14. Ayla

1289 Palavras
O baile ainda estava vivo quando saímos. A batida forte do funk continuava ecoando pelas vielas do morro como se fosse o próprio coração da favela batendo sem parar, incansável, vivo. Lá dentro, o povo ainda dançava, gritava, suava, ria. Mas eu precisava de silêncio. De ar. De distância. Victor percebeu antes mesmo que eu dissesse. — Bora? — perguntou, baixinho, perto do meu ouvido. Saímos sem alarde. Ele me segurou pela mão no meio da multidão, como se aquilo já fosse natural, como se me conduzir fosse algo que ele fazia há anos. Ninguém olhou estranho. Ninguém comentou. Era como se a gente tivesse sempre andado assim: juntos, conectados, com os passos em sintonia. Do lado de fora, o ar estava mais fresco. A noite já tinha virado madrugada, e o céu, mesmo escondido entre fios e lajes, parecia mais limpo. As luzes do morro tremeluziam aqui e ali. A cidade inteira parecia mais lenta. Como se também estivesse cansada de viver tanto em tão pouco tempo. Caminhamos em silêncio por um tempo. — Você tá bem? — ele perguntou, depois de alguns minutos. — Tô. — murmurei. — Só... cheia. Da cabeça. Do corpo. De tudo. Ele assentiu. Não insistiu. Era bom nisso, entender os limites sem que eu precisasse erguer barreiras. De vez em quando, isso era mais assustador do que qualquer insistência. — Quer que eu te leve de moto? Tá logo ali, parada. — Não. Prefiro andar. Ainda não quero que acabe. — Então vamos andando. As ruas estavam vazias, mas não mortas. Um cachorro passou correndo, sumindo numa viela. Uma senhora varria a frente da casa, mesmo naquele horário. A TV alta de alguém ainda ligada dentro de um barraco. Era o tipo de vida que nunca dorme. E eu estava começando a entender por quê. Victor andava com as mãos nos bolsos, o boné virado pra trás, e aquele silêncio que ele usava como escudo. Mas não era incômodo. Era como o resto dele: sólido, presente, cheio de camadas. — Sobre o que você disse lá em cima... — falei, quebrando o silêncio. — Eu não queria te magoar. — Eu sei. — É só que... eu passei muito tempo me sentindo usada. Como se tudo em mim tivesse um preço. Meu corpo, meu tempo, minha imagem, meu sorriso. Ele não respondeu de imediato. Depois, falou com calma: — Aqui você não é produto. Aqui, cê é só... você. Loirinha marrenta, de língua afiada, que dança com ginga torta e tem o olhar de quem já viu o inferno. Ri, apesar de tudo. — Que elogio. — É. Eu sou ótimo nisso. Ficamos quietos de novo até avistar a casa da Dona Tereza. A luz da sala estava apagada, mas havia um filete de claridade vindo da cozinha. Ela devia ter deixado aceso pra mim. Ou talvez estivesse esperando, como fazia desde o primeiro dia. Parados diante da porta, eu hesitei. Não queria entrar. Não ainda. Tinha algo naquela madrugada que me prendia. Uma sensação de que se eu cruzasse aquela porta, voltaria a ser só Ayla. E não a mulher que estava se permitindo viver outra versão de si. Victor percebeu. — Quer que eu fique? Olhei pra ele. O olhar sério. A boca ainda marcada pelo beijo que trocamos horas antes. O corpo relaxado, mas pronto. Pronto pra qualquer coisa. Pra ficar. Pra ir embora. Pra respeitar. — Quero. — respondi. — Mas só por um minuto. Ele encostou no batente da porta. Eu sentei no degrau, abraçando os joelhos. Ficamos assim: ele em pé, eu sentada, os dois olhando pro céu quebrado por fios de eletricidade. — Boa noite, Loirinha. — Boa noite, Victor. Ele se virou devagar, mas antes de dar o primeiro passo, olhou por cima do ombro. — E se sonhar comigo... não foge. Tá? Fechei os olhos por um segundo, como quem respira uma promessa que não se quer fazer. E ele foi, devagar, deixando um rastro de algo que eu sabia que se tornaria encrenca. (…) Acordei com o som dos pássaros brigando na árvore em frente à janela da cozinha. Não era o barulho de Paris, nem de um hotel cinco estrelas, mas tinha algo reconfortante naquele caos matinal. Dona Tereza já estava de pé, como sempre, lavando roupa e cantarolando um pagode antigo. Me chamou para o café, me empurrou um pão com manteiga sem perguntar se eu queria, e avisou que hoje tinha reforço na ONG, porque ia chegar doação nova. Vesti minha calça larga preferida, uma camiseta branca que eu mesma lavei na noite anterior, e amarrei o cabelo do jeito mais prático possível. Passei um hidratante no rosto mais por hábito do que por vaidade. Desci a viela com uma garrafinha de água e o estômago meio embrulhado. Não sabia se era da bebida, da noite ou do beijo. Na entrada da ONG, Rita já estava encostada na parede, tomando refrigerante de garrafa de vidro como se fosse suco detox. Me olhou de cima a baixo, avaliando minha cara amassada. — Sobreviveu à primeira noite de baile. Tô orgulhosa. Cruzei os braços. — Engraçado você falar isso, considerando que me abandonou no meio da pista. Ela deu um sorriso torto, sem culpa nenhuma. — Loirinha, primeira regra do baile: quem dança bem demais atrai atenção. Eu vi de longe a cara do VT quando ele te puxou. Fiquei em silêncio por um instante. Ela arregalou os olhos, mais animada do que o necessário. — Eita. Rendeu. Eu sabia! Conta. — Não tem o que contar. — Tem sim. Tu tá com cara de quem dançou, beijou e agora tá fugindo das consequências. Revirei os olhos. — Ele me levou pra casa. Conversamos. Ele me respeitou. Eu disse que não tô pronta pra nada e ele aceitou. — VT respeitou. Isso é inédito. Alguém anota esse momento na história do morro. — Você fala como se ele fosse algum tipo de predador. — Nada disso. O Victor é o que é. Brabo, inteligente, querido, mas não é de perder tempo. E ele ficou grudado em você como chiclete no asfalto. Suspirei, me sentando no banco de madeira em frente ao pátio onde as crianças começavam a correr. — É que com ele eu não sinto que preciso fingir. E isso assusta. Porque ninguém nunca me enxergou sem querer algo em troca. E agora, quando alguém realmente me olha, eu fico esperando o golpe. — Talvez porque sua vida sempre foi feita de vitrine. Aqui ninguém quer vitrine. A gente quer gente. — Eu tô tentando. — Tá se saindo melhor do que pensa. Inclusive, o pessoal comentou da sua doação. Mas como ninguém sabe quem você é, acham que você é tipo herdeira misteriosa. Já tão dizendo que você é ex da Anitta ou filha de político foragido. — Perfeito. Melhor isso do que outra coisa. Rita se levantou, esticando os braços. — Vou ali organizar os brinquedos antes que as crianças desmontem o mundo. Você pega as caixas da doação, beleza? — Pode deixar. Antes de sair, ela me olhou de lado. — Só não deixa o medo te impedir de viver, Ayla. Às vezes o que a gente mais precisa é aquilo que mais assusta. E se o Victor te assusta, talvez seja porque ele te enxergou primeiro. Fiquei ali, com as palavras dela ecoando no peito. No pátio, os pequenos corriam com chinelos batendo no chão e risadas altas. Um deles me reconheceu e acenou. Sorri de volta. Sincera. Levantei, peguei a primeira caixa, e fui pro depósito com o coração um pouco mais leve. Ou, pelo menos, mais desperto. Porque o medo de ser vista ainda estava ali. Mas havia também a vontade de ser descoberta.
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