro, né?
— Já separei a blusa de paetê. — disse uma, estalando os dedos.
— Eu vou de cropped e dignidade pra fugir do meu marido. — respondeu outra, arrancando risadas.
— Ayla vai também. — Rita falou, como quem já decidiu.
Eu congelei por dois segundos.
— Eu? Não... eu nem... nem sei se posso.
— Pode sim. — ela me cortou. — A gente vai sair entre as minas. Beber, rir, falar besteira, ouvir música, dançar errado e voltar tarde. É tipo um encontro. Só que com quem importa.
— Um... encontro de amigas?
— Isso mesmo. Um date entre nós. Só mulher. E a gente faz isso direto. Pra lembrar que não precisa de homem nenhum pra se divertir.
— Mas eu nunca...
— Nunca saiu com amigas pra beber e rir de homem i****a?
Balancei a cabeça, ainda sem jeito.
— Nunca tive amigas assim.
O silêncio foi instantâneo. Mas não daquele tipo desconfortável. Foi o silêncio de quem entende.
— Tu teve o quê, então? — perguntou Rita, mais suave.
— Tive compromissos. Eventos. Produções. Colegas de trabalho. Fotógrafas que fingiam ser irmãs. Mas... ninguém que me convidasse pra um barzinho só pra rir e reclamar da vida.
Rita se aproximou e colocou a mão no meu joelho.
— Então, agora você tem.
— Mas eu nem sei o que vestir pra um lugar assim.
— Qualquer coisa. A gente vai ser as mais lindas mesmo suando no meio da pista.
— E eu nem sei dançar samba.
— Ótimo. Vai ser ainda mais divertido te zoar.
A roda toda riu, mas foi diferente dessa vez. Eu não era motivo de piada. Eu era parte da piada. Do grupo. Do plano. Do rolê.
— Se prepara. A gente vai passar na tua casa pra te buscar. E quero ver essa cara aí de "sou uma mulher misteriosa e fria" sumir. Sexta é dia de viver.
Assenti, com um sorriso tímido que me escapou antes que eu pudesse controlar.
A palavra date sempre teve outro peso pra mim. Algo ensaiado, milimetricamente calculado, em restaurantes caros, com homens que me queriam por status ou desejo, nunca por quem eu era. Mas agora, ouvir "um date com amigas" era tão novo... e tão necessário.
Eu não fazia ideia do que me esperava.
Mas queria ir.