Ainda estávamos rodando pelas vielas quando ele virou bruscamente a moto numa curva apertada e estacionou em frente a um boteco barulhento. Era um bar improvisado, de canto, com uma placa meio caída escrita à mão: "Bar do Riba – fiado só com atestado de óbito."
Dois homens discutiam alto perto da porta. Os copos de cerveja já virados, a voz arrastada, o corpo em tensão. Era aquela briga típica de quem bebe demais e esquece por quê começou. Mas tinha algo estranho no ar, um cheiro de confronto prestes a virar tragédia.
VT desligou a moto. O corpo dele, antes relaxado, agora era outro. Os ombros ficaram mais retos. A expressão, tensa. O sorriso sumiu como se nunca tivesse existido.
— Fica aqui. — disse, seco.
Antes que eu pudesse responder, ele já tinha descido. As pessoas ao redor começaram a perceber. O ambiente, segundos antes caótico, foi se acalmando como se o próprio vento tivesse parado. Um homem na mesa próxima sussurrou algo que não entendi. E então ouvi:
— O VT chegou.
Como se uma figura mítica tivesse aparecido no meio da confusão.
Ele atravessou a calçada como quem pisa em chão conhecido. Sem pressa, mas com firmeza. Chegou perto dos dois homens que quase se empurravam, e sua voz cortou o barulho como uma lâmina:
— Ô, ô, ô... que p***a é essa aqui?
Um deles, o mais alto, virou de lado, trôpego.
— Nada, VT. É que esse filho da p**a aqui
— Baixa o tom. — VT interrompeu, a voz ainda controlada, mas carregada de ameaça. — Aqui ninguém resolve gritando. Aqui é no papo. E no respeito.
— Ele mexeu com minha mulher, p***a! — o outro respondeu, cuspindo raiva e saliva.
VT encarou os dois como quem pesa a alma.
— E vocês acham que vão resolver isso aqui? No bar da Tia Fátima? Do lado das crianças que tão jogando bola ali embaixo?
Silêncio.
— Vocês acham que eu ralo, levanto esse morro, protejo esse povo... pra vocês pagarem de valentão com cachaça barata?
Ninguém respondeu.
Ele se aproximou do mais exaltado e falou baixo, mas audível.
— Se tu quer se mostrar, vai pro asfalto. Aqui não. Aqui tem mãe passando com filho no colo, gente almoçando com o que tem, trabalhador voltando do batente. Tu quer arrumar confusão, arruma em outro lugar. Porque se levantar a mão aqui de novo, a quebrada vira as costas pra tu. E sem o morro, tu não é ninguém.
O homem abaixou os olhos. VT deu um passo pra trás e olhou ao redor.
— Mais alguém quer bancar o valentão hoje?
Só silêncio. Um passarinho cantou em algum canto, como se confirmasse a paz restaurada.
— Então vaza. Os dois.
Os homens saíram em direções opostas, calados. Sem olhar pra trás.
VT virou para a dona do bar: uma senhora miúda, de chinelo e olhos cansados e tocou de leve no ombro dela.
— Qualquer coisa, me chama. A senhora não merece esse tipo de cena.
Ela assentiu, tocada e só então, ele voltou pra mim. Mas não era o mesmo homem que me deu algodão doce. Era outro. Um que carregava nos olhos o peso de ser o nome que acalma o caos.
Quando subiu na moto, sua mão ainda tremia levemente, apesar da expressão firme. Antes de ligar, ele olhou pra mim.
— Tá tudo bem? — perguntou.
Eu não sabia o que responder. Porque naquele momento, entre medo e fascínio, percebi:
Victor, o VT, era mais que carisma e sorriso largo.
Eu subi de volta na moto sem dizer uma palavra.
VT não perguntou nada, e eu agradeci em silêncio por isso. Ele apenas ligou o motor com um giro seco e arrancou, sem pressa. A moto descia agora, serpenteando pelas ladeiras do morro, e o vento que antes parecia liberdade agora soava mais como um aviso.
O cheiro de churrasquinho na esquina, o som abafado de um funk vindo de uma laje próxima, as vozes de crianças jogando bola num campinho improvisado, tudo parecia normal. Mas dentro de mim, alguma coisa tinha mudado.
Eu tinha visto o outro lado dele.
A face sem sorriso. A postura firme. A ameaça velada que fez homens adultos baixarem a cabeça como garotos levados. E por mais que eu soubesse que ele não era um monstro - nem de longe - havia algo naquele controle que me lembrava um tipo diferente de poder.
Um poder que eu conhecia muito bem.
O tipo que veste afeto por cima da autoridade. O tipo que sorri enquanto dita regras. O tipo que protege, mas que também sabe o que acontece quando alguém desobedece.
E aquilo me assustou.
Não porque ele me ameaçou. VT não me fez nada. Nem sequer levantou a voz comigo. Mas ver como ele mudava, como assumia aquela posição de comando com tanta naturalidade, me fez lembrar que eu não estava no meu mundo. Que ali, quem mandava era ele. E que, apesar do jeito leve, ele era alguém que podia fazer o morro inteiro se calar.
A mão dele estava quente no guidão, firme, segura. Eu poderia encostar. Me apoiar de novo como antes. Mas não fiz. Me mantive reta. Fria.
Quando chegamos na frente da casa da Dona Tereza, ele desligou a moto e virou o rosto pra mim.
— Tá tudo certo?
Assenti, sem olhar diretamente.
— Foi demais pra hoje?
— Não. — minha voz saiu baixa. — Só... é muita coisa. Tô cansada.
Ele me observou por alguns segundos. Os olhos de VT não eram burros. Ele via mais do que eu gostaria que visse. Mas não insistiu.
— Descansa então. A quebrada não vai sair do lugar.
Desci da moto, evitando contato físico. Peguei meu boné, agradeci com um aceno breve, e entrei. Senti o olhar dele me acompanhando até a porta. E me perguntei se ele tinha entendido, que não era sobre ele. Era sobre mim. Sobre meu instinto de defesa. Sobre o que a vida me ensinou: quando o ambiente muda, se fecha. Quando um homem mostra o poder que tem, observe primeiro. Confie depois.
Fechei a porta atrás de mim.
O coração ainda batia forte.
A Dona Tereza olhou por cima do ombro da pia.
— Correu do passeio, é?
— Só cansei. — respondi, indo direto pro quarto.
Deitei na cama e fiquei ali, imóvel, sentindo o suor secar na pele, a cabeça pulsar, e a memória martelar a cena no bar. Não sabia se estava com medo dele. Mas sabia que estava com medo do que aquilo despertava em mim.