15. Ayla

1349 Palavras
Estava organizando a prateleira de livros infantis, em um canto pouco iluminado da sala de leitura da ONG. A poeira subia de volumes que provavelmente ninguém tocava há meses, e eu aproveitava o momento pra ficar ali, afastada, no meu próprio silêncio. Uma criança pequena me olhava de longe, com lápis colorido na mão, esperando pra ver se eu ia mandar ela sair ou chamar pra perto. Fiz um gesto com a cabeça. Ela veio e sentou do meu lado. Foi quando ouvi a porta do pátio abrir com força demais. — Oxe, olha quem chegou. — alguém disse no fundo. A voz veio em seguida, firme, viva, inconfundível. — Bom dia, família. Engoli seco. Victor. Ouvi os sons se espalhando: cumprimentos, mãos batendo, risadas. Ele já estava conversando com o coordenador, elogiando o avanço das obras, perguntando das doações, acenando pras crianças como se fosse o prefeito da cidade. Um deles gritou o nome dele, correndo pra abraçá-lo, e ele se abaixou sem pensar duas vezes. Carisma puro. Aquele tipo de presença que muda a temperatura do ambiente. Fechei o livro nas mãos com mais força do que precisava. A menina ao meu lado me olhou, curiosa. — Esse é o VT. — ela disse, sorrindo. — Ele é legal. Ele deu meu caderno novo. Assenti, forçando um sorriso. Queria levantar dali. Me esconder. Ir arrumar brinquedos, limpar alguma sala, sei lá. Mas ao mesmo tempo, sabia que qualquer fuga seria óbvia. E eu odiava parecer óbvia. Fiquei ali mais um pouco, até ouvir os passos dele se aproximando. Não os passos comuns. Os dele. O jeito como ele caminhava pelo chão de cimento, como se fosse dono da fundação daquela ONG. — Tá se escondendo ou tá trabalhando duro? — a voz soou perto do meu ombro. Respirei fundo antes de virar. — Fazendo meu papel. — Hm. Papel de quem? Funcionária do mês ou mulher fugindo de homem que beijou ontem? Levantei devagar, segurando o livro com força, como se fosse escudo. — O que você tá fazendo aqui? — Além de cuidar de metade dos projetos dessa ONG com dinheiro e presença? — ele arqueou a sobrancelha. — Vim ver como tão andando as coisas. A doação que tu fez tá sendo bem usada. Tô acompanhando de perto. — Não precisa me acompanhar. — Mas quero. Pelo menos um pouco. — Victor... — Fala, Loirinha. Ele me olhava com aquela expressão que parecia brincadeira, mas não era. Tinha firmeza ali. Tinha coisa por trás. — É que... eu não sei lidar com isso. Com esse "você". Aqui. Na minha rotina. No meio das crianças, do meu dia, da parte da vida que eu tava tentando construir sozinha. — Não tô tentando invadir tua vida, Ayla. Só quero estar perto. Não porque você precisa. Mas porque eu quero. — Isso não é justo. — A vida nunca foi. A raiva e a fragilidade se misturaram. Me afastei, dando dois passos pro lado. Queria dizer que ele era intenso demais, que me confundia, que eu ainda não sabia onde pisar. Mas tudo isso parecia desculpa. E eu odiava parecer fraca. — Eu só não quero me perder de novo, Victor. Não depois de tudo que levei anos tentando recuperar. — E quem disse que tu precisa se perder pra viver isso comigo? Ele não tocou em mim. Não se aproximou demais. Só me olhou como quem já entendeu que um passo precipitado faria tudo desmoronar. E ainda assim, ficou ali. Esperando. Presente. — Vai ter reunião da diretoria agora — ele disse, com a voz mais baixa. — Vou subir. Se quiser voltar a me ignorar depois, fica à vontade. Mas só queria de novo. Me virei. Não disse nada. Ele também não e quando ouvi os passos dele se afastando, percebi que o silêncio que eu tanto buscava agora doía mais do que a presença. Porque, no fundo, parte de mim queria correr atrás. (…) O sol do meio-dia batia forte nas telhas de zinco, deixando o ar seco e o chão quase brilhando de tanto calor. A ONG estava num ritmo mais lento, as crianças tinham saído pra aula e os voluntários se espalhavam pelos corredores, esperando a próxima leva da tarde. Eu estava suada, com a camiseta grudando nas costas, e a cabeça cheia demais. — Bora almoçar, Ayla? — Rita apareceu do nada, abanando a camisa com a mão. — Se eu não comer agora, vou cair dura dentro da caixa de doação. Assenti sem pensar duas vezes. Estava faminta, e mais do que isso: precisava sair dali por uma hora, respirar outro ar. Descemos pela rua de calçamento irregular, desviando de baldes de água de dona de casa e gatos atravessando como se fossem donos da viela. O restaurante ficava no segundo andar de uma casa com fachada azul desbotada, onde uma faixa pintada à mão dizia: "Restaurante da Sol - comida caseira e amor na panela". O cheiro já vinha da calçada: feijão fresco, alho refogado, carne cozida com batata. Subimos as escadas com cuidado e encontramos uma mesa perto da janela aberta. Ventava pouco, mas pelo menos ali o ar circulava. — Hoje é carne assada com farofa e salada de tomate — disse a moça do caixa, com um sorriso cansado. — E tem pudim? — perguntou Rita, antes de qualquer outra coisa. — Últimos três pedaços. — Então já separa dois pra gente, pelo amor de Deus. Se chegar alguém antes, é capaz de ter briga. Nos sentamos, suadas, ofegantes, mas rindo. Eu soltei os cabelos, prendi de novo, tirei o elástico, prendi outra vez. Estava inquieta. A cabeça girando desde a conversa com Victor. — Tu tá com cara de quem viu o demônio. — Rita disse, abrindo o guardanapo de papel no colo. — O demônio tem nome e boné virado pra trás. Ela gargalhou, alto. — Eu sabia. Ele apareceu na ONG? — Apareceu. Do nada. Com aquele jeito dele. Brincando com criança, conversando com todo mundo como se fosse o dono da p***a toda. — Mas ele é. — Eu sei. E é isso que me assusta. Porque ele entra em qualquer lugar como se tivesse nascido ali. Ela me observou com mais atenção, pegando o copo de suco com calma. — Tu se apaixonou. Neguei, rápido demais. — Não. Eu tô confusa, é diferente. — Confusão com gosto de beijo na boca, cheiro de perfume amadeirado e olho puxado cheio de malícia. Sei bem como é. O prato chegou: arroz solto, feijão escuro com caldo grosso, carne desfiando no garfo e farofa crocante. Coloquei a primeira colherada na boca e quase fechei os olhos. Estava quente, simples, intenso. — Essa comida me faz sentir em casa. — murmurei. — Porque é feita por gente que quer alimentar o outro de verdade. É amor! Comemos em silêncio por um tempo. O barulho da rua lá embaixo se misturava com a conversa baixa de duas mulheres na mesa ao lado. A dona do restaurante passava devagar entre as mesas, perguntando se estava tudo certo. Tudo estava certo demais, e isso me deixava estranhamente desconfortável. Quando o pudim chegou, a colher mergulhou fácil, e o caramelo escorreu pela borda feito promessa. Dei a primeira colherada e parei. — Meu Deus. Isso aqui cura qualquer trauma. — Ou te dá motivo pra viver mais um dia, só pra repetir. Comi devagar, sentindo o gosto doce contrastar com o salgado do almoço. Rita me observava de canto de olho. — VT gosta desse pudim também. — Rita. — Só tô dizendo. Se tu quiser presentear ele, é só comprar um desses e dizer que foi você que fez. Ele acredita. — Eu não vou cozinhar pra ele. — Não precisa. Mas cuidado pra não começar a fazer coisas assim sem perceber. Quando tu se pega querendo agradar, é porque já era. Olhei pela janela. O morro corria do lado de fora. O mesmo morro que, dias atrás, parecia estranho, agora me parecia familiar. Ou, pelo menos, menos distante. Como se já tivesse espaço pra mim, ainda que pequeno.
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