Os garotos da "tropa" já tinham comido como se estivessem em um rodízio e agora estavam largados pela casa. Um deitado no sofá com a barriga pra cima, outro jogando dominó com Júnior na varanda, e o último já tirando um cochilo de boca aberta na cadeira da área.
Dona Tereza limpava o balcão com energia, resmungando palavrão atrás de palavrão em tom baixo, mas com um leve sorriso nos olhos. Eu secava as mãos depois de pegar mais um copo d'água quando senti a presença dele se aproximando.
VT.
Parou ao meu lado com um copo de suco na mão e um sorriso entalado nos lábios.
— Valeu aí por não enfiar um garfo nos meus amigos. Eles são folgados, mas têm bom coração. Tá escondido lá no fundo, tipo pepita de ouro em lama.
— Eles são engraçados. — respondi, sem olhar muito. — Barulhentos, mas humanos.
Ele ficou em silêncio por um segundo, depois deu um gole no suco.
— Tu fala como quem não vê muito humano por aí.
— É que não vejo mesmo. — falei, me encostando na pia. — Pelo menos não do tipo que é de verdade.
Ele me olhou por um tempo que pareceu longo demais.
— Tu tem um jeitão difícil, sabia?
— E você tem um jeitão convencido. Empatamos.
Ele riu, aquele riso aberto, sem medo de soar alto.
— Tá ficando esperta, hein?
VT me analisou como se estivesse vendo alguma coisa pela primeira vez. A cabeça levemente inclinada, os olhos escuros apertados num foco preguiçoso, mas afiado.
— Tá se soltando, Loirinha.
— Loirinha? — Eu franzi a testa.
— É. Tu é loira, ué. Vou te chamar como?
— Pelo meu nome, talvez?
— Nah. Ayla é nome de mulher de propaganda de perfume. Loirinha combina mais contigo aqui. Mistura de patricinha com sobrevivente.
— Isso não é um elogio.
— Não disse que era. — ele respondeu com um meio sorriso. — Mas também não é ofensa. É identidade.
Rolei os olhos e tentei sair de perto, mas ele me puxou pelo braço: leve, sem força, só o suficiente pra me fazer parar.
— Relaxa, Loirinha. Eu pego no teu pé, mas é porque gosto de ver tu sair do salto. Teu olhar muda. Fica mais vivo.
— Você fala com todo mundo assim?
— Só com quem vale a pena.
O silêncio caiu entre nós por alguns segundos. Ele não me soltou logo. A mão dele era quente. Firme. E havia alguma coisa nos olhos dele que parecia menos zombaria, mais atenção.
Mas, como sempre, ele quebrou o momento com um comentário.
— Agora, se tu quiser que eu pare de chamar de Loirinha, vai ter que me convencer com algo mais forte do que cara emburrada.
— Tipo?
— Sei lá. Um beijo talvez. — falou com um sorriso torto, mas sem se aproximar. Eu só ri, curta, seca.
— Sonha.
— Todo dia. E agora, com hora marcada.
Ele me soltou devagar. Voltou a se afastar com aquele andar leve, de quem tem o mundo sob controle. Mas antes de sair, se virou por cima do ombro e falou:
— Tu pode correr, Loirinha. Mas eu corro também. E conheço todas as vielas.
E sumiu na varanda.
Fiquei ali por alguns segundos, o coração batendo estranho no peito. Não era medo. Nem exatamente desejo. Era só o desconforto de estar sendo vista, de verdade.
E, pior, de talvez estar começando a gostar disso.
(…)
Os dias passaram de um jeito estranho. Sem agenda, sem hora marcada, sem stylist me dizendo que batom usar. No começo, foi como andar sem salto depois de anos em cima dele, desequilibrado, incômodo. Mas depois começou a ser libertador.
Descobri que a água aqui acaba às vezes, mas volta. Que o gás vaza se a borracha tiver velha. Que tem formiga na pia de manhã, e que o pão que a Dona Tereza compra no mercadinho da subida é melhor que qualquer croissant de Paris. E, principalmente, descobri que tem beleza no que não é feito pra vender.
Comecei a ir até a ONG todos os dias. No início, só observando. Depois, ajudando com tarefas pequenas, carregar caixas, pintar uma parede, cuidar das crianças por meia hora. Me ofereceram para fazer ensaios de foto com elas, mas recusei. Não queria virar pauta. Só queria ser útil.
Então, abri a conta bancária, que até então parecia mais um cofre de outro mundo e fiz algo que ninguém esperava de mim: doei. Muito.
Sem meu nome na placa, sem minha foto no jornal, sem minha cara estampada como "musa da solidariedade". Só transferi. Com uma mensagem curta: "Pra construir, não pra aparecer."
O coordenador do projeto chorou. Dona Tereza me abraçou forte. Até Júnior, que sempre zombava de tudo, ficou sério por um segundo.
E naquele dia, percebi: eu nunca tinha sentido orgulho de usar meu dinheiro. Nunca. Só culpa, ou obrigação.
Depois disso, fui comprar roupas novas. Não que eu precisasse, mas as roupas que eu tinha aqui eram "emprestadas" da Dona Tê e doações de gente que me confundia com uma mochileira perdida.
Fui numa loja simples do asfalto. Peguei calças larguinhas, regatas de algodão, sandálias. Escolhi cores claras, tecidos leves. Ainda tinha bom gosto, claro. Mas agora, eu vestia pra mim.
E foi nesse processo todo que conheci Rita.
Rita era voluntária na ONG, tinha uns vinte e seis anos, duas filhas pequenas e um cabelo ruivo desbotado sempre preso em um coque bagunçado. Ela falava alto, ria alto e vivia perguntando onde eu tinha aprendido a "andar igual estátua".
— Cê pisa como quem tem medo do chão, Loirinha. Aqui a gente pisa como quem manda.
E por algum motivo... eu deixei ela ficar.
A gente começou a conversar depois de um dia em que eu quase desmaiei carregando um saco de brinquedos. Ela riu da minha cara, me deu água de coco e disse:
— Tu tem grana, né? Mas não tem resistência pra carregar um pacote de arroz. Isso é que dá ser boneca de vitrine.
Eu devia ter me ofendido. Mas não consegui. Porque ela dizia as coisas rindo, e com uma naturalidade que me fazia sentir parte de algo.
Com ela, comecei a relaxar. A falar mais. A rir de besteira. A aprender gírias que eu ouvia, mas nunca entendia. E quando ela descobriu que eu sabia cozinhar risoto, jurou que eu tinha inventado essa palavra só pra me exibir.
— Risoto? Isso existe mesmo ou é nome de shampoo caro?
— É arroz cremoso com frescura.
— Então é arroz empapado de rico? Ah! Agora entendi.
Ela foi minha primeira amiga de verdade em muito tempo. Não porque ela queria algo de mim, mas porque gostava de mim. Ou da versão de mim que eu tava descobrindo.
A Loirinha que não precisava de palco pra existir.
A que falava com as crianças como gente. Que ficava de short e camiseta, com o cabelo preso num coque torto. Que dançava funk com os pequenos e depois lia livro de poesia escondida na escadaria.
E, no fundo, a Ayla que sentia que não estava mais sobrevivendo, mas vivendo.