11. Ayla

1285 Palavras
A varanda dos fundos da Dona Tereza era meu refúgio secreto. Era pequena, apertada, com duas cadeiras velhas de plástico e uma plantinha murcha numa lata de tinta reaproveitada. Mas dali, dava pra ver o céu quase inteiro. Um pedaço aberto entre telhados tortos e antenas de TV. Quando o sol começava a sumir, o azul ficava lilás, e a brisa trazia o cheiro da janta de alguma vizinha, geralmente arroz queimando ou alho fritando. Era a hora que o morro desacelerava. Sentei com uma xícara de chá nas mãos, os pés descalços encostando no chão frio. O dia tinha sido longo. Cansativo. Mas um tipo de cansaço diferente. Bom. Daqueles que vêm depois de fazer algo real. A porta da cozinha bateu lá dentro. Um passo pesado, conhecido. Voz abafada. Victor. — Tia? — chamou. — Dona Tê? Cadê a senhora? Não respondi. Fiquei quieta, só ouvindo. Os passos vieram em direção ao corredor e, em segundos, ele surgiu na porta da varanda. Parou quando me viu. Os olhos demoraram um segundo a reconhecer, outro pra reagir. — Ah... — ele disse, encostando no batente. — Era você que tava fazendo silêncio demais nessa casa. — E eu achando que aqui era o único canto livre de você. — respondi, sem olhar diretamente. Ele deu uma risadinha baixa. — Se quiser, eu volto depois. — A casa é da sua tia. Eu sou só hóspede. Você é o rei, lembra? — Rainha não precisa pedir permissão. — rebateu, e a frase pairou no ar. Silêncio. Ele deu dois passos lentos e sentou na outra cadeira de plástico, do meu lado, sem pedir. Se jogou ali como quem já fazia isso há anos, como se aquele pedaço do mundo também fosse dele. — Cadê ela? — perguntou, casual. — Foi levar uma sopa pra vizinha que tá com dengue. — Dona Tê sempre salvando o mundo com panela na mão. — Melhor que arma, né? Ele me olhou de lado. A provocação não passou despercebida. — Sempre com essa língua afiada, Loirinha. — E você sempre com esse apelido i****a. — Podia te chamar de amor, combina mais contigo. Virei o rosto devagar, encarando ele de verdade. O céu atrás dele já estava escuro, e os fios de luz da laje de cima piscavam com preguiça. — Você tá sempre prestando atenção demais em mim, VT. — E você sempre fingindo que não gosta disso. Silêncio de novo. Mas dessa vez, mais denso. Não desconfortável. Só... carregado. O cheiro de cigarro de alguém chegou até a varanda. Um cachorro latiu longe. A cidade viva demais lá fora. Mas aqui, era só a gente. Ele apoiou os cotovelos nos joelhos, olhando pro chão. A voz veio mais baixa agora. — Vi o que você tá fazendo na ONG. A grana, as ideias novas, os cadernos novos pras crianças, os uniformes. Ninguém tá falando muito, mas... todo mundo reparou. — Não faço pra repararem. — Eu sei. Por isso que é f**a. Fiquei quieta. Ele também, VT suspirou, se recostando na cadeira. — Sabe o que eu acho? — Não. Mas tenho certeza que vai me contar. — Que você tá começando a se encaixar aqui. Só não sabe se isso é bom ou perigoso. Eu sorri. Um sorriso pequeno. Triste, talvez. Porque ele estava certo. Era exatamente isso. Ele se levantou devagar, passando a mão pela nuca. Me olhou por cima do ombro. — Quando quiser conversar... ou fugir, ou só ouvir besteira... eu tô aí. Tô sempre aí. Cê já notou, né? E antes que eu pudesse responder, ele saiu. Sem fazer barulho. Sem esperar nada. Fiquei ali. Sozinha. Mas não me senti solitária. Me senti observada e não por um público. Por alguém. (…) — Você nunca foi num baile? — Rita me encarou como se eu tivesse dito que nunca tinha comido arroz com feijão. — Nunca. — Nem de rico? — Baile de rico não é baile. É evento de gente bonita fingindo que tá se divertindo. Ela riu alto, jogando a cabeça pra trás. — p**a que pariu, Aylinha… então hoje você vai viver. Era sexta à noite. A luz do morro piscava em tons quentes. O som grave já reverberava nas janelas como um coração gigante batendo ao longe. Era o tipo de noite em que tudo podia acontecer, e no fundo, parte de mim queria mesmo que acontecesse. Rita entrou no quarto com duas blusas e um short jeans. — Escolhe uma. A preta marca mais o corpo, a vermelha grita "tô viva". As duas servem em você. E o short é democrático. — Eu não vou chamar atenção com isso? — Vai. Mas é porque tá gostosa. E aqui, mulher gostosa chama atenção mesmo. Quer viver igual gente normal? Aguenta o calor. Não discuti. Me troquei ali mesmo, com a luz amarela do abajur jogando sombras nas paredes rachadas. Olhei meu reflexo na janela e quase não me reconheci. Sem maquiagem. Só brilho nos olhos. Cabelo preso num coque meio torto. Short colado. Blusa colada. Salto? Nenhum. Chinelo com glitter. E uma vontade absurda de me jogar no desconhecido. — Pronta? — Pronta. Descemos pela viela. O som ficava mais alto a cada passo. O chão tremia sob nossos pés. As pessoas já se aglomeravam no campinho improvisado, onde os postes m*l iluminavam as barracas de bebida, churrasquinho e gelo com corante. Vi meninas com roupas que eu nunca usaria nos meus desfiles e estavam lindas. Rindo, dançando, sem medo de mostrar o corpo, a pele, o suor. Vi homens dançando como se fossem feitos de música. Vi crianças correndo com refrigerante na mão. Vi a vida pulsando. Rita me puxou pela mão. — Se perder, me encontra perto da barraca do Neném. Ele vende vodka no saquinho. A melhor e a pior coisa que tu vai provar hoje. — Entendido. Entramos no meio do povo. O som era ensurdecedor. Baixo, batida, batida, batida. A voz do DJ era como trovão entre as nuvens. — Alô Rosáriooooo! Hoje o baile é das cria, das bandida, das braba! Se joga! E eles se jogaram. Literalmente. O chão virou pista, e o corpo virou expressão. No começo, fiquei travada. Cada vez que alguém esbarrava em mim, meu corpo encolhia. Um resquício do mundo engomado de onde vim. Mas Rita apareceu do nada e começou a dançar do meu lado como se ninguém estivesse olhando. — Mexe, Ayla! O mundo já te apertou demais. Agora solta! E eu soltei. Primeiro o quadril, depois os ombros. Depois, a cintura. Era desajeitado, sim. Eu me sentia um pouco ridícula. Mas ao mesmo tempo... livre. Ninguém ali sabia quem eu era. Ninguém esperava nada. Eu podia errar os passos, rir alto, suar, gritar. E eu dancei. Dancei até perder a noção de tempo. Até o som virar parte do meu corpo. Até minha blusa colar na pele e meus pés doerem. Até minha cabeça esquecer de pesar. Em um momento, Rita sumiu na multidão. Fiquei sozinha no meio do povo. E não tive medo. Senti olhos em mim, claro. Comentários, olhares curiosos. Mas nenhum "você não pertence aqui". Nenhum julgamento. Eu era só mais uma entre os corpos. E então, no meio da fumaça da barraca de churrasco, eu o vi. VT. Camisa aberta, corrente no pescoço, boné baixo, e aquele jeito de quem não precisa fazer nada pra dominar o espaço. Ele me viu também. E, por um segundo, o baile inteiro pareceu desacelerar. O som continuava, mas minha respiração ficou presa no peito. Ele não sorriu. Não brincou. Só me olhou, como quem encontra algo inesperado no meio do caos. Como quem vê uma parte da cidade onde nunca imaginou encontrar... eu.
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