12. Ayla

1251 Palavras
A batida do funk explodia pelo chão, vibrando na sola dos pés. A fumaça da churrasqueira, o cheiro doce de bebida misturada com suor, os gritos abafados de quem se perdia na música; tudo parecia distante quando os olhos dele me encontraram. Victor. Fiquei parada por um segundo. O mundo inteiro seguiu dançando, gritando, vivendo ao redor, mas eu congelei. Não de medo. Não mais. Era algo diferente. Algo denso, vivo. Aquele olhar dele não era só um olhar, era uma promessa. Ou um aviso. Ele atravessou o baile devagar. Sem pressa. Como quem sabe que o tempo corre a favor dele. Enquanto ele vinha, outros cumprimentavam. Toques de mão, acenos, sorrisos. O respeito se espalhava feito sombra, abrindo espaço por onde passava. O DJ o mencionou no microfone — "salve pro homem do Rosário, o brabo, o VT" — e mesmo assim, ele não tirava os olhos de mim. De mim. Meu corpo já reagia antes da mente entender. As mãos tremiam levemente. O coração batia rápido. Mas o rosto? Firme. A postura? Erguida. Quando ele chegou perto, parou bem na minha frente. Tão perto que o calor da respiração dele encostou na minha clavícula. A boca quase encostava no meu ouvido quando ele falou, baixo, rouco, só pra mim: — Te achei e agora quero ver tu escapar. Arrepiei até a alma. Olhei pra ele de frente. Os olhos escuros brilhando sob a luz colorida. Ele usava uma camisa preta, aberta até o meio do peito, revelando a corrente de prata e a pele suada. Cheirava a perfume amadeirado com cigarro e rua. Um cheiro impossível de fingir. — Quem disse que eu tô fugindo? — respondi. — Então dança comigo. — Isso aqui não é salão de baile. Não tem valsa. — Melhor ainda. — ele estendeu a mão, não me dando escolha. — Aqui a gente dança com o corpo, não com o protocolo. Ele me virou com facilidade, encaixando o corpo no meu. Mãos firmes, mas respeitosas. A tensão entre nós era absurda. A cada movimento, a cada giro, a cada rebolado que eu fazia por instinto, ele acompanhava com controle absoluto. Como se estivesse lendo meus sinais sem que eu precisasse falar. Quando virei de frente, nossos rostos ficaram próximos demais. A boca dele a centímetros da minha. O olhar dele queimava. — Tu dança melhor do que eu esperava, Loirinha. — E você fala mais do que devia. — Eu só falo quando vale a pena. A música mudou. Uma mais lenta, mais carregada de grave, com letra cheia de duplo sentido. Ninguém ali dançava com vergonha. Corpos colados, mãos ousadas, olhos fechados. Ele não me tocou além da cintura. Mas o jeito que me olhava era pior - ou melhor. Meus quadris começaram a se mover com a música. E o dele seguiu. Um ritmo só. Uma provocação só. E então, no ápice da batida, ele se aproximou do meu ouvido e sussurrou, a voz tão baixa que parecia um segredo: — Sabe o que mais me impressiona? — O quê? — Que no meio de tanta mulher querendo atenção... a que mais chama meu olhar é justamente a que tá tentando se esconder. Fiquei muda. Porque eu nunca me senti tão exposta e tão... viva. Ele se afastou um pouco, ainda de frente pra mim, e sorriu de leve. — Quero água. — falei, com a voz rouca de tanto dançar. — Água? — ele me olhou com aquela sobrancelha arqueada, como se eu tivesse pedido champanhe francês no meio do baile funk. — Tem vodka, cerveja, energético, refrigerante barato com corante, catuaba, caipirinha de maracujá, mas você me pede água. — Se eu desmaiar de desidratação, vai perder a melhor parceira de dança da noite. Ele riu. Um riso de verdade, curto, satisfeito. — Tá. Vem comigo, Loirinha. Tem uma barraca ali na entrada que vende mineral gelada. Mas ó, sem agua com gás. — Não sou tão fresca assim. Fomos saindo devagar da muvuca. As luzes piscavam no ritmo da batida, e o povo continuava dançando como se o mundo fosse acabar naquela noite. Passamos por grupos de meninas se abanando, caras rindo alto, barracas improvisadas com caixas de isopor e copos plásticos empilhados. Ele andava com naturalidade entre todos. E todos notavam ele. Disfarçadamente ou não. Victor não precisava abrir caminho. O caminho se abria pra ele. Chegamos na barraca. Ele pediu duas águas, trocou um papo rápido com o vendedor, pegou as garrafinhas e me entregou uma. — Aqui. Hidratação é prioridade. Especialmente pra quem quer dançar até o fim. — Obrigada. — bebi com gosto. A água desceu como alívio. — Nunca pensei que ia achar água de barraca tão boa. Ficamos um tempo em silêncio, encostados num muro coberto de cartazes rasgados. O barulho do baile continuava ao fundo, mais abafado ali. Eu observava o céu, cortado por fios de luz e sombras de lajes. Ele, em silêncio, olhava pra rua como quem vigia um reino. — Já pensou em sair daqui? — perguntei, de repente. Ele virou o rosto pra mim. — Sair como? — Mudar. Ir embora. Viver uma vida... longe disso tudo. Sem responsabilidade. Sem ter que resolver briga de bêbado ou alimentar vinte bocas com promessas. — Todo dia. — respondeu, simples. — Mas aí lembro que, mesmo que eu vá, o morro vai comigo. Ele tá grudado em mim, feito cicatriz. Dei mais um gole na água. Ele se recostou mais no muro. — Quando eu tinha quinze anos, quase entrei pro tráfico naquela idade. — Sério? — Sério. Fui "convidado". Aquele tipo de convite que, se você recusa, vira alvo. Eu era rápido, observador. Sabia onde a polícia passava, quem devia pra quem, quem sumia e por quê. Os caras me queriam por perto. — E você? — Eu... queria comer. Queria tênis. Queria poder. Quando você cresce vendo tua mãe costurando até meia-noite pra pagar o gás, poder vira tentação. — E o que te fez recuar? Ele riu, olhando pro chão. — Minha mãe. Quando descobriu, me trancou dentro de casa por três meses. Sem rua, sem futebol, sem nada. Só Bíblia, tarefa da escola, depois me colocou pra vender geladinho na rua. Ela disse que, se eu tivesse coragem de sair, era pra sair com vergonha. — E funcionou? — Claro que não. — ele sorriu, irônico. — Olha onde eu tô hoje. Dono do morro. — Então tudo foi em vão? Ele parou. Me olhou. A expressão mudou. Mais sóbria. Mais funda. — Não. Porque ela não queria me impedir de crescer. Queria que eu escolhesse. E eu escolhi assim. À minha maneira. — E vale a pena? Silêncio. — Quando eu vejo moleque comendo porque a gente organizou uma cesta, vale. Quando eu impeço um enterro, vale. Quando eu ando aqui e ninguém abaixa a cabeça... vale. Mas às vezes... — ele passou a mão no rosto, devagar — às vezes pesa. Pra c*****o. Ficamos quietos por um tempo. Só os sons do baile ao longe. A respiração. O plástico da garrafinha rangendo sob meus dedos. — Obrigada por me fazer companhia. — murmurei. — Obrigado por vir. Eu pensei que você ia travar, correr. — Eu quase corri. Agora acho que quero dançar de novo. Ele sorriu, largo, aquele brilho malandro voltando aos olhos. — Então bora. Mas ó... agora quem puxa sou eu. Quero ver tu aguentar. — Me subestima mais uma vez e vai dançar sozinho. — Essa é a minha Loirinha.
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