13. Ayla

908 Palavras
Eu já não era a garota desconfortável tentando dançar direito. E ele não era só o homem que todo mundo respeitava. A gente tava junto. Encaixado. A multidão se abria sem que a gente pedisse, o som parecia dançar junto com nossos corpos, e o mundo inteiro lá fora simplesmente... não existia. Victor me guiava com firmeza, mas sem pressão. Ele sabia quando me puxar, quando recuar, quando deixar o espaço pra eu ocupar. Às vezes ele só me olhava e eu já entendia o movimento. Era como se a gente falasse um idioma próprio, feito só de gestos, ritmo e olhar. Dançamos até as pernas doerem. — Agora cê vai ver o outro lado da quebrada. — ele disse, encostando a boca no meu ouvido por cima do som. — Como assim? Ele segurou minha mão e me puxou por entre a multidão, passando por um portão lateral que dava acesso à um espaço maior, porém menos movimentado, quase como uma área vip. Era uma laje grande, com vista pra pista inteira, cercada por corrimões de ferro e coberta com lona esticada. Lá em cima, a batida ainda era forte, mas menos esmagadora. Tinha luzes mais suaves, bebidas em copos de vidro, cadeiras de plástico espalhadas e um grupo menor de gente: os organizadores, os aliados, os amigos próximos. Os dele. Ninguém me questionou. Ninguém perguntou quem eu era. O olhar dele ao me puxar pela mão era suficiente pra me colocar ali. Parte daquele círculo. Parte daquela noite. Sentamos numa mesa no canto. Ele pediu dois copos e uma garrafa de alguma coisa forte, e serviu pra nós dois. O suor na testa dele brilhava sob a luz amarela. As mãos dele estavam firmes, mas os olhos tinham suavizado. Tinham aquela expressão de quem tinha baixado a guarda, ou tava tentando. — Tá viva aí, Loirinha? — Mais do que em muito tempo. Brindamos. Bebemos. Rimos. O tempo foi passando e a conversa ficou mais solta, mais fácil. Falamos de comida, de infância, de filmes, de coisas que eu nunca tinha feito, tipo: andar de ônibus lotado ou comer pipoca com leite condensado. Ele me contou histórias de quando era moleque e fugia da escola pra soltar pipa e acabava apanhando da Dona Jussara com vara de goiabeira. Eu ria de verdade. Não aquele riso de ensaio, o riso de "sorria pro fotógrafo". Era riso que saía sozinho, que aliviava. E num desses momentos, em que eu virei o rosto pra olhar a pista lá embaixo, ele me observava. Eu senti. Senti o peso do olhar dele no meu perfil, no meu pescoço, na minha boca. Quando virei pra encará-lo, ele já tava mais perto. A mão no encosto da minha cadeira. A respiração batendo no meu queixo. A voz veio baixa, quente: — Tô com vontade de te beijar desde o primeiro dia que tu me olhou na cozinha da minha tia. Eu sorri, o coração martelando. — Você acha que essa é a melhor cantada que tem? — Não. É só a mais honesta. E então ele se aproximou. Devagar, com intenção e como se me deixasse todo o tempo do mundo pra recuar. Mas eu não recuei. O beijo aconteceu como tudo com a gente: quente, cheio de energia, mas com cuidado. Ele me segurou pela cintura, eu encostei a mão no peito dele, e o mundo simplesmente calou. O som do baile virou plano de fundo, as vozes sumiram, e tudo o que existia era o gosto de bebida forte misturado com desejo antigo. Foi longo. Foi lento. Foi cheio de coisa que nenhum de nós sabia como dizer. Quando nos afastamos, os olhos dele ainda estavam ali: firmes, presentes, esperando minha reação. Eu respirei fundo. A garganta apertada. — Victor… — Fala, Loirinha. — Eu não tô pronta. — Pronta pra quê? — Ele não reagiu de cara. — Pra... isso. Pra alguém. Pra esperança. Pra se apegar. Tô tentando consertar partes minhas que ainda tão sangrando, mesmo quando parecem inteiras. Ele não respondeu. Só olhou. Longo. E então assentiu. — Tá. — Eu não quero te dar uma ideia errada. Não quero que ache que isso aqui vai virar alguma coisa agora. Não posso ser esse tipo de promessa pra ninguém. Ele encostou de novo na cadeira, passando a língua pelos lábios, como se ainda estivesse sentindo o gosto do beijo. — Tá tudo bem, Ayla. Primeira vez que ele disse meu nome inteiro. — Não vou te cobrar o que cê não tem pra dar. Só não tenta me empurrar pra longe fingindo que é pro meu bem. Se for se afastar, fala a real. — A real? — Que tá com medo. Que tá confusa. Que precisa de tempo. Mas não mente. Não some. Eu já perdi gente demais pra aceitar silêncio como resposta, tô indo limpo contigo, sei que ainda tá cedo então relaxa. Meu peito apertou. Ele não tava brincando agora. Não era o VT do sorriso debochado. Era o homem por trás do nome, do morro, da pose. O homem que também, no fundo, tava tentando não quebrar. Assenti. Ele se levantou. — Agora que cê já quebrou minha expectativa, bora dançar mais. Se for pra ficar com o coração batendo, que seja com o corpo mexendo junto. Sorri. Me levantei. E segui ele de volta pra multidão. Sem promessas, sem planos, mas com algo novo crescendo dentro de mim. Algo perigoso, lindo e real.
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