O jantar continuava tranquilo, mas algo havia mudado no ar.Eu girava lentamente a taça de vinho entre os dedos enquanto observava discretamente o movimento do restaurante.
Eu não estava olhando apenas para o mar.Estava prestando atenção nas pessoas.
Principalmente… em duas delas.
Dois homens sentados em uma mesa mais distante, aparentemente conversando entre si. Usavam ternos escuros e tinham posturas rígidas demais para simples clientes.
Eu os observou por alguns segundos.
Então sorriu de leve.
— Você trouxe companhia — disse calmamente.
Lorenzo ergueu uma sobrancelha.
— Companhia?
— Aqueles dois homens ali atrás.
Ele não virou o rosto.Mas seus olhos ficaram mais atentos.
— O que tem eles?
Eu apoio o queixo na mão, olhando para ele com um pequeno sorriso provocador.
— Eles são os mesmos homens que estavam na praia hoje mais cedo.
Pela primeira vez naquela noite, Lorenzo ficou realmente surpreso.
Ela havia percebido.Eu inclino levemente a cabeça.
— Eu reparei porque os dois têm o mesmo jeito de andar.
— E que jeito é esse?
— Como soldados.
Ela tomou um gole de vinho.
— Sempre observando tudo ao redor… principalmente você.
O silêncio caiu entre nós por um momento.Então Lorenzo finalmente riu baixo.
— Você é muito observadora.
— E você é muito protegido para alguém que disse estar só de passagem.
Os olhos dele brilharam com diversão.
— Talvez eu tenha alguns amigos preocupados comigo.—Eu cruzo os braços.
— Amigos não costumam seguir alguém pela cidade inteira.
Eu me inclino um pouco sobre a mesa.
— Quem é você de verdade, Lorenzo?
A pergunta pairou entre nós .Ele poderia mentir,falar a verdade…Mas por algum motivo, decidiu apenas sorrir.
— Um homem que faz negócios complicados.
— Isso eu já percebi.
Eu relaxou na cadeira.
— Mas fique tranquilo. Eu não sou curiosa a ponto de me meter em problemas.
Lorenzo a observou em silêncio.
— A maioria das mulheres ficariam nervosas ao perceber que estava sendo observada por seguranças.
Mas eu não.Eu apenas analisei a situação… e cheguei à conclusão sozinha.
Aquilo talvez o deixasse intrigado.
— Você não parece assustada — comentou ele.
Eu dou um pequeno sorriso.
— Eu cresci vendo homens armados andando atrás das pessoas.
As palavras escaparam antes que eu pudesse evitar.Por um segundo, os olhos de Lorenzo se estreitaram.
— Sério?
Então percebi o que havia dito.Rapidamente dei de ombros.
— Minha família tinha… negócios complicados.—Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
Percebi que nele cresceu curiosidade,mas pra mim aquilo já tinha passado dos limites.Nao posso confiar fácil assim.Mas antes que pudesse perguntar mais, eu me levantou.
— Já está tarde.
Lorenzo olhou o relógio.
— Você está certa.
Nós caminhamos juntos até o carro.
*******
Durante o trajeto pelas ruas silenciosas da cidade, nenhum de nós dois falou muito.
Quando chegamos ao prédio onde ela morava, saiu e abro a porta do carro para ela.
— Obrigada pelo jantar.
— Foi um prazer.
Ela começou a subir os degraus da entrada, mas parou no meio do caminho.
Virou-se novamente.
— Lorenzo?
— Sim?
Um pequeno sorriso surgiu no rosto dela.
— Da próxima vez que quiser me impressionar… pode mandar seus seguranças serem menos óbvios.
Ele riu.
— Vou avisar.
Ela entrou no prédio e desapareceu escada acima.
Eu permaneço parado por alguns segundos olhando para a porta fechada.
Então soltou um pequeno suspiro.
— Interessante… — murmurou.
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Mais tarde — Casa De Santis
A mansão ficava em uma colina com vista para o mar.Grande, silenciosa e cercada por segurança.
Eu caminhava pelo escritório enquanto dois homens estavam diante dele.Eram os mesmos seguranças do restaurante.
— Don — disse um deles — notamos algo estranho hoje.
Eu me servo um pouco de uísque.
— O homem que entrou no restaurante — continuou o segurança. — Ele estava olhando para a mesa do senhor… mas… não parecia interessado no senhor.
Lorenzo levantou os olhos.
— Para quem?
— Para a garota.
O silêncio tomou conta do escritório.
— Ele parecia reconhecer ela — acrescentou o outro.— Nunca vi ele por aqui.
Lorenzo ficou pensativo por alguns segundos.
— Vocês seguiram ele?
— Perdemos ele quando saiu.
Lorenzo virou-se lentamente para a janela que dava vista para o mar escuro.
Algo naquela situação não estava certo.
— Descubram quem ele é — disse calmamente.
— Sim, Don.
Nesse momento, a porta do escritório se abriu.
Um homem entrou.Alto, elegante, cabelos como os meus e olhar inteligente.
Era Riccardo, o consigliere da família De Santis — o homem mais próximo de mim o meu irmão.
— Lorenzo — disse ele — temos problemas.
Eu me viro.
— Os Moretti?
Riccardo assentiu.
— Eles estão tentando tomar parte do porto de Palermo.
Lorenzo deu um pequeno sorriso frio.
— Eles não aprenderam da última vez.
Riccardo caminhou até a mesa.
— Também há rumores de que os Bellini estão voltando a fazer negócios na região.
Ao ouvir aquele nome, me olhar sobre aquela situação mudou.
Bellini.
Uma das famílias mais perigosas da Sicília.
— Interessante — murmuro..
Riccardo cruzou os braços.
— Quer que eu investigue?
Eu fico em silêncio por um momento.
— Soube que aconteceu uma reviravolta na família.Estão dizendo que alguém de dentro adoeceu,porém não sabe exatamente quem,se é Dominic ou um de seus filhos. — fala um dos meus homens que me acompanham-me como seguranças.
— Dizem que a filha deles é linda,e gostosa também.
— Um do informantes de dentro,não conseguiu o acesso,a garota parece não querer saber nada da família,nunca apareceu nas vistas de ninguém,tanta proteção que talvez ela tenha adoecido.
— Uma família que tem uma regra tão rígida quanto a nossa.
Riccardo fala.
— Parece que ele tem mau um filho também.
Então lembrou do rosto de Nielly.Do jeito calmo dela.Da forma como percebeu os seguranças.
— Sim — respondeu finalmente.
Ele tomou um gole do uísque.
— Quero saber tudo que está acontecendo na Sicília.
Riccardo assentiu.
Mas antes de sair, Lorenzo acrescentou:
— E também quero descobrir algo mais.
Riccardo ergueu uma sobrancelha.
— O quê?
Um pequeno sorriso surgiu no rosto do Don.
— Tudo sobre uma garota que estava comigo hoje,quero mais além daquele relatório.Ele percebeu vocês no restaurante,e relembrou que estavam na praia comigo também.
— Sinal de que não é tão ingênua assim.É agente?FBI?Serviço secreto?
— Não,ela só é esperta,e atenta demais,para meu gosto.
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Porque algo dizia a Lorenzo que aquela mulher…não era apenas uma confeiteira tentando começar uma nova vida.E se o destino estivesse brincando com ele…
Talvez ele tivesse acabado de se apaixonar pela única mulher que nunca deveria amar.