4. Ayla

1078 Palavras
A mesa já estava ficando vazia quando VT puxou uma cadeira ao meu lado. Estávamos só nós dois agora. Dona Tereza lavava a louça cantarolando, e Marta e Júnior tinham saído com sacolas e risadas em volume alto. O calor da manhã era pesado, mas não sufocante. E havia algo nele que fazia tudo parecer mais leve, mesmo quando a gente sabia que não era. Ele bateu de leve na borda da mesa com os dedos e me encarou com um sorrisinho enviesado. — Tu falou que chegou ontem, né? — Uhum. — E já comeu cuscuz, bolo, ficou presa no banheiro e sobreviveu. Tá pronta pra segunda fase. — Segunda fase? Ele se esticou na cadeira e apoiou os braços atrás da nuca. — Um tour guiado pelo território mais bonito e mais esquecido dessa cidade: o Morro do Rosário. Cuidado, é meio bagunçado, mas tem coração. — Você sempre oferece passeios pra hóspedes da sua tia? — perguntei, tentando esconder o sorriso. — Só pras que comem mais que falam. — Ele piscou. — Isso mostra caráter. Deveria rir, ou retrucar, mas algo no tom dele me fez congelar por dentro não de medo, mas de uma estranha antecipação. Ele falava com uma naturalidade que escondia poder. Carisma. Presença. VT não era só um cara simpático. Ele era o cara. Era o tipo de homem que entrava num lugar e o lugar mudava de temperatura. — E você conhece tudo daqui, é isso? Ele se inclinou pra frente, os olhos vivos presos nos meus. — Conheço cada viela, cada gato, cada senhora que grita na janela, cada criança que brinca de bola no esgoto sem medo. Sei quem chora sem fazer barulho. Sei quem canta pra esquecer. Sei quem chega, quem some, e quem nunca vai embora. Esse morro é meu sem papel assinado. Eu sou dele. E ele é meu. Aquilo me atravessou. Ele não falava como quem se achava dono de algo. Ele falava como quem era parte daquilo tudo. Como se o morro vivesse nele do mesmo jeito que ele vivia no morro. — Então você é tipo o prefeito informal daqui? Ele deu uma risada gostosa. — Eu prefiro "embaixador do caos com propósito". Mas tem gente que chama de dono, sim. — E você aceita isso? — Não aceitei. Conquistei. Mas te explico melhor no caminho. Vem. Te mostro onde o céu toca as casas tortas. Eu hesitei. Não porque desconfiava dele, mas porque eu sabia que, se fosse, ia começar uma mudança que eu talvez não pudesse parar. Mesmo assim, levantei. Peguei meu boné, prendi o cabelo num coque, ajeitei a camiseta larga que Dona Tereza tinha me emprestado, e o segui porta afora. Nunca imaginei que meu primeiro passeio em uma favela fosse em cima de uma moto, sem capacete, agarrada na cintura de um homem que conheci naquela manhã, com o vento batendo no meu rosto como se me dissesse: "acorda, você tá viva." VT ligou a moto com um sorriso provocador nos lábios. — Confia em mim? — ele perguntou, virando o rosto por cima do ombro. — Não. — respondi, subindo mesmo assim. — Mas quero ver até onde vai essa loucura. Ele riu alto, deu partida e a moto arrancou pela ladeira com um ronco macio. Era uma moto preta, reluzente, com detalhes cromados e bancos de couro. Não era uma moto qualquer. Era moto de quem podia escolher qualquer carro, mas preferia sentir o chão vibrando debaixo dos pés. O morro se descortinava à nossa frente em cores, sons e cheiros. Passamos por becos estreitos com paredes grafitadas, varais com roupas coloridas, crianças brincando de bola, cachorros de rua dormindo no canto das escadas. Cada canto parecia saber o nome de VT. — E aí, VT! — Fala comigo, chefe! — VT, me dá uma força aí, meu tio tá precisando de ajuda! E ele respondia todos. Um aceno, uma piada, um "deixa comigo", um "vou ver isso". Era impossível não notar o magnetismo que ele carregava. Não era só respeito, era carinho. As pessoas gostavam dele. Não porque ele mandava, mas porque ele cuidava. E isso, no fim das contas, era poder de verdade. A certa altura, VT parou a moto perto de uma barraquinha pequena, improvisada, feita de madeira e tecido desbotado. — Desce aí rapidinho. — disse ele, tirando uma nota do bolso e chamando um grupo de crianças com um assovio alto. — Hoje é dia de algodão doce. Pega pra todo mundo, mas só quem prometer que vai dividir com os menores, hein? — Valeu, VT! Tu é brabo! — gritou um garoto de uns dez anos, os olhos brilhando ao ver a nota de cinquenta. — Nada de sair correndo com o troco, hein? — ele gritou, e todos riram. Acompanhei a cena com um sorriso. Foi quando senti. O cheiro. Doce, quente, familiar. Açúcar queimado no ponto certo. Algo que eu não sentia... desde os doze anos. Me aproximei devagar da barraquinha. As crianças já estavam lambendo os dedos, com os rostos sujos de rosa e azul. Vi a vendedora, uma senhora de avental manchado e sorriso orgulhoso, preparando outro. — Posso pegar um? — perguntei, quase sussurrando. Ela me olhou com surpresa e carinho. — Claro, filha. Esse aqui é fresquinho. Foi feito com fé e panela velha. Peguei o algodão doce com as duas mãos. Dei uma mordida pequena. O açúcar derreteu na minha boca como infância. Me vi, por um segundo, naquela praça, antes de ser descoberta. Antes dos saltos, das fotos, dos vômitos forçados e dos desfiles. Vi a menina que só queria isso. Açúcar no dedo. Riso no rosto. Paz no peito. Fechei os olhos por um segundo. Quando abri, VT estava me olhando da moto, com um meio sorriso nos lábios. — Tá vendo? Aqui o luxo é outro. — Melhor que Paris. — murmurei, sem pensar. Ele arqueou uma sobrancelha. — Que que tu falou? — Nada. — limpei os dedos no short. — Só tô dizendo que... às vezes, o que parece simples é o que mais falta pra gente. VT fez um gesto com a cabeça. — Sobe aí, princesa. Tem mais morro pra te mostrar. Subi na garupa, depois de pagar a mulher com o algodão doce ainda na mão. Me apoiei nas costas dele. E, enquanto a moto voltava a subir pelas curvas apertadas, percebi que o coração batia num ritmo estranho. Um misto de liberdade.
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