16. Ayla

1044 Palavras
Subi a ladeira devagar. O almoço ainda pesava no estômago, mas era um peso bom, confortável. Como se a comida tivesse me lembrado que existia algo além do barulho da cabeça. As vielas estavam mais silenciosas naquela hora do dia, com as crianças nas escolas e as senhoras cochilando atrás das janelas abertas. O sol batia com menos força, e uma brisa leve subia do asfalto quente, carregando o cheiro de sabão em pó vindo das casas. No portão de uma delas, um rádio tocava pagode baixinho, abafado por uma panela de pressão chiando na cozinha. Pensei em tudo que tinha acontecido nas últimas vinte e quatro horas. No baile, no beijo, no pudim. E, principalmente, no que eu estava tentando evitar: em Victor. Me dei conta, ali no meio da subida, que o morro começava a me reconhecer. As pessoas me cumprimentavam com acenos curtos, como quem não sabe exatamente quem você é, mas já decidiu te aceitar no cenário. Um senhor no portão me chamou de "a menina da Tereza". Uma moça me ofereceu um pedaço de bolo de fubá que estava esfriando na bancada da janela. Ninguém sabia meu sobrenome. Ninguém mencionava moda, desfiles, Paris. Só me viam como Ayla. E isso, por si só, era assustador. Quando cheguei à pensão, a porta estava encostada. A casa tinha aquele cheiro de café antigo, pano úmido e comida. Dona Tereza estava esticada no sofá, chinelo jogado pro lado, abanando o rosto com uma revista velha. — Voltou cedo. — ela disse sem abrir os olhos. — Era isso ou dormir em pé no meio da rua. — Comeu? — Comi tanto que tô sentindo o pudim até agora. Ela deu um riso curto, ainda de olhos fechados. — Pudim da Sol? Aquilo cura até dor de corno. — Ainda bem que não tô com esse tipo de dor. — Por enquanto. Larguei a bolsa no cantinho da escada, tirei os chinelos e fui até a cozinha pegar um copo de água. O lugar estava mais arrumado do que o normal, provavelmente obra de Marta, a outra hóspede que fazia questão de varrer o chão duas vezes por dia mesmo quando ninguém pisava. As louças estavam empilhadas, limpas. O pano de prato pendurado com dobrinha alinhada. Tinha uma sensação estranha em mim. Aquela paz inquieta. Como se tudo estivesse calmo demais e meu corpo não soubesse o que fazer com isso. Subi pro meu quarto. O andar de cima rangia sob meus pés, e o ventilador de teto girava num ritmo preguiçoso. Abri a janela pra deixar o vento entrar. Deitei na cama e encarei o teto. A pensão era simples, mas começava a parecer casa e isso me deixava desconfortável. Porque se era casa significava que eu estava ficando, e se eu estava ficando, significava que alguma parte de mim já tinha escolhido ficar. Fechei os olhos. Não pra dormir. Mas pra tentar segurar o mundo por dentro. Victor ainda estava ali. No meu pensamento. No meu corpo. No gosto da conversa. Mas aqui, sozinha, no meu quarto quente de morro, eu precisava ser só minha, antes de ser de mais alguém. E talvez, só talvez, Dona Tereza tivesse razão. O pudim cura. Mas o silêncio também revela. (…) O ventilador fazia um barulho intermitente no teto, uma mistura de lamento e insistência. Eu estava deitada há quase meia hora, mas o sono não vinha. O calor grudava na pele como se estivesse tentando me lembrar que, apesar do cansaço, o corpo ainda existia. E pensar... estava demais. Me levantei devagar, tirei a camiseta com preguiça e fui até a cômoda pegar uma toalha limpa. A luz do corredor estava apagada, mas a fresta da janela da cozinha iluminava o chão com aquele tom amarelado de lâmpada quente. Peguei minha nécessaire de banho: sabonete de erva-doce, escova de dente, shampoo genérico e um hidratante que eu usava há anos só pelo cheiro. Andei descalça até o banheiro no fim do corredor, onde a porta sempre rangia e a torneira fazia drama pra soltar água quente. Acendi a luz. O espelho era pequeno, rachado no canto. A parede de azulejo bege tinha marcas de tempo, de vida. Pendurei a toalha no gancho e olhei pra mim. Meu reflexo estava diferente. Não era a maquiagem que faltava. Nem a roupa simples, nem o cabelo preso de qualquer jeito. Era o olhar. Um olhar que não queria mais agradar ninguém. Que não esperava aplausos. Que só queria respirar. Abri o chuveiro. A água caiu fria nos primeiros segundos, depois morna. Não era pressão de hotel caro, nem banho de spa. Mas era boa. Porque era real. Porque era minha. Entrei devagar, sentindo o corpo se render ao calor da água. A pele arrepiou. Os ombros relaxaram. Fechei os olhos. O sabão escorria devagar pelos braços, levando junto o cheiro do dia: do restaurante, da rua, das caixas da ONG. Do toque de Victor. Do beijo que ainda parecia grudado na boca, mesmo depois de tudo. Passei a mão no rosto com força, como se pudesse tirar os pensamentos. Mas não saiu. Não importa quantas vezes eu me lave. Tem coisas que a gente carrega por dentro. Coisas que nem o melhor sabonete do mundo consegue limpar. Fiquei ali por longos minutos. Sem pressa. O barulho da água era meu único som. Meu abrigo. Minha cápsula temporária de controle. Quando saí, o espelho estava embaçado. Peguei a toalha com calma e me enrolei, respirando fundo. O piso frio nos pés me lembrou que eu estava no presente. Que estava aqui. No morro. Numa pensão com paredes finas e cheiro de sabão em pó. Longe do mundo que me moldou. Perto demais do mundo que começava a me ver. Voltei pro quarto com a toalha presa no peito. Vesti uma camiseta e um short de algodão. Apaguei a luz. Deitei. O travesseiro era baixo, o colchão mais firme do que eu gostaria. Mas ainda assim, havia um conforto estranho naquela cama. Um cansaço bom. Fechei os olhos. Victor apareceu na memória, como sempre: a voz rouca, o olhar firme, a calma na presença, o perigo no toque. Suspirei fundo, enterrando o rosto no travesseiro. Não ia sonhar com ele. Já era tarde demais. Eu estava sonhando acordada.
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