O silêncio que veio depois não foi vazio.
Era denso, confortável, cheio de respiração desacelerando e do peso bom de dois corpos que tinham se encontrado sem pressa. Eu tava encaixada nele, costas contra o peito dele, sentindo o subir e descer lento da respiração, o braço firme me envolvendo como se fosse hábito antigo.
Fiquei alguns segundos só ali, ouvindo a cidade distante, o plástico do pacote de salgadinho mexendo quando o vento da janela entrava.
Foi ele quem falou primeiro.
— Ayla... — a voz saiu baixa, sem pressa. — A gente precisa alinhar uma coisa.
Não teve tensão. Não teve medo na frase. Teve responsabilidade. Eu virei um pouco o rosto, apoiando a bochecha no braço dele.
— Eu pensei nisso também.
Ele respirou fundo, como quem escolhe palavra com cuidado.
— Eu não fico com ninguém sem camisinha. Nunca fiquei. — disse. — E eu faço exame com frequência. Não brinco com isso.
Aquilo me relaxou de um jeito silencioso.
— Eu tomo anticoncepcional. — respondi, simples. — Certinho. Já faz anos.
Ele assentiu devagar, processando.
— Tu confia nele?
— Confio. — falei. — E eu confio em mim.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, a mão dele fazendo um carinho distraído no meu braço, gesto pequeno, automático.
— Então tá. — ele disse. — Mas se em algum momento tu quiser mudar isso... a gente muda. Sem drama.
Meu peito apertou num lugar bom.
— Obrigada por falar disso assim. — murmurei. — Sem clima estranho.
Ele deu um meio riso, encostando o queixo no meu ombro.
— Estranho é fingir que não existe consequência. — falou. — Eu posso ser muita coisa, mas irresponsável não é uma delas.
Eu fechei os olhos por um instante, absorvendo aquilo.
— Você cuida. — eu disse, mais pra mim do que pra ele.
— Do que importa. — respondeu.
Ficamos quietos de novo. Não aquele silêncio constrangedor que pede fuga, mas o que deixa espaço pra pensamento leve. Eu senti o corpo inteiro solto, sem aquela vigilância antiga que sempre vinha depois de i********e.
— Sabe o que é estranho? — eu falei de repente.
— Hm?
— Eu não tô com medo agora. — confessei. — Nem do corpo. Nem do depois.
Ele apertou o braço em volta de mim só um pouco mais.
— Então fica aí. — disse. — Sem pensar demais.
Eu sorri, mordendo o lábio de leve, ainda naquele estado meio adolescente de quem acabou de descobrir que pode gostar sem se punir por isso.
— Você sabe que isso aqui — eu comecei, escolhendo cuidado — tá ficando sério.
Ele não respondeu na hora. Não desviou. Não brincou.
— Eu sei. — disse por fim. — E não tô fingindo que não tá.
Meu coração deu um salto pequeno, controlado, mas real.
— A gente não precisa dar nome agora. — ele continuou. — Nem prometer nada hoje. Só... ser honesto enquanto acontece.
Eu virei mais um pouco, ficando de frente pra ele, o rosto perto do dele.
— Isso é tudo que eu sei fazer no momento.
— Então é suficiente. — ele respondeu.
Eu encostei a testa na dele, respirando o mesmo ar, sentindo o mundo pequeno o bastante pra caber naquele sofá.
Lá fora, a cidade seguia. Aqui dentro, nada precisava correr.
Victor levantou, arrumou a calça e pegou o celular dele, dizendo que ia pedir pizza. Depois ficou olhando a tela como se fosse um bicho de sete cabeças.
— Como vou escolher uma se eu gosto de todas?
Eu comecei a rir antes mesmo de ele terminar a frase.
— Você tá falando sério?
Victor que tava em pé no meio da sala, celular na mão, olhando a tela com aquela concentração exagerada de quem leva missão simples a sério demais.
— Muito. — respondeu. — Escolher pizza é responsabilidade grande.
— Você literalmente controla um morro inteiro. — eu provoquei, sentando melhor no sofá. — Mas fica tenso com cardápio?
— Não misturo as coisas. — disse, sério demais pra ser verdade. — Cada guerra no seu território.
Eu gargalhei, jogando a cabeça pra trás.
— Meu Deus, Victor.
Ele levantou o olhar do celular e sorriu daquele jeito satisfeito que só aparecia quando conseguia me tirar uma risada solta.
— Ri mesmo. — falou. — Eu gosto quando tu ri assim.
— Assim como?
— Sem pensar. — respondeu. — Sem pedir desculpa.
Meu peito deu aquele apertinho bobo.
— Então pede logo essa pizza antes que eu mude de ideia.
— Já tô pedindo. — ele disse. — Metade queijo, metade qualquer coisa que tu escolher.
— Calabresa.
— Clássica. — ele aprovou. — Mulher de bom gosto.
Quando a pizza chegou, a gente comeu direto da caixa, sentados no chão da sala, encostados no sofá. Refrigerante gelado, guardanapo improvisado, dedo sujo de molho. Zero elegância. Zero performance.
E tudo isso me deixou absurdamente feliz.
— Isso aqui tá muito errado. — eu falei, limpando a boca com o dorso da mão.
— O quê? — ele perguntou.
— Eu deveria estar pensando em mil coisas. — respondi. — Mas só consigo pensar que essa pizza tá perfeita.
— Então tá tudo certo. — ele deu de ombros.
Depois da terceira fatia, eu já tava meio largada, encostando nele sem perceber. Victor recolheu a caixa, jogou fora, voltou limpando as mãos na calça.
— Vem. — ele disse, estendendo a mão. — Vamos ver filme no quarto. A sala dá muito eco.
— Eco de quê? — provoquei.
— De pensamento. — ele respondeu. — E hoje eu quero silêncio.
Eu aceitei a mão sem pensar.
O quarto dele tava com a luz baixa, cortina fechada, ar mais fresco. Ele escolheu um filme qualquer, daqueles que a gente mais ouve do que assiste, e deitou comigo na cama, puxando o edredom.
Eu me encaixei de lado, cabeça no peito dele, uma perna jogada por cima sem cerimônia.
— Você sempre é assim depois de comer? — perguntei, sonolenta.
— Assim como?
— Quieto. — falei. — Doméstico.
Ele riu baixo, passando a mão no meu cabelo.
— Só com quem fica.
A frase não veio como promessa. Veio como constatação.
O filme seguia, mas em algum momento eu parei de acompanhar. Fiquei só ali, sentindo o ritmo dele, o conforto daquele espaço que não exigia nada de mim além de estar.
E, enquanto a tela piscava cenas que eu não registrava, eu pensei, com uma calma que nunca tinha conhecido: talvez o amor não fosse um incêndio.
Talvez fosse isso.
Pizza fria.
Filme de fundo.
E alguém que fica.