Subi a laje da casa da minha mãe com o chinelo arrastando, garrafa d'água na mão e o corpo pedindo cama. A noite tava abafada, o céu com nuvem baixa, quase pegando no topo das antenas. A cidade não dormia, como sempre. Mas eu precisava respirar fora das paredes, longe de gente, longe do peso de ser quem eu sou.
Me encostei no parapeito e fiquei olhando lá pra baixo. Luzes acesas, televisão vazando som de novela, moto cortando a rua em baixa velocidade. Morro vivo, morro pulsando. E no meio de tudo isso, ela.
Ayla.
A loirinha com cara de patricinha perdida que apareceu na porta da minha tia com uma mala e um olhar de quem não sabia se queria sumir ou ser salva. E agora, dias depois, já andava por aí como se tivesse nascido aqui. Lavando louça, ajudando criança, almoçando com Rita no restaurante da Sol. Como se fosse fácil se encaixar. Como se ela quisesse... ficar.
Mas eu via. Por trás da fala segura, do olhar reto, tinha o muro. O medo. A trava.
E pior: eu começava a gostar da p***a da trava.
Gosto de mulher que é tempestade, não enfeite de estante. E Ayla é exatamente isso. Um raio disfarçado de silêncio.
Lembro do beijo. Do jeito que ela se entregou como quem quer, mas logo depois recuou como quem teme. Ela disse que não tava pronta. Que não queria dar esperança. Que ainda doía.
Eu entendi. Mas não deixei de querer.
Passei a mão no rosto, cansado. Peguei o celular. Abri a conversa com Jeffy. Nada urgente. Só mensagem falando que a entrega da comunidade tava marcada, que o pessoal da ONG tava organizando a parte da quadra. Respondi com um emoji seco e desliguei a tela.
Abri outra conversa: a dela. Nenhuma mensagem. Nenhuma conversa iniciada. Nenhuma desculpa pra puxar assunto.
Ela queria espaço. Eu dei.
Mas minha cabeça não desligava.
Aquela mulher mexe comigo de um jeito que nenhuma outra mexeu. Não é só o corpo, embora, p**a que pariu, o corpo dela parece que foi desenhado pra me f***r o juízo. É o jeito que ela me olha como se estivesse medindo se eu vou quebrar ela também.
E eu juro por tudo que já fiz de errado nessa vida que, com ela, eu não quero quebrar nada. Quero construir.
Mas também sei como funciona o medo de quem só foi usado. A vida inteira me jogaram no chão, me disseram que eu era só mais um. E eu escolhi virar dono do que me negaram. Com sangue, sim. Com voz. Com presença. Agora eu sou o VT. E todo mundo escuta quando eu falo.
Menos ela.
Ela não abaixa a cabeça. Não se curva. E quando se afasta, não é orgulho. É dor. E isso, p**a merda, me desmonta.
Fechei os olhos, ainda encostado no concreto da laje. Vi o rosto dela. O jeito que ela fechou a porta sem bater. O jeito que a respiração dela tremia no fim do beijo. O jeito que ela ainda me olha quando acha que eu não tô vendo.
Ela me quer. Mas não sabe o que fazer com isso.
Eu também não sei. Mas vou aprender. Porque não é o tipo de mulher que aparece duas vezes. E se ela tiver medo de cair, eu fico embaixo.
Porque, pra ela, eu topo até ser chão.
(...)
Acordei cedo. Mais cedo do que eu costumo. O sol nem tinha subido direito e já tava aquele calor preguiçoso entrando pelas brechas da janela. O morro acordava junto: latido de cachorro, rádio na casa da dona Celina, panela batendo no fogão de alguma tia às seis da manhã. Eu levantei, lavei o rosto, tomei um café amargo demais, e fiquei parado na porta de casa, olhando pra rua.
Não era da ONG que eu tava pensando. Nem dos problemas do morro. Era dela.
Aquela mulher entrou na minha mente e ficou andando pelos cômodos como se fosse dona da p***a do lugar. Eu tentei ignorar, juro. Mas o jeito que ela me olhou ontem, tentando ser forte, tentando levantar muro, aquilo me deu mais vontade de derrubar o muro do que beijar a boca dela.
E eu queria as duas coisas.
Peguei a moto, ainda com o motor frio. Não era longe até a pensão da minha tia, mas eu precisava sentir o vento pra ver se a cabeça esvaziava um pouco. Não esvaziou. Pelo contrário.
Quanto mais eu subia, mais pensava nela se afastando de tudo e todos, mas com o olhar aceso. Tentei não pensar no beijo. Não adiantou. Tentei não pensar na voz dela dizendo que não tava pronta. Piorou.
Parei a moto bem na frente da casa da Tê. A porta da sala tava aberta, como sempre. Entrei sem bater, porque aqui a gente é assim, quem é de casa, entra.
— Ô tia — chamei, andando até a cozinha — tem café aí, não?
Ela virou com a colher na mão.
— Victor, tu veio comer de novo? Já não tem feijão suficiente pra tanta barriga.
— Nem falei de feijão. Pedi café.
— Aham, senta aí que eu faço. Tô vendo que hoje tu tá inquieto.
— Tô nada.
— Tá sim. Quando tu tá normal, tu entra rindo. Quando tu tá assim, tu entra arrastado.
Sentei na cadeira velha de palha. Bati o pé no chão duas, três vezes. Olhei pro corredor. Olhei de novo. Tentei não demonstrar nada, mas a tia Tereza percebe qualquer microrespiração fora do ritmo.