18. Victor

997 Palavras
— Tá procurando a Ayla? — ela perguntou, mexendo o café. Por um segundo, eu quase disfarcei. Quase. — Ela tá aí? — perguntei, seco. — Tá no quarto, se arrumando pra sair. Não sei pra onde vai. Só sei que passou por mim hoje com cara de quem tá pensando demais. Parei de bater o pé. — Pensando demais? — Menino, se eu te contar o tanto que aquela menina tem dor guardada... mas isso aí você que descubra. Tua orelha serve pra ouvir, não só pra segurar esse boné. — Vou falar com ela. — Vai com calma. Ela não aprendeu a confiar em ninguém ainda. Levantei, respirei fundo e caminhei até o corredor. O chão rangia. Cada passo parecia avisar que eu estava chegando, como se a casa inteira fosse cúmplice. O quarto dela estava com a porta entreaberta. Toquei de leve. — Ayla? — chamei. A porta abriu mais um pouco. E ela estava lá. Cabelo úmido preso num coque improvisado, uma calça confortável, camiseta simples, o rosto limpo sem maquiagem, bonita de um jeito que machucava sem esforço. Carregava uma bolsa pequena no ombro e parecia pronta pra ir embora dali. Pra onde? Eu não sabia. Mas eu queria saber. — Oi. — ela disse, controlada demais, com a voz baixa. — Oi. — respondi, tentando não mostrar que meu coração deu uma porrada no peito só de ver ela desse jeito, nesse lugar, tão perto. Ficamos ali, parados na porta, sem ninguém por perto. O cheiro do café vindo da cozinha. Paula Fernandes tocando na casa da vizinha. A vida acontecendo ao redor enquanto a gente só... existia. — Você vai sair? — perguntei. — Vou. Preciso ir pra ONG mais cedo hoje. — Posso te levar. Ela respirou fundo. Não rejeitou de cara, mas ficou quieta por um tempo que pareceu longo. — Não precisa, VT. — Eu sei que não preciso. Tô oferecendo. Ela desviou o olhar. O corpo dela falava tudo o que a boca tentava esconder. Não era "não quero". Era "eu quero, mas não posso querer". Então dei um passo pra trás. Sem pressão. Sem cobrança. — Tá. Mas antes de você ir, eu queria ver se... — parei um segundo — se a gente tá bem. Ela piscou devagar, como se aquela pergunta tivesse pego ela despreparada. — A gente tá. Só... não quero complicar nada. — Você não complica nada. Você só existe. E eu gosto disso. Ela mordeu a parte interna da bochecha, o gesto dela quando fica nervosa. — Victor... vamos devagar. — Eu sou devagar, Loirinha. Quem anda rápido demais é você. Ela finalmente sorriu: um sorriso curto, cansado, mas verdadeiro, antes de colocar a bolsa no ombro. — Vou indo, tá? — Eu vou aparecer lá depois. — Não precisa. — Mas quero. Ela não discutiu. Só abaixou o olhar, respirou fundo, e passou por mim no corredor. Quando ela desceu as escadas, senti o ar mudar atrás dela. A casa inteira ficou diferente e eu fiquei ali parado, pensando que talvez... talvez fosse a primeira vez na vida que eu queria cuidar de alguém sem carregar o mundo nas costas. E dessa vez, o mundo tinha nome: Ayla. Fiquei no corredor por alguns segundos depois que ela desceu. O cheiro dela ainda tava no ar. Não perfume de grife, desses que deixa rastro pra mostrar poder. Era cheiro de pele recém-lavada, de sabonete simples, de mulher que não tava tentando seduzir ninguém, mas acabava fazendo isso sem querer. Dona Tereza apareceu na porta da cozinha com a xícara na mão. — E aí, falou com ela? Assenti, olhando pro vazio onde ela tinha acabado de passar. — Ela vai pra ONG. Disse que tá tudo bem. — Disse com a boca. Mas e com os olhos? Suspirei e me encostei na parede. — Ela tá com medo de gostar. E eu entendo. Mas é f**a segurar esse tipo de sentimento quando ele já foi. Quando já escapou da mão. — Então segura a tua parte. E respeita a dela. O resto vem no tempo certo. Tia Tereza sempre teve essa sabedoria de quem já viu o mundo rodar muitas vezes. Peguei a xícara que ela me ofereceu, bebi o café e desci as escadas da casa devagar, com o sol já subindo no céu. Na rua, vi Ayla dobrando a esquina, andando com aquele jeito que ela tenta disfarçar: cabeça erguida, passos firmes, mas o olhar sempre desconfiado de que o chão vai sumir debaixo dos pés. Pensei em chamar. Não chamei. Ela precisava daquele espaço. Precisava andar sozinha e lembrar que ainda era dona das próprias pernas. Que não dependia de ninguém. Nem de mim. E eu, por mais que quisesse segurar sua mão, sabia que o que ela mais precisava agora era se reconhecer no caminho. Voltei a subir e sentei na laje da casa da minha tia. Dali, dava pra ver o morro quase inteiro. O comércio abrindo as portas, a criançada indo pra escola, o som distante de uma furadeira, alguém batendo martelo no improviso de uma obra, como sempre. Tudo seguia igual. Menos eu. Porque agora, cada canto desse morro me lembrava ela. O bar da esquina. A viela estreita, onde ela me encarou pela primeira vez como quem queria entender quem eu era de verdade. A varanda dos fundos da pensão, onde ela me ouviu em silêncio e não fugiu. Ayla virou território. E território, comigo, é coisa séria. Não sei se vou ser o cara que vai curar ela. Não sei se ela vai deixar. Mas sei que, se ela tentar fugir, não vou impedir. Só vou mostrar que, quando ela quiser voltar, eu ainda vou estar aqui. Sem promessas bonitas. Sem flores. Sem declaração ensaiada. Só com presença, e paciência. Porque o tipo de mulher que ela é não se conquista com palavras. Se conquista com verdade. E eu tenho todas as minhas pra dar. Mesmo que ela demore pra aceitar.
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