Eu escrevi a carta pro Victor como quem encosta a mão numa ferida e decide não puxar. Não porque eu não queria ele. Não porque eu não queria falar. Mas porque eu sabia que, se eu fosse atrás dele naquele estado, eu ia tentar me explicar até perder a própria dignidade. Eu ia implorar por um olhar menos duro, por uma raiva menor, por um "eu entendo". E eu não podia. Não agora. Não com o morro em risco. Não com polícia e internet farejando qualquer coisa que parecesse "fuga", "sequestro", "confronto". Eu precisava ir sem barulho. Eu precisava fazer do jeito que não deixasse rastro. Sentei na cama com uma folha arrancada do caderno que Dona Tereza guardava na gaveta da sala e uma caneta que falhava. A mão tremia tanto que eu tive que apoiar o pulso no joelho pra conseguir escrever reto.

