Terminei o café da minha mãe em silêncio. O gosto de pão com manteiga e café forte era quase sagrado, ritual meu desde moleque. Mas nem isso descia direito quando o telefone vibrou no bolso pela terceira vez em menos de cinco minutos.
Era o Jefinho. Se ele liga, é porque o buraco tá fundo.
Atendi, já saindo pela porta.
— Fala.
— Tá dando merda aqui, VT. O Binho se estressou com o Sombra, disse que o cara vendeu no lugar errado. Já teve gritaria e tão falando que vai ter troca de tiro.
Fechei os olhos por um segundo. Respirei fundo.
O morro era meu, mas a paz precisava ser negociada todo dia.
— Tô chegando.
Desci a viela com passo firme. A moto ficou pra trás. Agora não era hora de desfile. Era hora de presença.
E minha presença, ali, era mais forte do que qualquer arma.
Os becos da parte mais baixa do morro tinham outra energia. A quebrada sorridente, onde a criançada brincava e a tia vendia bolinho na porta, dava lugar a um silêncio de tensão. O som do rádio abafado, um portão se fechando devagar, olhos espiando pelas brechas da janela.
A boca ficava ali. No fundão. Um ponto de venda improvisado, que eu sempre tolerei dentro do mínimo: sem tiro, sem criança envolvida, sem violência gratuita. Era um acordo informal, mas sagrado.
E estavam prestes a quebrar esse acordo.
Quando virei na última viela, vi os dois. Binho, magrelo, falante, sempre de boné torto e peito inflado de arrogância. Sombra, mais velho, calado, mas com olho de quem viveu coisa demais.
Entre eles, uns cinco moleques armados. Todos tensos. Aquela tensão muda, onde basta uma palavra errada pra tudo ir pelos ares.
— Epa. — falei, alto o bastante. — Que p***a é essa aqui?
Os olhares se viraram pra mim na hora, as mãos abaixaram as armas e os olhos vacilaram.
VT tinha chegado.
Caminhei devagar. O chão irregular de cimento gasto sob minhas botas. Meu corpo dizia calma, mas minha voz... minha voz vinha com corte.
— Tão querendo virar zona agora? É isso? Tão esquecendo onde tão?
— Não foi isso, VT — Binho começou, ansioso. — É que ele veio vender no meu pedaço. Isso aqui é área do lado de cima, cê sabe...
— Sei o c*****o, moleque. — cortei. — Sei que ninguém aqui morre por desentendimento de território. Sei que o combinado é claro. Cada um no seu quadrado, sem invasão, sem confusão. E principalmente: sem colocar o nome do morro na boca de sangue.
Olhei pro Sombra.
— Tu sabe das regras. Por que mexeu no vespeiro?
— Eu só desci porque o ponto de cima tava vazio. Só por hoje. Juro, VT. Não era pra causar.
— Então por que tá com dois moleques armados atrás?
Sombra engoliu seco.
— Pra me proteger. O Binho chegou gritando, pensei que ia partir pra cima.
Voltei pro Binho.
— Tu é maluco de gritar em ponto? Tem criança dormindo a dez metros daqui. Tu quer ser lembrado como o i****a que trouxe o caos pro Rosário?
Ele baixou a cabeça.
— Não, VT...
— Então escuta o que vou dizer uma vez só.
Silêncio.
— Próximo que levantar tom, apontar arma, ou sair da linha dentro da quebrada... tá fora. E quando eu digo fora, é fora de tudo. Sem proteção, sem aviso.
Tu acha que é r**m seguir minhas regras? Experimenta viver sem elas.
Olhei pros dois.
— Resolvido?
— Resolvido. — disseram quase em uníssono.
— Então dá a mão. Agora.
Eles hesitaram.
— Eu disse agora.
Se cumprimentaram com má vontade. Mas o gesto foi feito. E isso bastava. Por enquanto.
— Sai fora os dois. Amanhã quero vocês na reunião com o Conselho da comunidade. Vai ter mutirão no sábado. Se não tiver presente, vou saber. Agora vaza. Leva os teus.
Enquanto eles saíam, ouvi um suspiro aliviado de um dos moradores que espiava da porta. Me virei e acenei.
— Tá tudo sob controle.
E tava. Porque eu tava ali. Só quando todos tinham ido é que relaxei os ombros. O morro era vivo. Pulsava. E controlar esse coração descompassado exigia mais do que liderança. Exigia entrega. Atenção. Inteligência. Não era sobre gritar. Era sobre saber a hora certa de calar e a hora exata de falar.
Passei a mão no rosto, sentindo o suor quente na pele. E ali, no meio da viela vazia, pensei nela.
Ayla. Como aquela menina de olhar duro sobreviveria num lugar onde as regras mudam a cada esquina? Onde a lealdade é moeda e o erro custa mais que dinheiro?
Talvez ela tivesse mais a ver com esse lugar do que eu imaginava. Mas isso, só o tempo ia mostrar.