44. Ayla

1108 Palavras
O silêncio que veio depois não foi vazio. Era denso, confortável, cheio de respiração desacelerando e do peso bom de dois corpos que tinham se encontrado sem pressa. Eu tava encaixada nele, costas contra o peito dele, sentindo o subir e descer lento da respiração, o braço firme me envolvendo como se fosse hábito antigo. Fiquei alguns segundos só ali, ouvindo a cidade distante, o plástico do pacote de salgadinho mexendo quando o vento da janela entrava. Foi ele quem falou primeiro. — Ayla... — a voz saiu baixa, sem pressa. — A gente precisa alinhar uma coisa. Não teve tensão. Não teve medo na frase. Teve responsabilidade. Eu virei um pouco o rosto, apoiando a bochecha no braço dele. — Eu pensei nisso também. Ele respirou fundo, como quem escolhe palavra com cuidado. — Eu não fico com ninguém sem camisinha. Nunca fiquei. — disse. — E eu faço exame com frequência. Não brinco com isso. Aquilo me relaxou de um jeito silencioso. — Eu tomo anticoncepcional. — respondi, simples. — Certinho. Já faz anos. Ele assentiu devagar, processando. — Tu confia nele? — Confio. — falei. — E eu confio em mim. Ele ficou em silêncio por alguns segundos, a mão dele fazendo um carinho distraído no meu braço, gesto pequeno, automático. — Então tá. — ele disse. — Mas se em algum momento tu quiser mudar isso... a gente muda. Sem drama. Meu peito apertou num lugar bom. — Obrigada por falar disso assim. — murmurei. — Sem clima estranho. Ele deu um meio riso, encostando o queixo no meu ombro. — Estranho é fingir que não existe consequência. — falou. — Eu posso ser muita coisa, mas irresponsável não é uma delas. Eu fechei os olhos por um instante, absorvendo aquilo. — Você cuida. — eu disse, mais pra mim do que pra ele. — Do que importa. — respondeu. Ficamos quietos de novo. Não aquele silêncio constrangedor que pede fuga, mas o que deixa espaço pra pensamento leve. Eu senti o corpo inteiro solto, sem aquela vigilância antiga que sempre vinha depois de i********e. — Sabe o que é estranho? — eu falei de repente. — Hm? — Eu não tô com medo agora. — confessei. — Nem do corpo. Nem do depois. Ele apertou o braço em volta de mim só um pouco mais. — Então fica aí. — disse. — Sem pensar demais. Eu sorri, mordendo o lábio de leve, ainda naquele estado meio adolescente de quem acabou de descobrir que pode gostar sem se punir por isso. — Você sabe que isso aqui — eu comecei, escolhendo cuidado — tá ficando sério. Ele não respondeu na hora. Não desviou. Não brincou. — Eu sei. — disse por fim. — E não tô fingindo que não tá. Meu coração deu um salto pequeno, controlado, mas real. — A gente não precisa dar nome agora. — ele continuou. — Nem prometer nada hoje. Só... ser honesto enquanto acontece. Eu virei mais um pouco, ficando de frente pra ele, o rosto perto do dele. — Isso é tudo que eu sei fazer no momento. — Então é suficiente. — ele respondeu. Eu encostei a testa na dele, respirando o mesmo ar, sentindo o mundo pequeno o bastante pra caber naquele sofá. Lá fora, a cidade seguia. Aqui dentro, nada precisava correr. Victor levantou, arrumou a calça e pegou o celular dele, dizendo que ia pedir pizza. Depois ficou olhando a tela como se fosse um bicho de sete cabeças. — Como vou escolher uma se eu gosto de todas? Eu comecei a rir antes mesmo de ele terminar a frase. — Você tá falando sério? Victor que tava em pé no meio da sala, celular na mão, olhando a tela com aquela concentração exagerada de quem leva missão simples a sério demais. — Muito. — respondeu. — Escolher pizza é responsabilidade grande. — Você literalmente controla um morro inteiro. — eu provoquei, sentando melhor no sofá. — Mas fica tenso com cardápio? — Não misturo as coisas. — disse, sério demais pra ser verdade. — Cada guerra no seu território. Eu gargalhei, jogando a cabeça pra trás. — Meu Deus, Victor. Ele levantou o olhar do celular e sorriu daquele jeito satisfeito que só aparecia quando conseguia me tirar uma risada solta. — Ri mesmo. — falou. — Eu gosto quando tu ri assim. — Assim como? — Sem pensar. — respondeu. — Sem pedir desculpa. Meu peito deu aquele apertinho bobo. — Então pede logo essa pizza antes que eu mude de ideia. — Já tô pedindo. — ele disse. — Metade queijo, metade qualquer coisa que tu escolher. — Calabresa. — Clássica. — ele aprovou. — Mulher de bom gosto. Quando a pizza chegou, a gente comeu direto da caixa, sentados no chão da sala, encostados no sofá. Refrigerante gelado, guardanapo improvisado, dedo sujo de molho. Zero elegância. Zero performance. E tudo isso me deixou absurdamente feliz. — Isso aqui tá muito errado. — eu falei, limpando a boca com o dorso da mão. — O quê? — ele perguntou. — Eu deveria estar pensando em mil coisas. — respondi. — Mas só consigo pensar que essa pizza tá perfeita. — Então tá tudo certo. — ele deu de ombros. Depois da terceira fatia, eu já tava meio largada, encostando nele sem perceber. Victor recolheu a caixa, jogou fora, voltou limpando as mãos na calça. — Vem. — ele disse, estendendo a mão. — Vamos ver filme no quarto. A sala dá muito eco. — Eco de quê? — provoquei. — De pensamento. — ele respondeu. — E hoje eu quero silêncio. Eu aceitei a mão sem pensar. O quarto dele tava com a luz baixa, cortina fechada, ar mais fresco. Ele escolheu um filme qualquer, daqueles que a gente mais ouve do que assiste, e deitou comigo na cama, puxando o edredom. Eu me encaixei de lado, cabeça no peito dele, uma perna jogada por cima sem cerimônia. — Você sempre é assim depois de comer? — perguntei, sonolenta. — Assim como? — Quieto. — falei. — Doméstico. Ele riu baixo, passando a mão no meu cabelo. — Só com quem fica. A frase não veio como promessa. Veio como constatação. O filme seguia, mas em algum momento eu parei de acompanhar. Fiquei só ali, sentindo o ritmo dele, o conforto daquele espaço que não exigia nada de mim além de estar. E, enquanto a tela piscava cenas que eu não registrava, eu pensei, com uma calma que nunca tinha conhecido: talvez o amor não fosse um incêndio. Talvez fosse isso. Pizza fria. Filme de fundo. E alguém que fica.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR