O carro preto em que estávamos deslizou pelas ruas estreitas da pequena cidade costeira enquanto a noite tomava conta da Sicília.
Pelas janelas, eu via as luzes amareladas das casas antigas, varandas cheias de flores e pequenos restaurantes onde pessoas riam e conversavam sob lanternas penduradas.
Era o tipo de lugar que parecia saído de um sonho.E por um momento, eu quase esqueci quem era.
— Você está muito quieta — comentou Lorenzo, quebrando o silêncio.
Me viro levemente o rosto para ele.
— Estou pensando.
— Isso parece perigoso.
Riu baixo.
— Você sempre tenta ser engraçado?
— Só quando a pessoa ao meu lado parece prestes a fugir do carro.
Eu cruzo os braços.
— Eu não estou fugindo.
— Ainda.
Eu olho para ele de lado.
— Você é muito confiante.
— Experiência.
Ele parou o carro diante de um restaurante elegante próximo ao porto. O lugar era iluminado por pequenas luzes douradas, e mesas estavam espalhadas em um terraço com vista para o mar escuro.
Lorenzo saiu primeiro e abriu a porta para mim.
— Depois de você.
Eu saiu do carro e olho ao redor.
— Você chama isso de jantar simples?
Ele deu de ombros.
— Eu gosto da comida daqui.
Nós caminhamos até uma mesa próxima ao parapeito de pedra que dava vista para o mar.O som das ondas era suave, quase hipnótico.Um garçom se aproximou imediatamente.
— Boa noite, senhor.
O tom dele era respeitoso… talvez respeitoso demais.Eu percebo que Lorenzo apenas assentiu com a cabeça.
— Boa noite.
O garçom parecia prestes a dizer algo mais, mas Lorenzo lançou um olhar discreto que o fez apenas anotar o pedido e se afastar rapidamente.
Eu observo aquilo em silêncio.
— Você vem muito aqui — comento
— Algumas vezes.
— Eles parecem conhecer você.
Lorenzo pegou o copo de água da mesa.
— Eu passo muito tempo na Sicília.
Eu inclino levemente a cabeça.Uma coisa que meu pai e meus irmãos me ensinaram,observar alguém,movimentos,falas,pequenas ações,jeito de olhar,e observar.
— Mas você disse que estava só de passagem.
Ele deu um pequeno sorriso.
— Eu disse que estava passando alguns dias na cidade.
Eu estreito os olhos.
— Você escolhe bem as palavras.
— Um hábito útil.
O garçom voltou com vinho e começou a servir as taças.
Eu olho para o mar por um momento antes de falar novamente.
— Então… Lorenzo.
— Sim?
— O que você faz?
Por uma fração de segundo, ele ficou em silêncio.
— Negócios.— riu.
— Essa é a resposta mais vaga que existe.
— Funciona na maioria das vezes.
— Eu imagino.
Eu pego a taça de vinho e giro o líquido vermelho lentamente.
— Você não parece um turista… nem um simples homem de negócios.
Os olhos de Lorenzo se fixaram em mim.
— E você não parece apenas uma garota que trabalha em uma confeitaria.
O meu coração bateu um pouco mais forte.
— O que quer dizer com isso?
Ele deu de ombros.
— Nada específico.
Mas o olhar dele dizia o contrário.
Por um momento, nós dois ficamos em silêncio novamente.
Algo estava crescendo entre nós.Curiosidade.Tensão.Talvez algo mais perigoso.
Então Lorenzo mudou o assunto.
— Você sempre quis trabalhar em uma confeitaria?
Eu sorriu levemente.
— Quando eu era criança, queria ser muitas coisas.
— Como o quê?
Ela pensou por um momento.
— Livre.
A resposta saiu tão rápido que ela mesma ficou surpresa.Lorenzo não riu.Não fez piada.Ele apenas a observou.
— E agora?
— Agora eu estou tentando descobrir como é isso.
Ele levantou levemente a taça.
— Então espero que esteja encontrando.
Eu encosto a taça na dele.
— Talvez.
********
Naquele momento, um homem entrou no restaurante.Ele parou na entrada e começou a observar as mesas.Quando seu olhar caiu sobre Nielly…
Ele congelou.
Seus olhos se arregalaram lentamente.
— Não pode ser… — murmurou ele.
Porque aquela garota sentada diante do homem mais poderoso da máfia da Sicília…
Era alguém que ele conhecia muito bem.Nielly Bellini.
A filha da família rival.
E ela estava jantando com o próprio Don Lorenzo De Santis.
O homem pegou o telefone lentamente.
Se alguém descobrisse aquilo…Uma guerra poderia começar.